A COMUNICAÇÃO RESISTENTE

Este texto dialoga com o “DE SACO CHEIO“, um depoimento sincero do RODRIGO CARDIA do blog CÃO UIVADOR. que também toma a minha mente quando estou pessimista.

Diante de tantas asperezas e da eterna impressão de sermos Davids contra Golias, não me canso de repetir que o mais importante de tudo no atual contexto social é a esquerda começar a aparelhar-se mais mental e metodologicamente do que financeiramente – CUBA é um exemplo de sucesso em educação com pouco dinheiro disponível. Creio que o aparelhamento midiático através da internet também é possível a baixo custo, mas os movimentos sociais são, salvo raras e honrosas exceções, maus conhecedores do uso de redes sociais e ainda crêem na centralidade das dicotomias que marcaram a Era Moderna como se estas fizessem parte da razão da existência dos confrontos atuais (burguesia x proletariado, bem x mal, socialismo x capitalismo, etc.).

É fundamental sentir prazer, intimidade e, acima de tudo, esforçar-se para aprender a comunicar-se através da linguagem que essa classe mérdia urbana está acostumada a se comunicar.

É preciso que saibam que as teorias matemáticas da Comunicação (emissor-receptor-mensagem; quem-diz o que-onde-para quem-com que efeito) e as teorias marxistas (como a Teoria Crítica de Adorno e Horkheimer, por exemplo – a preferida das esquerdas que ainda enxergam o mundo como Taylor e Ford) foram verdadeiramente superadas por Orozco, Verón, Martín-Barbero, Mattelart.

A mídia está em tudo: mais de 80% de todas as discussões sociais são feitas sobretudo através do atravessamento daquilo que é noticiado e publicizado através de todas as mídias. Dessa forma, não é mais possível acreditar em alienação nem em ignorância total ou – pior – na “manipulação” da mídia: ela TENTA manipular; ela TENTA persuadir; ela defende suas bandeiras e não fala mal de seus patrocinadores. Ela segue a lógica do capitalismo.

Mas que atire a primeira pedra quem consegue viver à parte do sistema econômico, social, político e, sobretudo, cultural vigente. Temos que trocar, que produzir, que adquirir, somos cobrados por desempenho.

E, mesmo que não seja de uma maneira egoísta, autoritária e nem totalizante, podemos até não cultivarmos ambições financeiras. A competitividade na qual cremos pode até não ser excludente. Nossos sonhos, nossos objetivos, nossas metas, nossos planos, sempre irão buscar uma auto-satisfação, mesmo que esta não seja proporcionada pelo status.

É preciso saber que o receptor definitivamente não é (e nem nunca foi) passivo: ele é multicultural e multifacetado. Ele reage ao cruzamento e ao atravessamento de opiniões semelhantes E divergentes em função de como ele sobrevive em seu próprio meio, associado à sua visão sobre o que seria um mundo ideal para todos a partir da sua própria concepção.

Um mesmo indivíduo, independentemente dele ser do campo ou da cidade, de esquerda ou de direita, analfabeto ou pós-doutor, é capaz tanto de ser mais realista, objetivo e totalitário do que o suposto pensamento único costuma lhe dizer do que de discordar veementemente (e até com revolta).

Os movimentos pela democratização da comunicação discutem mais aspectos técnicos e econômicos do que aspectos práticos e discursivos. A gente já sabe como o oponente age. Logo, não deveríamos também conhecer o antídoto?!

Em parte, apesar de eu não ter tido tempo nem preocupação em aprofundar-me naquilo que a KATARINA PEIXOTO do blog PALESTINA DO ESPETÁCULO TRIUNFANTE escreveu com uma prática acadêmica muito superior à minha, até determinado ponto, minha preocupação coincide bastante com a dela.

É outro artigo que vale a pena ser lido aqui (ver ‘QUAL É A MÚSICA DO I FÓRUM DE MÍDIA LIVRE?‘).

Finalizo este post deixando bem claro que uma teoria não anula as outras porque um autor recente seja mais “competente” ou porque tenha escrito em um contexto no qual esteja mais “adequado”: ele pesquisa o que ocorre na atualidade que é um pouco (ou diametralmente) diferente daquilo que se passou há décadas ou séculos atrás.

Por isso, repito mais uma vez NEGRI e HARDT aqui: a forma mais eficiente de resistência é aquela cuja técnica e seu respectivo uso sejam exatamente os mesmos praticados por quem detém a hegemonia.

Não que deva-se desistir dos protestos em praça pública nem que a internet atinja à maioria da população. Todavia, é preciso compreender que, atualmente, a MULTIDÃO, que é formada por INDIVÍDUOS DIFERENTES, que PENSAM DIFERENTE mas que, por uma dada razão, decidem REUNIR-SE PRESENCIAL OU VIRTUALMENTE EM REDE, de maneira DESCENTRALIZADA, a fim de buscar atingir suas demandas. Depois, cada um segue seu próprio caminho.

Isso não significa egoísmo. Isso não significa despolitização. Isso não significa falta de afeto: a esquerda precisa aprender a lidar com as novas formas de reunião e aceitar reagir conforme o modo de afetividade que a atual forma de MOBILIZAÇÃO POLÍTICA se movimenta, isto é, SEM BUSCAR ATINGIR O PODER.

A ideologia, a exclusão e os conflitos entre uma casta central e uma MULTIDÃO periférica nunca cessaram e jamais irão cessar. O que muda é a FORMA de resistir.

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2 comentários em “A COMUNICAÇÃO RESISTENTE
  1. Rodrigo,

    Uma forma de resistência não anula a outra. Contudo, falta à esquerda reconhecer estrategicamente quais formas de resistência são mais adequadas aos procedimentos técnicos e discursivos do poder hegemônico.

    Por exemplo: o aviso por e-mail e através dos blogs sobre passeatas e concentrações é dar a cara a tapa gratuitamente. Mesmo que a polícia do Mendes e o MP ajam inconstitucionalmente, como a rua é um espaço de fluxo e o verdadeiro debate político para os leigos rola através do conteúdo midiático, a classe média contemporânea jamais irá simpatizar massivamente com uma causa que interrompe o seu fluxo habitual.

    []’s,
    Hélio

  2. Hélio, ontem acabei tendo mais uma frustração: certo de que a manifestação seria à tarde, fui para a praça às duas e pouco, e não tinha mais ninguém. Foi de manhã…
    Mas certamente haverá outras. E é fundamental fazermos justamente a “reunião virtual em rede”, uma das maneiras mais eficazes de resistência. Afinal, na internet ainda não há nenhum Coronel Mendes para nos impedir.

    Abraços
    Rodrigo

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