O IMPÉRIO NO SÉCULO XXI

Trecho do meu texto para apreciação da banca de qualificação nas próximas semanas:

 

 

A Constituição do Império no início do século XXI

 

Nosso ponto de partida era o reconhecimento de que a ordem global contemporânea já não pode ser entendida adequadamente em termos de imperialismo, tal como era praticado pelas potências modernas, com base essencialmente na soberania do Estado-nação ampliada para territórios estrangeiros.

 

Em vez disso, surge agora um “poder em rede”, uma nova forma de soberania, que tem como seus elementos fundamentais, ou pontos nodais, os Estados-nação dominantes, juntamente com as instituições supra-nacionais, as grandes corporações capitalistas e outros poderes.

 

Consideramos que este poder em rede é “imperial”, e não “imperialista”. (HARDT e NEGRI, 2005 p. 10)

 

 

Os autores sustentavam que a ordem global contemporânea não se caracteriza nem pode ser sustentada pela participação igualitária de todos, ou sequer pela elite dos Estados-nação, até concluírem em sua tese sobre o império[1] que “em vez disso, nossa atual ordem global é definida por rígidas divisões e hierarquias, em termos regionais, nacionais e locais” (op. cit. p. 11).

Tal enunciado entra em conflito com o discurso da luta entre classes como meio de transformação o status quo através da tomada do poder “de todos para todos[2]”, surgido em uma época na qual o poder do Estado-nação ainda era muito maior do que o das instituições supranacionais, das grandes corporações capitalistas e de outros poderes[3]. Dessa forma:

 

O Império domina uma ordem global que não só é internamente fraturada por divisões e hierarquias como se vê acossada por uma guerra perpétua. O estado de guerra é inevitável no Império, e a guerra funciona como instrumento de domínio. A paz imperial de nossos dias, a Pax Imperii, exatamente como a da época da Roma antiga, é um arremedo de paz que na realidade preside um estado de guerra permanente. (HARDT e NEGRI, 2005 p. 11-12)

 

 

Mais adiante, para fins didáticos, Hardt e Negri simplificam a globalização em duas faces: na primeira, o império dissemina em caráter global sua rede de hierarquias e divisões que mantém a ordem através de novos mecanismos de controle e permanente conflito. A seguir, apresentam uma forma de resistência ao estado de guerra permanente do império. Portanto, além da perspectiva apocalíptica imperial, a mesma globalização “também é a criação de novos circuitos de cooperação e colaboração que se alargam pelas nações e os continentes, facultando uma quantidade infinita de encontros[4].” (HARDT e NEGRI, 2005 p. 12)


[1] V. HARDT e NEGRI, 2001.

[2] Na prática, se há luta pelo poder, alguém deseja impor-se. Logo, a igualdade não passa de uma mera retórica.

[3] Embora não pretenda aprofundar essas questões, uma breve contextualização possível de ser melhor visitada em uma vasta literatura. Em poucas palavras, tais idéias surgiram no Iluminismo, período histórico que questionou o poder das monarquias absolutistas da Europa nos séculos XVII e XVIII. Originou o positivismo, que serviu como diretriz para a Revolução Francesa (1789) e para a Revolução Farroupilha (1825-1835). Outra variante iluminista também serviu de base para o marxismo, cuja análise econômica e social sobre o impacto da Revolução Industrial inspirou os regimes socialistas a partir da Revolução Russa (1917-1924). Fato comum a praticamente todas as guerras civis é que, independentemente do regime político (p. ex. ditadura ou democracia civil, militar, monárquica ou teocrática), das conquistas e das perdas sociais (melhoras ou pioras sensíveis em vários setores da economia e da sociedade) ou das classes que perdiam ou tomavam o poder num Estado-nação qualquer (clero, nobreza, burguesia, proletariado, etc.), com o tempo, a nova classe hegemônica tende a tornar-se totalitária a fim de permanecer no poder.

[4] Grifo meu.

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