ESQUERDA X TÉCNICA + DIREITA E CONSENSO

Tenho acompanhado os últimos comentários e os posts do DIÁRIO GAUCHE e do RS URGENTE. Vejo o predomínio de uma crença e de um interesse que o modelo representativo e eleitoral político-partidário nos moldes em que ainda são propostos e realizados aqui no Brasil não merecem mais.

Ou nunca se pensou em propor melhorias e transformações a esse sistema só porque já passamos por momentos muito piores (o negro, o índio e a mulher em um primeiro momento; e ninguém votava durante a ditadura militar, em um segundo momento), ou, infelizmente, acredita-se verdadeiramente nesse sistema.

EU NÃO ACREDITO MAIS. E não vou defender o indefensável. Afinal de contas, a gênese do marketing e da propaganda eleitoral na mídia de massa já continha dentro de si a possibilidade da transferência do debate do espaço público para o espaço midiatizado, isto é, onde pelo menos 80% de tudo o que se concorda ou se discorda em termos de fatos bem ou mal contados, verdadeiros ou falsos, passa pela mídia de massa, seja ela grande ou pequena, comercial e comprometida ou não.

No momento em que a mídia constituiu-se em um campo social cuja natureza vicária consiste em ser o tradutor dos ininteligíveis discursos vicários dos demais campos sociais a fim de proporcionar a compreensão do que estes campos são, querem e representam através de uma gramática audiovisual voltada para o que o senso comum é capaz de interpretar, a sua naturalização e a sua globalização já estavam consolidadas.

O importante é dominar a técnica para combater o poder hegemônico com as mesmas armas. E mesmas armas não significam paridade de circulação, tiragem e audiência entre veículos de esquerda e de direita e nem tampouco censura: as ferramentas estão aí. São relativamente baratas e o que falta é exatamente a “douta” e “politizada” esquerda intelectualizada das antigas prestar trabalho voluntário, “sujar as mãos” e instrumentalizar não partidariamente mas, sim, tecnicamente.

O problema é que são raros os técnicos de esquerda que dominam o instrumental não dominam a gramática. Acham que vinhetas graficamente ricas, sonoplastia, edição de imagens dinâmica, trilha sonora sensivelmente adaptada à história que está sendo contada e ao seu respectivo timing são menos importantes que o “conteúdo”, que o “texto”, que a “locução” ou que “as imagens falam por si”.

BULLSHIT: a mensagem faz parte do todo e o todo está inserido na mensagem!

Portanto, a direita não é mais eficiente em termos de desburocratização nem de força retórica porque tem uma mídia corporativa hegemônica a seu lado mas, sim, porque ela reconhece a importância de DOMINAR A FERRAMENTA buscando criar produtos adequados aos seus objetivos.

Ao contrário do que se pensa, é possível à esquerda manter suas posições sem se prostituir e sem ser mal-humorada, séria demais, grave, ranheta, sisuda e sem querer impor a “conscientização” e a “politização” do “povo”. Para dominar a técnica, não precisa ser rica e nem tampouco aliar-se à direita Contudo, parece que o que é material ou tecnológico é visto com uma reserva inexplicável, como se usar (ou até mesmo dar-se o direito de fascinar-se com o meio técnico) fosse um grande pecado ideológico.

QUEM NÃO CURTE O CONTATO COM ALGO DE QUE PRECISA NUNCA CONSEGUE FAZER NADA BEM FEITO.

Outro ponto que gostaria de abordar relativo aos posts e comentários nesses blogs é que os comentadores identificados com a direita utilizam aquele velho discurso do atraso, da conciliação e do consenso e de que não há outra forma de discutir a sociedade nem de se chegar a algum resultado prático. Nesse sentido, respondo-lhes através de dois vieses:

1) Não aceitar dividir palanque, não votar junto e nem assinar embaixo de decisões que vão contra valores pessoais e/ou contra o programa registrado em cartório do partido ao qual está filiado não é ser burro, nem intransigente, nem retrógrado: é crer que não dá pra conciliar algo que se considera inconciliável. Portanto, todo político que deseja manter a sua coerência e a sua base eleitoral não costuma amalgamar-se nem ceder a determinados apelos. Embora eu quase nunca tenha votado na direita (só o fiz em 1989 e em 1992 para alguns cargos em função do meu total desconhecimento do que aquelas pessoas e aqueles partidos representavam), um direitista convicto que deixa claro o que defende, o que combate e que verdadeiramente crê naquilo que crê sem vergar a espinha para a esquerda merece meu respeito como uma pessoa séria, coerente e com valores, mesmo que eu discorde destes;

2) Pensar diferente não é ter ressentimento, nem ser do contra: é afirmar o conhecimento de uma realidade alternativa que, seja esta melhor ou pior, mais ou menos útil do que a opção apresentada como hegemônica, deve ser sempre respeitada, aceita, levada em conta. Jamais criminalizada, ignorada, achincalhada, omitida. Como uma minoria incapaz de convencer à maioria que a sua proposta é a melhor, o desafio é sair da estrutura e do vínculo partidário trabalhando diretamente dentro das comunidades, independentemente de partido ou de cargo público, a fim de que, ao invés de delegar poderes à mídia, aos seus patrocinadores e, sobretudo, a qualquer político, proporcionando um crescimento em rede bottom-up, para que a discussão saia da ágora digital e exerça a pressão que os políticos de esquerda e seus militantes sindicalizados, funcionários públicos de baixo escalão e operários urbanos são completamente capazes de exercer diante da maioria direitosa.

Meu fechamento: quem disse que a política é a “arte do possível” é ou foi (e se foi, já foi tarde) um imbecil: em primeiro lugar, porque a política não tem nada de arte. Em segundo lugar, porque o possível quando se é minoria e coerente ao mesmo tempo, é muito pouco para resolver os problemas de uma sociedade e para fazer de um parlamentar honesto alguém objetivo e propositivo.

O Brasil, o RS e POA são atrasados porque “num intendem nada di tenéti” e porque possuímos uma miséria feudal e uma riqueza moderna quando até mesmo os nossos vizinhos mais pobres (Argentina, Equador, Bolívia, Uruguai, Paraguai, Chile e Venezuela) possuem atividade e participação política mais adequadas ao que as tecnologias da informação e da comunicação podem oferecer em termos de movimentos de resistência bottom-up capazes de desembocar em um verdadeiro envolvimento presencial e protagonista.

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Publicado em ATIVISTAS
Um comentário em “ESQUERDA X TÉCNICA + DIREITA E CONSENSO
  1. Olá, gostei muito do seu blog e de sua abordagem.

    Parabéns!

    Um abraço

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