A SOCIEDADE ATUAL E A POLÍTICA CIBERATIVISTA

Infelizmente, o retrato do pensamento social, ambiental, ideológico e profissional da maioria da população de Porto Alegre e do Rio Grande do Sul justificam plenamente a presença dos atores palamentares (em todos os sentidos – do melhor ao pior) que a representam – fruto de sua alienação e da sua incompetência como cidadãos. E isso independe de partido ou de ideologia, pois verificamos deputados estaduais e vereadores arrogantes, clientelistas, oportunistas, ignorantes, bravateiros, incompetentes, despreparados e mentirosos em todos os partidos. Todos os mesmos adjetivos a eles dados valem para todos os seus eleitores.

Enquanto muitos seguem ora defendendo, ora culpando o Estado de acordo com suas crenças e interesses (tanto comunitários como individuais), a forma mais eficiente de pressionar o poder e reivindicar ou a obediência, ou a criação de novas leis baseadas na sustentabilidade (de tal forma que o homem e a natureza jamais possam ser dissociados e que o homem deixe de ser privilegiado como um ser superior aos outros e “dono” do planeta) é resistir.

A resistência pós-moderna consiste em utilizar as mesmas armas que o Império (Negri e Hardt, 2001) utiliza para propagar a sua hegemonia de acordo com o contexto social, econômico, político, cultural e tecnológico.

Hoje, classe operária e povo são conceitos considerados contemporâneos tão-somente como a forma de resistência adequada ao império do capitalismo taylorista-fordista. Na pós-modernidade, o Império pode ser mais eficientemente contestado através da Multidão (Negri e Hardt, 2003), que opera através da mesma sociedade em rede (Castells, 1996) através da qual o capital volátil é transferido e acordos são fechados através da CMC (Comunicação Mediada por Computador), que envolve uma série de TICs (Tecnologias da Informação e da Comunicação) [1] e o empoderamento de comunidades carentes através da inclusão digital, capacitando-os para realizar o Jornalismo Cidadão [2].

É a partir dessas iniciativas DESCENTRALIZADAS, APARTIDÁRIAS (quando muito, ONGs, associações de bairro, profissionais e, em casos pontuais, entidades de classe), SEM UMA LIDERANÇA CENTRAL e AUTO-ORGANIZADA (todos têm um objetivo comum, mas cada um divulga, apóia e critica da maneira com que acha melhor fazê-lo seja individual ou coletivamente) que vem a emergência (Johnson, 2001) das manifestações presenciais iniciadas a partir do ambiente digital.

Por que deve ser dessa forma? Porque, independentemente do fato de a mídia corporativa divulgar e emitir juízos de valor eminentemente favoráveis a seus patrocinadores (latifundiários, banqueiros, grandes industriais – todos em rede, bastante unidos, concordando com o deserto verde; com a especulação imobiliária; com a cultura do automóvel; da hidrelétrica; da termelétrica; da usina nuclear; do plástico; e da grama ao invés da horta e, finalmente, com a criminalização dos movimentos sociais do campo e da cidade – professores, policiais, bancários e funcionários subalternos injustiçados por baixos salários, treinamento pobre e carga horária excessiva) e de trabalhar pela despolitização, pelo esvaziamento do espaço público (praça, rua) e pela falta de debate, a sociedade oportunista, passiva, egoísta, dinheirista e hedonista da atualidade só consegue saber dos problemas a partir da mediação dos meios de comunicação.

Ora, como a participação política é confundida com participação partidária e como educação, saúde, gestão pública e privada competentes e – acima de tudo – segurança não são vistos no Brasil como um direito, os Três Poderes não conseguem dar conta das demandas da sociedade, pois são dependentes e geram dependência da e na Grande Mídia, do e nos órgãos públicos, das e nas megacorporações e assim por diante.

É preciso que a esquerda (partidária, sindicalista ou apenas conceitual), as ONGs e os movimentos comunitários em geral tomem a consciência de que povo e classe operária representam muito pouco em termos sociais, pois suas práticas de “luta” (e não de resisência) ainda são voltadas para o equívoco de quererem tomar o poder e de se considerarem marginais. Todavia, a sociedade é multifacetada e multicultural: apesar de ser impossível viver em um mundo sem conflitos entre classes, queiram ou não, todos os habitantes do planeta estão conectados entre si (isso não é tecnófilo e nem tampouco apenas simbólico) e todos dependem de todos (mesmo que não acreditem ou não tenham a consciência disso). Portanto, não pode haver preconceito nem a negação das possibilidades de concordância PONTUAIS e FRAGMENTADAS que propiciem diálogo e integração política, econômica e social junto aos ricos e à classe média alta. Não é preciso se vender nem tampouco ser incoerente para se dar conta disso.

Greves de professores, policiais e bancários, por mais  justas que o sejam, são inócuas em relação a alguma mudança verdadeiramente SIGNIFICATIVA, GRANDE, IMPORTANTE a favor dessas classes: a sociedade manda contra esses movimentos porque a) interrompem o fluxo de pensamento, de dinheiro, de trabalho e de veículos. Conseqüentemente, não chamam a atenção de maneira positiva, atraindo para esses setores uma imagem amplamente negativa a partir de uma percepção que não é, neste caso, majoritariamente ditada pelo discurso midiático, que apenas reflete o interesse conservador de seus consumidores; e b) Porque são organizadas por partidos e sindicatos, que normalmente só possuem competência para avaliar a sua própria especialidade e contam com alguma consulta jurídica – nem sempre de qualidade, que vivem dissociados da sociedade escolhendo para si uma posição coitadista de marginais (neste caso, a ação do capital e do discurso da mídia corporativa para essa postura sindical é, ao contrário do que os marxistas pensam, menor do que o interesse dessa cultura sindical em considerar a si mesmos como marginais).

Portanto, as estratégias de resistência devem ser mediadas e não diretas. Primeiro, porque a ação social, a comunicação e a negociação já ocorrem no ambiente online; segundo, porque quase ninguém se arrisca (ou, quando se arrisca, não possui convicção suficiente) a fazer manifestações offline; terceiro, porque as pessoas que não possuem a experiência inata (Rodrigues, 2001) de terem nascido em um mundo no qual não precisam desenvolver a competência para utilizar a tecnologia midiática predominante em seu tempo não conseguem compreender que os meios de transporte e de comunicação que resultam nas formas de resistência de cada época dependem diretamente da competência inata ou, seja, daquilo que não foi preciso aprender através de um curso ou de transmissão cultural. Por exemplo: para o Império Romano até a Revolução Industrial em terra, o cavalo, a carruagem e a carta; para os “descobrimentos”, o navio e a panfletagem; para a Revolução Industrial, o trem e a fotografia; para o taylorismo-fordismo, o cinema; para o capitalismo especulativo e caótico das guerras mundiais, o rádio; para a Guerra Fria, a televisão; e, finalmente, para a economia volátil globalizada, a internet.

Apesar do uso da tecnologia da rede e da mediação digital ainda serem estrategicamente incipientes no Brasil e da falta de democratização nos meios de comunicação, essa falta de democratização é IRREVERSÍVEL e IMPOSSÍVEL: já ouviram falar em conceitos complementares como a Lei 80/20 (Paretto, economista italiano do início do século XX), a Lei de Potência ou, mais recentemente, a chamada Teoria da Cauda Longa (Anderson, 2004)?

Enquanto raríssimos servem como referência e são amplamente conhecidos por todos – inclusive pelos seus oponentes – por estarem altamente conectados e por deterem a hegemonia econômica, política, social e coercitiva (poder e fama) de uma maneira centralizada, por outro lado, uma imensurável maioria de atores sociais possui tanto a aparente desvantagem de possuir muito poucas conexões como também aquilo que realmente interessa:

– A real vantagem representada pelo fado da soma dos pequenos ser sempre maior do que o todo em termos de troca, compartilhamento, acúmulo, transmissão e superação da informação e do conhecimento anterior, gerando em um novo conhecimento, impossível de ser censurado.

Pra terminar: não existe separação, dependência nem dominação das tecnologias em relação ao homem, nem do homem em relação às tecnologias. Não existe “mundo real” e “mundo virtual” no sentido de falso mas, sim, um mundo uno, no qual há, sim, dois ambientes INTEGRADOS de conversação, diálogo, troca de informação, geração de receita e negociação de poder com DIFERENTES PARTICULARIDADES.
__________
NOTAS

[1] Por exemplo: Web Fora (fóruns), listas de e-mail, mensageiros instantâneos (tipo MSN), micromensageiros (tipo Twitter), novos tipos de mensageiros (tipo Plurk), redes de blogs (Sivuca), portais de mídia alternativa (Mídia Independente.org, Indymedia.org, The Real News Network, Global Voices Online) e sites de informação e arrecadação de recursos voltados ao ativismo pelo mundo (Avaaz.org).

[2] Nome que considero mais adequado do que o conceito original dos EUA (Harvey) – Civic Journalism: primeiro, porque  que a tradução literal por Jornalismo Cívico oferece uma conotação diferente no Brasil (Educação Moral e Cívica, OSPB, ser obrigado a ser ufanista de maneira acrítica); segundo, porque o termo mais utilizado por vários pesquisadores (entre eles Fernandes e Traquina), Jornalismo Comunitário, parece referir-se, para quem não possui intimidade com a internet, a pautas exclusivamente voltadas para uma única comunidade ou tipo de comunidade bastante local ou, então, relacionadas à falácia que representam veículos como o Diário Gaúcho (RS), o Extra (RJ) ou o Diário de São Paulo (SP).

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Um comentário em “A SOCIEDADE ATUAL E A POLÍTICA CIBERATIVISTA
  1. […] de 2006, penetrando já na minha especialidade ou, seja, na solução de problemas através do ATIVISMO EM REDE que visa pressionar o poder a fim de evitar prejuízos e de melhorar a qualidade de vida de […]

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