TDAH

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Este post não é pra quem costuma tentar chutar ou explicar aquilo que desconhece através de sofismas, de frases de almanaque ou de crenças esotéricas ou acientíficas. Então, argumentos como ‘falta de laço’, ‘rebeldia sem causa’, ‘fraqueza emocional’, ‘burrice’, ‘masoquismo’ ou ‘pessimismo’ realmente não levam a lugar algum.

Normalmente, não sou muito afeito a detalhar pontos fortes ou pontos fracos da minha personalidade e nem me aprofundar em fatos ou em detalhes íntimos. Este post não é um lamento, nem um desabafo pois, felizmente, o momento é extremamente positivo na minha vida em todos os sentidos. Contudo, vou falar sobre algo que sempre estará junto comigo e que representa a eterna luta do anjinho contra o diabinho, ambos pousados sobre cada um de meus ombros, ambos tentando botar pilha em mim enquanto um corneteia o outro.

Não se trata de nenhuma analogia entre ego, alterego e id nem sobre eros e thanatos: falo sobre uma característica pessoal que alguns milhões de brasileiros e centenas de milhões de pessoas espalhadas pelo planeta apresentam, que funciona como uma faca de dois gumes. Não dá pra se chamar de uma doença e tampouco constitui-se em um desvio de conduta. Mas a sua incompreensão cria problemas emocionais e profissionais sérios. Tanto a incompreensão de quem passa por isso como de quem desconhece a importância da necessidade de se compreender e de se estimular o lado positivo da coisa.

Falemos sobre algo que era chamado de ‘LESÃO CEREBRAL MÍNIMA’ (década de 1940), ‘DISFUNÇÃO CEREBRAL MÍNIMA’ (década de 1960), DDA ou DÉFICIT DE ATENÇÃO (década de 1980) e, mais recentemente, segundo os sistemas de classificação em psiquiatria CID-10 e DSM-IV, TRANSTORNOS HIPERCINÉTICOS no primeiro e TRANSTORNO DO DÉFICIT DE ATENÇÃO/HIPERATIVIDADE no segundo.

Fiz quase três anos e meio de terapia entre 2004 e 2007. Em parte, ajudou demais no meu autoconhecimento, nos relacionamentos afetivos (família, amigos, namoradas e o lado não-profissional de colegas e chefes corporativos) e me trouxe um montão de bagagem cultural. Quando o psiquiatra ou o psicólogo é realmente qualificado, o método de abordagem dele e a sua empatia coincidem com os nossos, apesar da relação fria que jamais deverá estender-se para fora daquela uma hora semanal em consultório. Pra quem pensa que é caro, há programas de assistência comunitária em todas as faculdades da área e nos hospitais públicos mais bem estruturados. Há ainda uma alternativa paga, porém muito mais barata do que o habitual, encontrada em cursos de pós-graduação stricto sensu oferecidos por associações não-acadêmicas de reciclagem profissional. E quem decide o momento da alta, desde que perceba várias evoluções em si mesmo e sinta-se capaz de resolver as questões ainda pendentes sem dramas ou instabilidades severas, é o próprio paciente assistido por um profissional honesto.

Como bom observador, obsessivo e extremamente estudioso, comprei dois livros sobre o transtorno e li vários artigosd acadêmicos. Durante a faculdade, fiz todas as disciplinas optativas de Psicologia e ainda fiz mais uma como aluno especial no PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM PSICOLOGIA SOCIAl da UFRGS e um curso de extensão sobre PROGRAMAÇÃO NEUROLINGUÍSTICA (PNL) com o prof. SÉRGIO SPRITZER também na UFRGS.

Mais adiante, para o doutorado, é muito provável que eu acabe fazendo um caminho diverso em relação ao da maioria dos pesquisadores de REDES SOCIAIS e de COMUNICAÇÃO MEDIADA POR COMPUTADOR (CMC), cujo cunho é ou sociológico (apaixonante, interessante) ou matemático-biológico (parcialmente interessante e que envolve mais a forma do que o conteúdo), utilizando ainda mais a HISTÓRIA do que utilizei na dissertação de mestrado e, sobretudo, a PSICOLOGIA.

Quase me prejudiquei no mestrado porque tenho o péssimo hábito de procrastinar, isto é, de deixar as coisas para a última hora. Tal hábito, além de render um stress monumental e incomodações que poderiam ser evitadas com pessoas que estão dispostas a me ajudar (correndo seriíssimo risco de perder a confiança delas) não mudou nem mesmo com a terapia. Esse processo aparentemente autofágico inclusive me custou, em duas ou três oportunidades, a possibilidade de ter entrado no meio acadêmico há pelo menos cinco anos ou, então, me impediram de dar ou de receber a chance de estabelecer uma continuidade para enriquecer o meu currículo enquanto ainda tive estímulo para permanecer no meio corporativo. ÉDe certa forma, isso tende a fazer com que a satisfação inicial com determinada atividade logo se transforme em mau humor e em falta de persistência.

Esse hábito prejudicial também manifesta-se da seguinte forma: se eu preciso trabalhar em um projeto de longo prazo, caso consiga produzir bastante e com muita antecedência, sempre chegará um momento em que, a despeito da opinião de terceiros, aquilo que eu fiz até então, na minha cabeça, se parecerá superficial, mesmo que não esteja. Como não sou muito afeito a requentar o que já foi feito, jogo tudo fora e recomeço tantas vezes quantas for necessário.

Além da procrastinação, outros sintomas sempre presentes e facilmente observáveis são: baixa tolerância ao fracasso, indecisão, distração constante, falta de objetividade, esquecimento constante de pequenas tarefas cotidianas, falta de método organizacional (inconsciência em relação à necessidade de estruturar todos os setores da vida a fim de ser mais produtivo, menos estressado, mais seguro e de desfrutar melhor do ócio, da afetividade e da sociabilidade) e dificuldade de ser autônomo, isto é, de achar-se autosuficiente e livre.

Dependendo do contexto familiar, afetivo e profissional, quem apresenta TDAH pode ser taxado de lunático, de burro ou de perdedor. O lado obsessivo da síndrome associado com a incompreensão externa pode levar ao TOC (TRANSTORNO OBSESSIVO-COMPULSIVO – em mim, era mais visível durante a infância e a adolescência) e/ou à DEPRESSÃO (foi o meu caso). Normalmente,  isso leva a exageros diversos como vícios em drogas, adrenalina ou sexo. Apesar das tentações sempre próximas, de todos esses passei batido por pura sorte, por excesso de consciência e devido ao lado bom da criação conservadora que tive. E, apesar da distração e das “viagens”, felizmente, ao contrário da maioria, sempre fui bom aluno e confiante intelectualmente.

Como nunca fiz viagens longas e duradouras e só morei praticamente sozinho por três meses apesar de já ter vivido por quase onze meses no RIO DE JANEIRO, não dirijo e não terei condições de praticar esportes regularmente enquanto estiver fazendo o tratamento para HEPATITE C, a impulsividade constante e a necessidade de adrenalina represada resultam na procrastinação. Além disso, existe uma grande seletividade em relação aos estímulos auditivos, visuais, táteis ou ao paladar que, ou são extremamente prazerosos, ou são absurdamente agressivos.

Qual o lado bom? Vários. Se, por um lado, a desconcentração é mais percebida quando, definitivamente, não se tem a consciência da real necessidade de valorizar ou de se aceitar determinados assuntos, há uma série de pequenos interesses muito pontuais e especializados em que aparece uma hiperconcentração, fazendo com que o resultado da adrenalina e da obsessão canalizados por um foco resultante da estruturação mediante TERAPIA COGNITIVO-COMPORTAMENTAL produza frutos notáveis.

Digamos assim: à exceção de pessoas altamente focadas, disciplinadas, extremamente competitivas e desinibidas ou daqueles que apresentam verdadeiras síndromes e doenças mentais, isso é o que há de mais próximo entre parecer o mais estúpido entre os imbecis ou um aspirante a gênio. Há também um quê de autismo nos momentos de extrema obsessão ou de entusiasmo, já que é comum começar a falar antes do outro terminar o que já disse, ou de responder a uma pergunta ainda incompleta e de PARECER não estar nem aí para o que a maioria está conversando porque, ao invés de olhar sempre nos olhos ou de fazer parte da roda não apenas com o corpo, se está olhando para os pássaros da árvore em frente, ou para o pedaço do reboco que caiu perto da viga dentro da sala de aula. Porém, do nada, o portador de TDAH entra na conversa com tudo e 100% contextualizado.

Em função dos constantes esquecimentos e da necessidade de estruturação, esse é o cara que precisa viver em função da ‘PENTELHAÇÃO’ sistemática da mulher, pais, irmãos, filhos e amigos: o cara vai deixar tudo pra última hora, mas vai fazer muito bem feito – a não ser que estoure o prazo e se ferre.

Os outros tem que ligar, mandar-lhe e-mails e interromper o que ele está fazendo com avisos constantes. Já o TDAH precisa colar post-its na mesa, criar toques barulhentos na agenda do computador, fazer o despertador do celular tocar a todo instante e ter um mural com atividades semanais coloridas por legenda.

Em função de tudo isso, normalmente, portadores de TDAH tendem a se dar melhor dividindo grandes atividades em pequenas tarefas. Uma dificuldade constante é a de lidar com atividades mecânicas, corriqueiras, repetitivas sem reclamar, sem desistir e tendo sempre em mente o que essa parte enfadonha pode lhe beneficiar no futuro. Além disso, não é nada bom trabalhar com algo que só deverá realizar-se a longo prazo.

Esse transtorno da era da REMEDIAÇÃO ou da MIDIATIZAÇÃO faz com que seus portadores tendam sempre a correr atrás de novidades e se deem melhor ao assimilar e ao produzir estímulos nos outros. São generalistas com um dom especial de gerar bens simbólicos de maneira altamente competente. Por isso, é comum encontrá-los nas Artes, nas Letras, na Comunicação, na Tecnologia e nos esportes radicais.

O poeta FERNANDO PESSOA disse que CADA UM SABE A DOR E A DELÍCIA DE SER O QUE É. No momento em que se percebe isso, a vida com TDAH passa a ser verdadeiramente empolgante e a maioria dos problemas passa a ser contornada com maior serenidade e equilíbrio.

Então, ao invés de um BIPOLAR, que possui DR. JECKYLL e MR. HYDE dentro de si, um TDAH possui o PINKY e o CÉREBRO dentro de si. :)

Bem… Adoro falar sobre o assunto. E deixo um recado: nunca pune nem demite  alguém por falta de paciência quando a pisada na bola for reflexo de toda essa conjunção de fatores. A maneira como o ambiente lida com um TDAH é condição sine qua non para o seu fracasso ou para o seu sucesso.

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2 comentários em “TDAH
  1. Luciana Jucá disse:

    Oi, achei ótimo a forma como você descreveu o problema. Entrei na internet disposta a “pesquisar sobre os esquecimentos cotidianos”. Queria ter idéia de que profissional procurar: Um psiquiatra ou um neurologista?
    Sempre achei que ser distraída era uma característica minha. Uma coisa que geralmente me fazir rir das minhas próprias trapalhadas. Talvez porque nunca teve consequencias graves. Pra você ter idéia a música que meus amigos escolheram para mim na formatura foi uma do Balão Mágico que o refrão era “eu vivo sempre no mundo da lua”.
    Ultimamente tem perdido a graça, esqueço compromissos importantes, deixo as pessoas na mão. Tá ficando desagradável! Não sou uma pessoa irresponsável, mas estou passando recebo de ser. Vou tentar pesquisar formas de briblar “os sintomas” acinando a memória externa ( celular, lembretes, amigos, os compreensivos é claro! ) e tentar me organizar. E a consulta com um profissional . Um abraço Lú.

  2. TDAH Video disse:

    […] first collected Added 06 Feb 09 from heliopaz.wordpress.com Flag as inappropriate or […]

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