POLÍTICA DE DEMANDAS SEM TOMAR O PODER

Sempre questiono essas notícias de “espetáculo do crescimento”. O que é crescimento? Para quem é crescimento? Quais as REAIS possibilidades de alguém ascender não da classe D para a C, que é o que irá prevalecer durante muito tempo mas, sim, da C para a B, que é o grandissíssimo sonho da esmagadora maioria da população?

Crescimento é destruir a Amazônia?!

Crescimento é o agribusiness do trabalho escravo, da grilagem, da sonegação, da criminalização dos movimentos sociais, da baixíssima diversidade de produtos agrícolas e dos transgênicos (menos saúde, mais câncer)?!

Crescimento é tão-somente emprego de carteira assinada?!

Crescimento é ter mais carros nas ruas (transporte caro, individual, estressante com combustível subsidiado ao invés de ciclovias, metrô, trem, hidrovias, e ônibus – cujo diesel não é subsidiado)?

Crescimento é ver Porto Alegre como a 2ª capital mais poluída do país apesar de ser a 2ª mais arborizada?

Crescimento é ver não apenas o aumento do consumo e um tímido crescimento na escolaridade (que é de baixíssima qualidade)?

Tudo isso é suficiente para provar que, a despeito de OUTRAS e VERDADEIRAS medidas que realmente contribuem para um crescimento SUSTENTÁVEL (embora muito mais tímido e lento do que poderia ser), o Governo Lula também é neoliberal.

Não dá pra puxar o saco nem babar o ovo gratuitamente: há uma série de problemas gravíssimos, Lula também tem o rabo preso e o PT NUNCA representou honesta, desinteressada e propositivamente os movimentos sociais ao pé da letra. Afinal de contas, o “trabalhador” petista precisa ser sindicalizado e ter carteira assinada para ser incluído como militante com voz audível nos debates. Portanto, MST, Via Campesina, MPA, sem-teto e assim por diante sempre foram utilizados como massa de manobra pelo PT. Todos, sem exceção, foram sumariamente enganados.

O que o PT fez foi constituir-se em um partido que funcionou durante muito tempo como um pólo, como uma referência muito mais TEÓRICA do que prática da esquerda. Contudo, a sua pós-modernização fez com que o ideário de grande parte de seus fundadores honestos (dentre os quais não considero o Campo Majoritário de SP nem as forças que escolheram MARIA DO ROSÁRIO em detrimento de ROSSETTO) fosse perdido porque seu discurso careceu do hoje obrigatório domínio das técnicas midiáticas e da insistência em considerar as formas de debate atuais como frias e sem conteúdo, ao invés de procurarem utilizar a mesma linguagem e a mesma dinâmica imagética da atual geração que, bem dizendo, não é alienada nem ignorante, nem reacionária por si, por causa de seus pais ou por causa da mídia corporativa. O que ocorre é que, na pós-modernidade, a forma de se estabelecer laços e de fazer política e economia é muito diferente do modelo pós-Revolução Francesa, pós-Revolução Industrial, burguês e baseado no estado-nação.

Lutar pela pátria?! Lutar pela família?! Lutar pela propriedade?! Demodê. Defasado. Desatualizado. Antigo. Atrasado. Desencaixado da realidade complexa com a qual precisamos conviver.

Ao invés dessa puxação de saco descabida ao Governo Lula por conta de alguns avanços que são muito modestos e lentos em comparação com países minúsculos e inexpressivos em riquezas naturais e área como a Coréia do Sul, por exemplo, de que adianta criticar a mídia corporativa se o procedimento de resistência também carece da mesma transparência, da mesma filosofia dos dois pesos e duas medidas e se Lula deu uma de Yeda no caso dos Correios, que parece ter sido caixa dois do PTB durante muitos anos (não sei quando nem com quem começou)? Não dava pra ter desbaratado essa cumbuca se Lula quisesse?!

José Dirceu, ao virar “consultor” do empresário mais rico do mundo no Brasil, mesmo que não tenha nada provado contra si no arranjo do Mensalão (que houve, sim, mesmo que tenha envolvido menos gente conhecida e menos dinheiro do que a maioria dos outros casos conhecidos de corrupção e tráfico de influência de Sarney para cá) ou na CPI dos Correios, não oferece nenhuma garantia de que não tenha atuado como uma espécie de Busatto ou de Lair Ferst.

Enfim… Sigo votando no PT por pura falta de alternativa suficientemente honesta, justa e confiável de esquerda. O PC do B gaúcho, fora Jussara Cony e Raul Carrion, virou uma baita enganação a partir da parceria com a podridão do PPS. O PDT é hoje o que o PT será muito em breve. O PSTU e o PSoL são pontuais e pouco propositivos. E o PSB poderia ser algo maior e melhor, mas não conheço direito o partido para saber por que não apresenta nenhuma espécie de protagonismo.

De qualquer forma, não voto NEM A PAU em PMDB, PP, PSDB, DEM, PL, PV.

Segundo Negri e Hardt (Império, 2000; Multidão, 2005) a resistência pós-moderna se faz utilizando as mesmas técnicas que proporcionam ao poder hegemônico a manutenção do seu status quo.

É preciso conhecer as diferenças entre os conceitos de POVO, MASSA e MULTIDÃO. Não é através dos partidos, nem das armas, nem da ditadura do proletariado, nem da mera exacerbação de dicotomias em um mundo multicultural e multifacetado que se dará a busca de uma utopia chamada democracia: é através da rede de contatos, da rede de trocas simbólicas e econômicas e, acima de tudo, do questionamento profundo do sistema que se obterá algum resultado na luta contra a exclusão.

Sou de esquerda. Sou anti-liberal. Sou anti-privatista. Sou radicalmente e indiscutivelmente fundamentalista em termos de desenvolvimento sustentável, proteção do planeta, da vida e da natureza. Mas sou anti-burocracia, anti-ditadura e anti-pseudodemocracia burguesa. O socialismo apresenta uma série de quesitos importantes a serem levados em consideração. Todavia, não é a solução, pois não a igualdade generalizada e irrestrita é impossível. E o que funcionava como guerrilha e como exército popular se perdeu no momento em que o partido único e a nova centralização do poder substituíram a promessa de uma hierarquia mais horizontalizada como a que se via nas guerrilhas.

Não é só (e arrisco dizer que nem é principalmente) por falta de dinheiro ou por falta de democracia no uso dos meios de comunicação que a esquerda não triunfa: é porque ela simplesmente ainda perde muito tempo lutando através de um partido que sequer a representa ou de formas revolucionárias atrasadas, defasadas, que não levam a lugar nenhum como antigamente.

Vai ver a minha frustração enorme demonstrada nos últimos dias é por causa dessa teimosia em entrar de cabeça na economia e na ideologia dos fluxos e das redes sociais, por onde tudo circula pelo mundo inteiro.

É preciso instrumentalizar a esquerda para que ela saiba que, além dos blogs, existe o TWITTER, os torpedos via celular, a publicação e download gratuito de livros eletrônicos (e-books) em PDF…

O MST possui escolas itinerantes nos assentamentos que são de qualidade pedagógica superior à oferecida por quase todos os governos estaduais ou municipais. Para se defender e para agir dentro da lei, financia faculdades de Direito, de Ciências Sociais e de Economia para seus integrantes. Tudo isso é louvável. No entanto, o aparelhamento em Ciências da Computação, Jornalismo, Propaganda e Publicidade, Cinema e Design e História é condição sine qua non para obter sucesso nas reivindicações sociais.

No entanto, é preciso, acima de qualquer outra coisa, instrumentalizar os movimentos sociais (não apenas o MST) com telecentros, aprendizado de vários idiomas em curto prazo (as páginas em inglês respondem por quase 80% de todo o conteúdo disponível na internet; depois, vem o espanhol, o francês, o alemão e o italiano, além do mandarim, do japonês e do árabe, cada vez mais necessários) e, acima de tudo, acabar com essa história de “burguesia x proletariado”, de dependência orgânica dos sindicatos e por aí afora.

Como eu disse antes dos incidentes, anunciar via e-mail e se fazer representar através de vociferantes sindicalistas em carros de som foi um tiro no pé. Foi um verdadeiro “CHAMA MENDES“.

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