MULTIDÃO, POVO, MASSAS E CLASSE OPERÁRIA

Mais um trecho da minha quali:

 

 

Negri e Hardt (2005 p. 12) diferenciam três conceitos para reuniões ou agrupamentos de uma grande quantidade de pessoas: a multidão, o povo e as massas:

 

– A multidão seria como uma rede aberta e em expansão, na qual todas as diferenças podem ser expressas livre e igualitariamente, proporcionando os meios de convergência para que possamos trabalhar e viver em comum, com a ressalva de que isso não quer dizer que todos se tornem iguais: essa segunda face da globalização, por sua vez, proporciona a possibilidade de descobrirmos os pontos comuns que permitam que nos comuniquemos uns com os outros a fim de agirmos conjuntamente;

 

– O povo é uma concepção unitária muito utilizada para reduzir as mais amplas diferenças que caracterizam a população numa identidade única;

 

– Diferentemente do povo e a exemplo da multidão, as massas também não podem ser reduzidas a uma unidade ou identidade, pois são compostas de todos os tipos e espécies. Contudo, não se pode apontar quais dentre os diferentes sujeitos sociais formam as massas, pois a essência das massas é a indiferença: “todas as diferenças são submersas e afogadas nas massas. Todas as cores da população reduzem-se ao cinza. Essas massas só são capazes de mover-se em uníssono porque constituem um conglomerado indistinto e uniforme” (op. cit. p. 13);

 

– O conceito de classe operária, em sentido estrito, é utilizado: a) para distinguir os trabalhadores dos proprietários que não precisam trabalhar para se sustentar; b) para separar os operários dos demais trabalhadores, refere-se apenas aos trabalhadores industriais, distinguindo-os dos trabalhadores da agricultura, do setor de serviços e de outros setores. Em sentido amplo, a classe operária “refere-se a todos os trabalhadores assalariados, diferenciando-os dos pobres que prestam serviços domésticos sem remuneração e de todos os demais que não recebem salário” (op. cit. p. 13). 

 

Para salientar a multiplicidade da multidão em relação à unicidade do povo, Hardt e Negri afirmam que “a multidão é composta de inúmeras diferenças internas que nunca poderão ser reduzidas a uma unidade ou identidade única” (op. cit. p. 12).

A fim de esclarecer melhor a diferença entre a multiplicidade multitudinária em relação à indistinção uniforme das massas, os autores destacam que “na multidão, as diferenças sociais mantêm-se diferentes, a multidão é multicolorida” (op. cit. p. 13).

Por último, os autores explicam que diferentemente do reducionismo classificatório do conceito de classe operária, a multidão é um conceito aberto e abrangente que procura apreender a importância das recentes mudanças na economia global: hoje em dia, a classe operária industrial, ainda que se mantenha bastante numerosa no mundo inteiro, já não desempenha mais um papel hegemônico na economia global.

Ao mesmo tempo, quando dizem que a produção já não pode ser concebida apenas em termos econômicos, porque deve ser encarada na atualidade como produção social (op. cit. p. 13), Negri e Hardt (2005) iniciam uma discussão sobre o papel e as implicações da multidão que abrange todo o livro: em linhas gerais, além de funcionar como a forma contemporânea de resistência ao império, toda a construção colaborativa de conhecimento, cultura, ação política e geração de riqueza através da transação virtual tanto de bens imateriais como de bens materiais nas redes bottom-up resulta em novas formas de comunicação, relacionamento e formas de vida (op. cit. p. 13) emergentes a partir da multidão. Tal modelo ora dominante na sociedade contemporânea que envolve a produção econômica afetando e produzindo todas as facetas econômicas, culturais ou políticas da vida social é denominado pelos autores de produção biopolítica.

A produção biopolítica e o desejo de democracia como moeda comum a diversos movimentos e lutas de libertação através do mundo (Hardt e Negri, 2005 p. 15) atravessam e são atravessados pela rede distributiva a qual chamamos de internet que, por sua vez, constitui uma base ou modelo para a multidão (op. cit. p. 14). Logo, os coletivos de blogs sobre política e crítica da mídia também são um exemplo de produção biopolítica, cujo objetivo é estabelecer relações capazes de fazer emergir uma forma atual de democracia em rede suficientemente ampla e hábil para resistir ao império representado pelo comportamento top-down das corporações de mídia.

Finalmente, os autores afirmam que os vários pontos nodais se mantêm diferentes mas estão todos conectados na rede e as fronteiras externas da rede são de tal forma abertas que novos pontos nodais e novas relações podem estar sendo constantemente acrescentados (ibidem). Portanto, encontramos em Hardt e Negri (2005) uma série de semelhanças com o experimento do organismo unicelular conhecido como Dictyostelium discoideum utilizado por Johnson (op. cit. p. 9-18) como forma de facilitar a sua explanação sobre o comportamento bottom-up que desemboca na emergência e na teoria da complexidade, bem como referências às redes sociais, à cauda longa, aos grafos, aos laços fortes e laços fracos vistos em Barabási (2003).


Os grifos deste conceito destacam, nas palavras de Hardt e Negri, os principais pontos convergentes entre o pensamento desses autores já observados nas teorias de Barabási (2003) e Johnson (2001).

P. ex.: diferentes culturas, raças, etnias, gêneros e orientações sexuais; diferentes formas de trabalho; diferentes maneiras de viver; diferentes visões de mundo; e diferentes desejos. (op. cit. p. 12)

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4 comentários em “MULTIDÃO, POVO, MASSAS E CLASSE OPERÁRIA
  1. Tu estás misturando modernidade (revolução industrial, taylorismo-fordismo, sociedade, relações e economia extremamente hierarquizada e metódica, pouco criativa) com pós-modernidade.

    Foi sobre isso que eu comentei em relação ao teu primeiro comentário.

    []’s,
    Hélio

  2. Carlos Maia disse:

    Hélio, na sociedade ocidental de hoje em dia ninguém mais casa de forma arranjada. A família moderna tem a tendência de ser mais aberta e isso é sim revolucionário. As pessoas da casa se conectam on line para saber as notícias e as novidades. E o tão criticado individualismo não é o grande vilão de tudo. Nunca na história mundial tivemos tanto controle da sociedade sobre os atos do Estado. Nunca na história mundial, a família esteve tão crítica em respeito a tudo e isso é bom. Ferry, quando ministro da educação da França fez um ato extremamente corajoso, proibiu os símbolos da religiosidade. Nas escolas públicas francesas não pode haver crucifixo e nem meninas com véus muçulmanos. Ferry é um conservador revolucionário.

  3. Maia,

    Nesse ponto concordo contigo. Só faço uma pequena correção e acrescento outro dado:

    – A família moderna não é exatamente o que o Ferry descreve, pois ele fala de características pós-modernas para um modelo moderno de família. Em termos de práticas e desejos, ele está correto. Só que não dá pra misturar alhos com bugalhos, já que a família na modernidade caracteriza-se pelo conservadorismo patrimonialista.

    Da mesma forma, esse conservadorismo foi o que se seguiu aos casamentos arranjados baseados em laços de sangue e de preservação do status quo.

    Em termos práticos, ser conservador em termos de constituição do núcleo famíliar e seus valores + moral religiosa não tem nada a ver com esquerda ou direita: fora o patrimonialismo e uma certa dose de “TFP” adaptada ao meio urbano em tempos democráticos, não se pode taxar esse pensamento de esquerdista ou direitista.

    O segundo ponto no qual quero tocar é o seguinte: o Ferry está certo quanto às características da família contemporânea. Todavia, como ele é um autor de transição entre épocas (transição essa que ainda estamos vivendo, porém já avançamos alguns passos à frente outros para trás, dependendo da área de conhecimento e do contexto social), não acrescentou a cereja do bolo que caracteriza dois modelos da família PÓS-moderna.

    O primeiro é: ao contrário da família moderna, que não admitia estabilidade nem boa criação em caso de pais separados e em filhos de segundo ou terceiro casamento, a família pós-moderna formada por várias uniões e desuniões matrimoniais não é necessariamente educadora de filhos carentes ou desajustados. Há uma maior solidariedade, respeito e, acima de tudo, diversidade cultural e tolerância às diferenças entre diferentes idades de meios-irmãos criados 50% de maneira parecida, 50% de maneira diferente. Tendem a ser pessoas mais independentes, com maior iniciativa e mais criativas.

    Já o núcleo familiar sem separações tende a melhorar suas relações à medida que a produção imaterial possa ser feita online a partir de casa. É mais tempo dos pais convivendo com os filhos, evitando o stress do trânsito, alimentando-se melhor, vendo os filhos crescerem no dia a dia e, mais importante, trocando mais afeto e dando mais conselhos.

    []’s,
    Hélio

  4. Carlos Maia disse:

    Hélio, leia o último livro do Luc Ferry sobre a família. Inventaram que família é uma tese de direita. Porque os movimentos de direito sempre evocaram a família. É a família contra o aborto, contra o divórcio etc. Mas ele, Ferry diz: isso é completamente falso e idiota. Não há nada mais democrata e moderno do que o tema da família. A verdade é que a família moderna fundada no casamento de amor é uma instituição muito recente. No Antigo Regime não existia o casamento por amor, mas sim para transmitir um nome, uma herança, uma linhagem. É no seio dessa nova estrutura nova da família fundada no sentimento que se desenvolvem essas novas transcendências. É o que cria novas formas de solidariedade e também novas questões políticas.
    O individualismo moderno tem uma grande característica: a preocupação com o outro e a autocrítica. Nunca uma sociedade criticou a colonização e a escravidão como faz a sociedade moderna. Enquanto que a escravidão continua a ser praticada na África e no mundo árabe-muçulmano como nunca foi no século 18 na Europa. Isso ninguém ousa dizer. Então, o indivíduo moderno é autocrítico e também muito aberto aos outros, ele se interessa pela alteridade. Hoje somos muito mais abertos do que jamais fomos no passado. Estamos numa saída de nós mesmos, algo novo, e que paradoxalmente se dá nas relações interindividuais fundadas no amor. Não é o individualismo no sentido do egoísmo. Não há nada mais coletivo do que os problemas individuais. Temos todos os mesmos problemas, de vida amorosa, de separação, de divórcio, de educação dos filhos, de poder de compra, de escolha de uma profissão que dê prazer. E o político que compreender isso alcançará um enorme sucesso.” Ferry é muiiiito bom.

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