A MÍDIA CORPORATIVA DENTRO DE UM SISTEMA CONSERVADOR

A mídia corporativa, Grande Mídia ou MSM (Mainstream Media) é um problema. Porém, não é exatamente um problema para todos. Mesmo com os Trump, Murdoch, Berlusconi e Marinho da vida atuando em muitos países, há um incontável contingente de seguidores dos valores irradiados por esses protagonistas. O problema maior é a forma como a mídia corporativa estabeleceu-se no Brasil. As corporações de mídia daqui estabeleceram-se através de oligopólios familiares associados a grupos midiáticos estado-unidenses, banqueiros, megacorporações globais, latifundiários e políticos corruptos. Essa casta jamais irá regular o setor do qual tomam conta em prol da sociedade.

Tal modo de produção baseado nesse modelo econômico é extremamente nocivo e espraia-se através de milhares de tentáculos pelo mundo inteiro. No entanto, é preciso perceber que, apesar disso, não é exatamente a mídia corporativa (recursos financeiros + meios técnicos + mentalidade de seus donos + competência técnica, perspicácias e artimanhas dos editores) o principal problema da democracia. Dentre tantos problemas poíticos, econômicos e sociais, embora este seja um problema que, de certa maneira, interfere nos demais, ao mesmo tempo, essa mídia não representa o pior dos problemas que nos afligem.

Contraditório? Não: é apenas uma constatação. O problema maior é o baixo grau de solidariedade, de compaixão, de capacidade de desenvolvimento sustentável, de auto-estima, de confiança e de empreendedorismo consciente e responsável. Embora os valores dos donos do capital sejam reverberados pela mídia corporativa, caso houvesse interesse em promover o esporte, a cultura e o respeito, já teriam sido adotados valores capazes de originar um verdadeiro projeto de nação.

A mídia corporativa não manda nada: ninguém lê, ouve ou assiste o seu conteúdo com uma arma apontada para a cabeça. Mesmo na falta de qualidade conteudística, ninguém é obrigado a manter seus olhos e ouvidos antenados para a mensagem dela: há várias outras formas de lazer, cultura e informação disponíveis – mesmo sem dinheiro, há muito o que ver pela cidade e muita gente para conversar. Quem acredita ou deixa de acreditar em alguém ou em alguma coisa, ou acredita que acredita e sente-se bem com esse condicionamento, ou acredita que não acredita e vai buscar outra coisa pra fazer.

Como não existe unanimidade nem consenso (apenas uma tentativa discursiva de), seus donos e editores conseguem apenas um determinado grau de convencimento junto a determinados nichos dentro do universo que julgam compor sua audiência. Assim, o fazer técnico da mídia corporativa busca satisfazer os interesses dos políticos, do latifúndio, dos bancos e das megacorporações globais através de demandas que, caso atingidas, por tabela também irão beneficiar o negócio dos donos da mídia e tornarão mais famosos os seus funcionários mais pelegos.

Obviamente, como o negócio deles é grana a qualquer custo, se eles não tivessem uma ampla base de consumidores conservadores, mesmo que jamais pendesse à esquerda, seu discurso seria menos extremista, a fim de evitar perder pontos na audiência. Conseqüentemente, os abusos da mídia corporativa só ocorrem porque a sociedade em geral não é necessariamente influenciada mas, sim, porque ela alimenta o conservadorismo e os valores neoliberais de volta para a mesma mídia corporativa. Esta, por sua vez, aperfeiçoa e modifica o seu discurso em função do retorno (feedback) desse receptor, seja ele conservador ou não, procurando agradar mais ao perfil dos conservadores.

O procedimento técnico e a ideologia escolhidos para defender os interesses dessas oligarquias (manipulação, mentira, omissão, espetacularização, etc.), por sua vez, também é utilizado pela mídia dita pequena, seja esta militante de esquerda ou não. Afinal de contas, todos têm um lado e isso não pode ser escondido. A única verdade é que a maioria dos indivíduos deseja convencer o outro de que estão certos. Todos adorariam que houvesse um pensamento único voltado para a preservação dos seus próprios valores e do status quo. Em uma análise sincera e sem hipocrisia, o mundo seria muito mais tranqüilo, seguro e a vida seria muito mais fácil se não houvesse necessidade de discutirmos, certo?

As únicas regras
estabelecidas pela mídia são as regras que ela impõe aos integrantes de outros campos sociais para discursarem sob a formatação de suas técnicas e enunciados quando precisam aparecer através dela. Isso posto, a mídia como um todo (até mesmo a pequena, alternativa ou não-corporativa) serve como um megafone para espraiar toda e qualquer
ideologia, pois a política, a economia e a comunicação estão presentes em tudo e em todos. Ela serve de tradutora do discurso dos vários campos sociais através de uma gramática (falas, gestos, entonação, vocabulário)
didaticamente genérica, a fim de que os mais diversos segmentos da
sociedade laica conheçam aquilo que cada campo deseja revelar de si ou
como os seus mediadores acham que enxergam esses campos sociais.

Dessa forma, a denúncia e a investigação sobre tudo e sobre todos não faz parte desse modelo econômico. A pluralidade, a neutralidade e a objetividade não passam de simples mitos, já que o jornalismo não exprime “A” verdade mas, sim, uma dentre tantas verdades possíveis contada e editada por alguém que, como sujeito, interfere na sociedade e é afetado por ela, de tal sorte que essa vivência define a forma que sua história irá tomar e para quem ela será contada.

Então, os veículos que EU escolho para me dar a sensação de estar bem informado ou os veículos que EU escolho para criticar através de suas contradições que fazem com que eu me sinta mal informado também dependem da minha vivência, das minhas influências e do meu poder individual e exclusivo de intervir em meu próprio ambiente.

O fato de eu acreditar que acredito ou de acreditar que não acredito em algo ou em alguém pode mudar. Porém, esta mudança, na maior parte das vezes, far-se-á de maneira lenta e gradual. Mudando ou não, nada garante que eu esteja certo depois de mudar, ou que eu estivesse certo enquanto pensava da maneira anterior. Ao mesmo tempo, os valores são tantos que há diferentes pesos entre certezas e incertezas. Portanto, mesmo um analfabeto faminto perdido no meio do mato com uma TV onde só pega o canal 12 não é necessariamente influenciável por todos os enunciados da mídia.

O cerne da discussão não deve
ser técnico mas, sim, de uso: não importa se a mídia é grande ou
pequena, se é militante ou não, se é declaradamente de esquerda ou de
direita e nem tampouco se é plurigenérica ou se transmite um único
gênero específico: o que não pode é haver o abuso de práticas que
prejudiquem a vida, que julguem, que rotulem ou que defendam um lado
sem apresentar ou – pior – demonizar o outro.

O poder da mídia corporativa é
menor na pós-modernidade – pelo menos nas grandes metrópoles do planeta
altamente conectadas. Mesmo no Brasil nota-se essa perda de poder. Caso
contrário, o “nordestino preto analfabeto desempregado feio e burro”
teria dado ouvidos às milhares de emissoras de rádio e TV, revistas e
jornais que circulam neste imenso país.

Por conseguinte, quem decide o que é notícia, quem deve ser promovido, quem deve ser defenestrado, a quem defender, a quem atacar, quando, como, aonde, por que e a quem investigar e denunciar possui a mesma formação conservadora dos patrocinadores, de seus chefes e de boa parte da sua audiência. Essa questão explica parcialmente o fato de que o gaúcho médio não
é “tapado” do jeito que é pura e simplesmente por causa da atividade
midiática: ele é “tapado” porque, antes de existir a mídia, já haviam a
retórica, o discurso, a boataria e a coerção.

O quarto poder atribuído às corporações de mídia não existe como tal. Nem o discurso e nem as personas dos editores e dos donos das corporações de mídia possuem controle sobre a audiência e sobre o seu próprio modo de fazer. O verdadeiro primeiro poder (e não segundo, terceiro ou quarto) está muito acima do executivo, do legislativo e do judiciário. Trata-se do poder simbólico circulante na rede, onde os bancos, o latifúndio, as indústrias de armamentos, tabaco, bebidas alcoólicas, medicamentos, a indústria farmacêutica, parte do crime organizado (contrabando e tráfico de drogas, animais silvestres, plantas e pedras preciosas), políticos corruptos com as costas quentes e políticos donos de concessões das afiliadas das nove famílias articulam-se em rede. Todos se conhecem. Todos fazem negócios entre si. Todos pedem coisas uns aos outros e se esforçam ao máximo para atender e ser atendidos, custe o que custar. E todos possuem patrimônio, investimentos, perdas e ganhos em diferentes segmentos econômicos.

A questão é: como desconstruir esse sistema de redes sociais altamente profissional, competente, ágil e adaptável? Em toda a história da civilização ocidental, sempre houve uma casta nababesca e excludente que só pôde ser derrubada pela parte mais ambiciosa e mais esclarecida da casta colocada imediatamente abaixo da primeira. Ambas as castas precisam deum grande volume de pessoas, a fim de defender um lado ou outro. A massa é constituída por uma série de inocentes úteis, que não passam de meras buchas de canhão. Quem luta pelo poder político e simbólico fica na retaguarda, pois não vai correr o risco de morrer. Feita a troca de bastão, no período histórico seguinte, a mesma massa permanecerá sendo excluída. A única diferença é que a aristocracia anterior agora é decadente e serve muito bem à burguesia emergente como referência de dominação. Isso sempre ocorreu, com ou sem mídia de massa, com ou sem internet, com ou sem naves espaciais, com ou sem cavalos.

Com base na teoria dos campos sociais de Pierre Bourdieu, na caracterização dos mídias (grande, pequena, ruim, boa) como um campo social (Adriano Duarte Rodrigues) e na midiatização da sociedade (Eliseo Verón), chega-se à conclusão de que o campo dos mídias é o único campo social que atravessa e é atravessado pelos outros campos. Essa intromissão dos mídias nos demais campos sociais (jurídico, esportivo, médico, político, científico, religioso, militar, etc.) não necessariamente coincide com uma posição de maior poder (seja ele econômico ou simbólico).

O papel da mídia não é nem deseducar, nem educar. A mídia é tão-somente um instrumento técnico. O tipo de uso que se faz dela depende da intenção das pessoas que a patrocinam. E a crença sobre como deve-se “ensinar” a audiência a viver depende sobremaneira da ideologia e dos valores dos produtores de cada programa.

É preciso mudar a maneira de pensar e de viver como um todo. Afinal de contas, se há desinformação, omissão, manipulação descarada, tentativa de consenso através de um pensamento político e econômico único, é porque existe tanto um grupo de financiadores, de produtores e de legisladores como sobretudo uma enorme parcela de público cidadão e consumidor como protagonistas desse processo. A mídia corporativa alimenta sua audiência…

…Mas também é fartamente alimentada por ela.

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3 comentários em “A MÍDIA CORPORATIVA DENTRO DE UM SISTEMA CONSERVADOR
  1. Carlos Maia disse:

    Meia dúzia de franceses, Hèlio, lêem o Le Monde Diplomatique. Os franceses lêem o Le Monde que tem outra linha editorial, mas diferente da versão Diplomatique controlada pelos troscos franceses. França e Inglaterra são sim belos exemplos, mas não vejo muita diferença daquela mídia com a nossa. BBC é pública. Mas a Inglaterra é um país muito mais capitalista e liberal do que o Brasil. É tudo mais ou menos igual, como diria Wenders. Cabe ao bom viajante procurar a mídia boa para sua tosse. Eu tento ler tudo, porque assim aprendo melhor. Essa história de controle social dos meios de comunicação é balela pura, porque quem faz controle social é uma minoria participativa e que não reflete os anseios, as vontades, os gostos da maioria silenciosa. Nem na Inglaterra e nem na França existe controle social dos meios de comunicação.

  2. Maia,

    Não é questão de preconceito ou não preconceito: se um sistema industrial qualquer é movido por patrocinadores, ele não irá falar mal deles nem falar bem dos concorrentes de seus patrocinadores. Isso é fato. É comprovação científica baseada em uma prática muito conhecida.

    País civilizado midiaticamente falando só há dois: a França tem o Le Figaro declarada, assumida e coerentemente de direita, e o Le Monde Diplomatique, declarada, assumida e coerentemente de esquerda. As cartas estão dadas e os baralhos são do mesmo tamanho para todos.

    O outro é o Reino Unido, que possui a melhor televisão pública do planeta. Pública, porém de capital misto com distribuição quase igual: o governo detém 50% + 1 e o mercado de ações negocia 50% – 1 das ações da BBC.

    A BBC é a única emissora do mundo que, se quiser produzir um documentário sobre chocadeiras de carrapatos, contrata somente para aquele job o melhor iluminador, o melhor diretor, o melhor fotógrafo e escolhe a melhor locação do mundo, especializados em chocadeiras de carrapatos.

    Por que ela tem dinheiro para isso? Porque a televisão no Reino Unido não é gratuita e nem obrigatoriamente a cabo: se tu comprares um aparelho televisor de qualquer tamanho ou de qualquer tecnologia, não será através do seletor de canais da TV que tu irás trocar de canal (não importa se o seletor for analógico ou digital, com ou sem controle remoto) mas, sim, do controle remoto que controla a setup box que necessariamente deve vir com a tua TV da loja.

    Se tu não pagares £10.00 por mês, nem TV “aberta” tu tens. Neste caso, não considero anti-democrático nem excludente, já que a BBC tem duas emissoras de TV, uma de rádio, o melhor portal de notícias do planeta com milhares de profissionais espalhados pelo globo e seu orçamento dá de relho no da Globo, da CNN ou da TNT.

    Se em uma população de 100 milhões de habitantes (Inglaterra, País de Gales, Escócia e Irlanda do Norte) um em cada quatro habitantes (mais ou menos o número de famílias) paga £10.00/mês, a BBC arrecada nada mais nada menos do que £25 MILHÕES de libras MENSAIS, fora a valorização não muito alta porém constante dos papéis equivalentes a metade do seu valor total na bolsa diariamente.

    Dessa forma, ao invés de um Ministério das Comunicações entregue a um ex-funcionário da Globo ou de uma ANATEL onde a maioria dos votos pertence às empresas e não ao governo nem aos representantes da sociedade civil ou, ainda, da acusação de falta de democracia, de censura, chapa-branquismo ou interferências regionais na rede de mídia pública ou da subjetividade sempre tendenciosa a favor dos interesses dos patrocinadores da mídia mantida única e exclusivamente pela iniciativa privada, temos um empreendimento fiscalizado por toda a sociedade, com alto nível de produção e o mínimo possível de distorção.

    Nesse sentido, muitos setores poderiam ser melhorados no Brasil seguindo um modelo semelhante.

    []’s,
    Hélio

  3. Carlos Maia disse:

    Hélio, uma das muitas coisas que eu gostei da palestra do Wim Wenders na segunda-feira aqui em Porto Alegre é que ele não tem preconceito. Ele é um viajante, ele não é um turista. Em relação ao cinema hollywoodiano — que poderiamos aqui comparar à grande mídia — ele disse que assiste, mas que aquilo é apenas entretenimento e não gera conhecimento. O que gera, afinal, conhecimento? O que gera conhecimento é a identidade do lugar, a memória do lugar, mas nesse mundo todos os lugares estão ficando parecidos. Os cartazes do cinema de Berlim são os mesmos de S. Paulo, de Nova York e Bruxelas. E assim caminha o mundo e nós estamos embutidos nele. Qualquer forma de crítica genérica da grande, da pequena mídia e também da blogosfera é preconceito. É difícil generalizar hoje em dia. Não se pode dizer que a grande mídia está sempre totalmente errada, porque ela não está. A mídia tem que ter opinião, é necessário que ela tenha opinião, que seja crítica. Ela pode até defender seus interesses, isso ocorre em todos os países socialmente desenvolvidos, mas achar que esses interesses são malvados, corruptos, não prestam etc.. é uma generalizaçaõ banal inadmissível e que chega às raias do preconceito. Aprendi muito com Wim Wenders, ele me deu alguns insights, porque ele é cheio de feedback. Grande e sensível viajante Wenders.

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