DIPLOMA DE JORNALISTA: NOS TERMOS ATUAIS, SOU CONTRA

Eu sou contrário ao diploma. Em primeiro lugar, porque há cursos de Comunicação caça-níqueis sem núcleos de pesquisa voltados apenas a jogar gado no mercado sem reflexão. Em segundo lugar, porque quase nenhuma das outras áreas da Comunicação conhecidas no Brasil (Propaganda e Publicidade, Relações Públicas, Radialismo e Televisão e COMUNICAÇÃO DIGITAL) é regulamentada.

Não há piso, teto nem diferentes graduações de salário ou de atribuições em função da experiência do profissional.

Além disso, qualquer um pode fazer comunicação aprendendo um pouco de direito e ética e dominando a técnica de maneira autodidata – a internet está aí para isso.

Eu busco ajudar os iniciantes a refletirem sobre o contexto social, econômico, político, cultural e tecnológico a fim de que tomem suas próprias decisões. Cobro-os com um nível de exigência acima da média exatamente buscando valorizar o curso e a importância de se buscar tais referências, pois há uma grande acomodação e má vontade em certos feudos do ensino público, tornando-o tão fraco quanto a formação de gado no ensino privado de baixa qualidade.

Logo, se o iniciante só enxerga como alternativa para si trabalhar para as corporações midiáticas cujos princípios mercantilistas desinformativos insistimos em combater, é sinal de que ele não é politicamente engajado à esquerda, ou, ainda, de que ele acredita em Papai Noel ou considera a griffe mais importante do que o conteúdo.

Os sindicatos nunca trabalharam com duas possibilidades: a) A do empreendedorismo, que traria maior autonomia e possibilidade ao profissional de gerar produtos investigativos de alta qualidade técnica com um discurso menos superficial. Por exemplo, se o GUGA, a TÊMIS e o JÉFFERSON podem ter um coletivo como o CATARSE e vender excelentes produtos para a AGÊNCIA BRASIL assim como outros vendem para o SPORTV, para o GNT, para o DISCOVERY CHANNEL e assim por diante, por que a maioria de seus colegas e os sindicatos não vislumbram essa alternativa? b) A de serem um misto de funcionários e de donos com a TV Digital chegando por aí (embora eu ache que os grandes grupos se apropriarão delas também).

Os sindicatos e a maioria dos profissionais que não foram educados para serem donos é a eterna dependência  de que alguém lhes dê uma oportunidade ao invés deles correrem atrás de alternativas mais gratificantes em modelos de negócio e de trabalho diferenciados. A ajuda maior que qualquer família, amigo de verdade, professor ou chefe honesto pode fazer por um indivíduo é ajudá-lo a encontrar a sua autêntica vocação para que ele possa viver por si, criar, inovar. Os sindicatos vivem essa atrasada visão dicotômica de burguesia x proletariado quando o jornalista JAMAIS se constituiu em um proletário ou em um escravo miserável. Além disso, não enxergam bem outra possibilidade que não seja a de serem empregados injustiçados de um patrão totalitário.

Da mesma forma que um partido político não é mais representante de seus eleitores e não apresenta mais um discurso claro e complexo sem deixar de fazer promessas que não poderá cumprir nem utilizar o precioso tempo disponível para focar-se em propostas concretas ao invés de meramente atacar aos adversários, um sindicato também não consegue dar conta da multiplicidade de possibilidades que o profissional possui para produzir e exigir seus direitos.

Caso os sindicatos funcionassem como uma alternativa de reforço de capacitação profissional para os jornalistas indicando-lhes o caminho do empreendedorismo, cumpririam o fundamental papel social e prático que grande parte das faculdades infelizmente não cumpre. Além disso, a Lei de Imprensa não deveria existir separadamente dos CÓDIGOS CIVIL e PENAL: quem mente, omite, calunia e difama deveria ter diploma cassado, responder a processos com indenizações bem gordas e até mesmo passar um tempo em cana pra aprender o que é bom pra tosse.

No momento em que isso acontecer, aí, sim, os sindicatos e o estabelecimento legal de certas garantias como há para dentistas, médicos, engenheiros, advogados, arquitetos e agrônomos fariam sentido. A grande diferença é que as profissões citadas logo acima possuem uma natureza discursiva e ritual vicária, que acarreta em grave risco de morte e que impede com que um cara como eu possa realizar uma cirurgia, erguer uma construção ou definir um julgamento. Na área da Comunicação, embora ela também tenha seus ritos e suas particularidades, a aprendizagem da técnica é bisonhamente simples.

Por fim, deixo algumas perguntas como provocações que considero bastante pertinentes:

– Um bom cartunista, além de estar antenado com o mundo, ter talento, criatividade e técnica de desenho precisa ser jornalista, publicitário ou designer?

– Alguém que saiba escrever muito bem precisa necessariamente ser da área de Humanas?

– Senso crítico e capacidade investigativa não são habilidades que podem ser desenvolvidas através da vivência de cada um?

– O fato de ser mais ou menos honesto ou de ser mais ou menos independente depende de profissão ou de um certificado?

– O tipo de defesa que o Sindicato dos Jornalistas consegue realizar a fim de proteger seus associados vale cada centavo da contribuição sindical ou ele só luta contra injustiças cometidas pelas corporações de mídia?

Entenderam aonde eu quero chegar? Na TRANSFORMAÇÃO COMPLETA DE UM MODELO INEFICIENTE.

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3 comentários em “DIPLOMA DE JORNALISTA: NOS TERMOS ATUAIS, SOU CONTRA
  1. jucá disse:

    ótimos texto e visão sobre o assunto. vai servir pros debates que participo hoje e segunda a respeito do diploma, e no qual sou a voz oponente a do sindicato.
    aquele abrazo
    tiago jucá
    editor da revista O DILÚVIO

  2. Hélio Sassen Paz disse:

    Luís Felipe,

    Obrigado pelo comentário. É interessante a tua posição. :)

    Eu sou publicitário (mas não exerço) e mestrando em Ciências da Comunicação. Podes pegar qualquer faculdade (das caça-níqueis às que investem em pós-graduação stricto sensu) que nenhuma posição será predominante na maioria dos lugares.

    No momento em que tu falas em falta de consciência de classe e que jornalistas de esquerda acham que jornalistas de direita são qualquer coisa menos jornalistas e vice-versa, passamos para outras questões:

    – O diploma é “bom” porque me garante alguma vantagem financeira ou previdenciária independentemente de eu estar trabalhando com jornalismo ou não?

    – O diploma é “bom” porque eu quero/preciso trabalhar na imprensa corporativa mas não quero ser explorado e, portanto, quero uma salvaguarda para não poder ser substituído por um estagiário?

    – O diploma é “bom” porque eu quero que alguém me defenda porque não posso me defender nem como indivíduo e nem como profissional se estiver sozinho?

    Eu não faço parte da esquerda essencialmente empírica e nada teórica e nem tampouco da esquerda essencialmente teórica e nada empírica. E por ser contra o diploma NOS MOLDES IDEOLÓGICOS, JURÍDICOS e SOCIOLÓGICOS QUE PERMEIAM O MERCADO ATUAL, não quero dizer que sou privatista e nem tampouco que eu defenda o lado da maistream media. Afinal de contas, meu presente e futuro estão diretamente relacionados à qualificação do cara como um ser reflexivo, que use seu cérebro para realizar um trabalho honesto, criativo e de extremo apuro técnico.

    Mas o futuro profissional precisa saber que tem escolha, sim! Ele deve cada vez mais produzir conteúdo para a internet, documentários, programas especiais e vendê-los para redes de TV a cabo, TV digital, rádio digital, blogs profissionais, podcasts, vodcasts…

    …Enfim, é preciso saber que há n formas de trabalho, porém os empregos estão cada vez mais escassos. É a partir daí que se deve refletir acerca do papel SOCIAL do jornalista. A esmagadora maioria daqueles que trabalham para a Grande Mídia definitivamente não é FDP, burra ou bitolada. Só que, independentemente de editoria, cargo ou ideologia do sujeito, eles fazem um troço que lembra muito o jornalismo, mas não é jornalismo.

    Com diploma, eu posso ter tanto um Marcelo Rech como um Guga Türck. Sem diploma, posso ter tanto um Rogério Mendelski como um Juca Kfouri. Isso já é suficiente pra derrubar a idéia de que são a prática e a experiência que definem a qualidade do profissional.

    Mas a essência é formar criaturas que saibam que podem ter o seu bonito nome estampado na página do PIG e ganhar seus 2.000 ou 3.000 reais, prestar concurso público pra escriturário pra ganhar de 1200 a 1700 ou se esforçar pra aprender a lidar com dinheiro, custos de produção, insumos, impostos e ser perspicaz e corajoso o suficiente para estabelecer uma rede social de parceiros, fornecedores e clientes. Aí, com o tempo, o volume de trabalho vai aumentando e vai dar pra cobrar 10.000, 20.000. Se passar um mês a cada dois ou três sem clientes, mesmo assim, em média, consegue tirar bem mais do que um salário do PIG.

    Quem não pensar assim e não for funcionário público em qualquer profissão vai viver procurando alguém que lhe dê uma oportunidade de trocar seu produto técnico e simbólico por dinheiro ao invés de cavar por si só.

    Não, não é nada fácil. Mas o brasileiro médio precisa aprender a empreender. Não é o superavit da balança comercial, nem as privatizações, nem as grandes empresas, os bancos, latifúndios, indústria de remédios, automobilística e construção civil pesada que desenvolvem diretamente um país e, sim, a soma de milhões de pequenos que, devidamente instruídos e encorajados, vão aprender a não deixar seu negocinho quebrar.

    []’s,
    Hélio

  3. Luís Felipe disse:

    bom, pra começar, acredito que o discurso de muitos setores da esquerda (alguns mais radicais, outros nem tanto) contra o diploma é por demais ultrapassado.

    ele está carregado de uma idéia na qual o aprendizado acadêmico é desnecessário em relação ao aprendizado das ruas, não apenas por que haveria uma oposição entre ambos, mas também por que o primeiro torna os estudantes ‘bitolados’, sem espírito crítico. Isso vem de um tempo no qual os professores de esquerda, ou de espírito crítico, eram cassados, presos e quiçá mortos. Esse tempo passou.

    Atualmente, o aluno de uma universidade só não desenvolve o espírito crítico se não quiser, pois todas as ferramentas estão à sua disposição. Tanto o contato com a realidade das ruas, e das periferias, quanto às teorias críticas do ensino acadêmico e os debates acerca da importância do que é discutido em sala de aula. É claro que o estudante de esquerda sempre vai achar insuficiente o que aprende na academia em relação ao que aprende no coletivo do PT, mas muita gente só quer aprender o que lhe interessa ideologicamente.

    A discussão do diploma de jornalista tem tudo a ver com isso. Onde o rapaz de 17 anos recém saído da escola vai ter acesso às teorias, às práticas e ao conhecimento crítico da comunicação senão na faculdade? Na CUFA? No Catarse? Ele terá acesso a um lado da história. Eu já vi guris adolescentes, especialmente no RJ, dizendo que a faculdade de jornalismo era puro marxismo e aprendendo sobre a atividade nos institutos liberais, na Opus Dei, para reproduzir o que se escreve no Mídia sem Máscara. Não é por que não tivemos no Brasil um século XIX ativo em produção de jornalismo partidário, como aconteceu em Paris, que devemos retornar a este século agora. Os blogs estão aí cumprindo essa função. A prática do jornalismo é bem diversa disso.

    Acredito que a postura do sindicato, também, não está exatamente relacionada com um problema estrutural dele mesmo, e sim com uma visão nula de classe por parte dos profissionais. Tá pra nascer uma profissão com menor consciência de classe do que o jornalismo – muito por culpa dessa ideologia atrasada, no qual o jornalista que tem posição política contrária a mim não é um jornalista, talvez seja um verme. Jornalistas de esquerda não defendem os de direita, e vice-versa, ainda que o crime contra a informação seja o mesmo. É claro que nisso, ninguém vai lutar por um código de ética. Os jornalistas com um mínimo de consciência de classe estão muito preocupados defendendo os interesses dos anunciantes, dos patrões, dos partidos ou dos movimentos sociais, ao invés de defender os seus próprios.

    Acabar com a obrigatoriedade do diploma é um retrocesso que só está levado adiante por que os jornalistas mais ativistas concordam com isso, imaginando que vão conseguir combater o “outro lado”. O mercado é uma merda, às vezes precisamos vender a nossa alma para conseguir um piso, só que a única solução para isso é lutar pelos direitos.

    Escrevi mais sobre isso aqui: http://luisfelipe.blogsome.com/2008/03/06/nao-e-facil-ser-subversivo/

    Abraços.

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