GRANDE MÍDIA: A NOTÍCIA COMO MERCADORIA

O vídeo acima, sugestão do sociólogo CRISTÓVÃO FEIL do blog DIÁRIO GAUCHE (também referenciado pelo GUGA TÜRCK do ALMA DA GERAL) e todo o trabalho de comunicação comparada do prof. WLADIMIR UNGARETTI em seu PONTO DE VISTA e do MARCELO DUARTE do LA VIEJA BRUJA na análise e na crítica da produção midiática da RBS comprovam, através de fartos exemplos, a falta de profundidade nas discussões, a exaltação do ego de certas personalidades e do agendamento da grande mídia em função dos interesses puramente comerciais de seus patrocinadores, com breves enxertos de mudanças de opinião repentinas sempre que as bandeiras que defendem não podem mais entrar em contradição em relação à percepção que o público tem a respeito das mesmas.

Portanto, eis um pequeno fragmento do meu ainda longe de estar pronto texto para a banca de qualificação que explica o fazer da indústria jornalística sem nenhuma paixão ideológica, baseado tão-somente em fatos:

“Segundo Marcondes Filho (Jornalismo: a Saga dos Cães Perdidos, 2000), no princípio, o surgimento do jornalismo está associado também à “desconstrução” do poder instituído em torno da igreja e da universidade (p. 10), que foram durante séculos as instituições responsáveis pelo monopólio de um saber que era utilizado preferencialmente na manutenção do status quo do que como uma forma de alterar a relação de poder na sociedade européia.

Porém, com o advento da prensa de tipos móveis de Gutenberg em meados do século XV, “as primeiras publicações começaram a multiplicar o número daqueles a quem era dado conhecer os textos reservados, secretos ou sagrados. O saber se espalha e começa a arruinar as bases da unidade religiosa (p. 10)”. As universidades, voltadas à formação profissional e intelectual das elites, “exigia berço, posses, influência e disponibilidade. Os homens do saber… Formavam nas cortes um colegiado de apoio aos monarcas (p. 10)”.
O Iluminismo e a sua Revolução Francesa também foram o berço do jornalismo:

“E a Revolução Francesa, símbolo da queda de regimes monárquicos e do poder aristocrático, foi também, ao mesmo tempo, a conquista do direito à informação. Além de decapitar nobres, tratava-se agora de abrir os diques de seus segredos. Assim, todo o saber acumulado e reservado aos sábios passa agora a circular de forma mais ou menos livre. E são os jornalistas que irão abastecer esse mercado; sua atividade será a de procurar, explorar, escavar, vasculhar, virar tudo de pernas para o ar, até mesmo profanar, no interesse da notícias. Surge daí uma prática eminentemente sua, o mito da transparência, filho direto da ideologia das Luzes. (p. 10-11)”

Esse jornalismo político-literário de 1789 à metade do século 19 é tido como o primeiro jornalismo, cujo objetivo foi o de expor aquilo que era obscuro e de prestar esclarecimento político e ideológico: “o controle do saber e da informação funcionava como forma de dominação, de manutenção da autoridade e do poder, assim como facilitava a submissão e a servidão (p. 11)”.

Contudo, o caráter esclarecedor, de denúncia e de politização que marcou a primeira fase do jornalismo será posto em xeque já na etapa seguinte, a qual Marcondes Filho chama de segundo jornalismo, que surge após 1830. Percebe-se em sua obra (2000) que todas as grandes mudanças estruturais do jornalismo como indústria, como mercado, como fazer e como enunciado estão diretamente relacionadas à adoção de novas tecnologias de produção, armazenagem, busca e distribuição da informação: independentemente das inovações posteriores às rotativas da Revolução Industrial, a necessidade da auto-sustentação financeira da indústria jornalística faz do jornalismo uma atividade dependente do (e, portanto integrada ao) modo de produção capitalista. A necessidade de vender cada vez mais exemplares para manter sempre atualizado o caríssimo maquinário de seu parque gráfico contribuiu para “a grande clivagem” na imprensa:

“…Enquanto a imprensa popular ganhava as ruas estimulando as campanhas operárias, as lutas socialistas e as conquistas sociais, os donos das empresas jornalísticas já estavam dando seu ‘pulo do gato’. A atividade que se iniciara com as discussões político-literárias aquecidas, emocionais, relativamente anárquicas, começava agora a se constituir como grande empresa capitalista: todo o romantismo da primeira fase será substituído por uma máquina de produção de notícias e de lucros com os jornais populares e sensacionalistas.” (op. cit. p. 13)

Nos EUA logo após 1929, verificou-se o surgimento das indústrias publicitária e de relações públicas como forma de reação à Grande Depressão. Tal fato contribuiu para um movimento da indústria jornalística ainda mais acelerado rumo ao monopólio que marcou o terceiro jornalismo:

“…A grande mudança que se realiza nesse tipo de atividade noticiosa é a inversão da importância e da preocupação quanto ao caráter de sua mercadoria: seu valor de troca – a venda de espaços publicitários para assegurar a sustentação e a sobrevivência econômica – passa a ser prioritário em relação ao seu valor de uso, a parte puramente redacional-noticiosa dos jornais. A tendência – como se verá até o final do século XX – é a de fazer do jornal progressivamente um amontoado de comunicações publicitárias permeado de notícias.” (op. cit. p. 14)

O autor afirma que essas duas novas formas de comunicação que passam a competir com o jornalismo acabam por descaracterizá-lo no final do século XX. Por isso, ainda no início desse período que dá à notícia um valor de mercadoria, o caráter de denúncia, de independência e o mito da imparcialidade caem por terra já no segundo jornalismo do último quarto do século XIX:

“A notícia, como mercadoria, vai recebendo cada vez mais investimento para melhorar sua aparência e sua vendabilidade: criam-se as manchetes, os destaques, as reportagens, trabalha-se e investe-se muito mais na capa, no logotipo, nas chamadas de primeira página.

Aumenta o volume publicitário e enfraquece-se a posição dos editores e redatores. O redator perde sua autonomia e o tratamento e a elaboração de notícias se sobrepõem à ‘linha editorial’. A partir de 1870, a escolha dos títulos e a distribuição de matérias no jornal saem das mãos do redator e vão tornar-se função do editor.” (Marcondes Filho 2000, p. 24-25 apud Habermas 1965, p. 203)

Finalmente, a etapa a qual Marcondes Filho chama de quarto jornalismo coincide, para ele, com o fim do jornalismo de acordo com o ideário da Revolução Francesa, descrito da seguinte forma:

“O quarto e último jornalismo, o do fim do século XX, é o jornalismo da era tecnológica, um processo que tem seu início por volta dos anos 70. Aqui se acoplam dois processos. Primeiramente, a expansão da indústria da consciência no plano das estratégias de comunicação e persuasão dentro do noticiário e da informação. É a inflação de comunicados e de materiais de imprensa, que passam a ser fornecidos aos jornais por agentes empresariais e públicos (assessorias de imprensa) e que se misturam e se confundem com a informação jornalística (vinda da reportagem principalmente), depreciando-a ‘pela overdose’. Depois, a substituição do agente humano jornalista pelos sistemas de comunicação eletrônica, pelas redes, pelas formas interativas de criação, fornecimento e difusão de informações. São várias fontes igualmente tecnológicas, que recolhem material de todos os lados e produzem notícias.” (Marcondes Filho 2000, p. 30)

Salvo determinados arroubos que ainda defendem causas caras única e exclusivamente a quem ainda crê que o conflito entre classes é que deve ser exacerbado a fim de demonstrar as idiossincrasias da humanidade ao tentar explicar o mundo atual através de teorias que foram quase perfeitas única e exclusivamente quando adaptadas à época de seus autores, de mais a mais, creio que o pensamento de esquerda apresenta quesitos mais distributivos, justos e solidários para a maioria dos humanos do que o pensamento de direita.

Mais: arrisco afirmar que a situação do PRBS, da RECORD e da BAND RS não se diferencia em quase nada da GLOBO MINAS.

Bem… Faltou tensionar mais Ciro Marcondes Filho. Afinal de contas, estou trabalhando com outros autores que ainda não li o suficiente cuja visão aponta também para a importância do lado não-mentiroso, não-omisso, não-manipulador da agenda da grande mídia e também do lado positivo da hegemonia, que é o de fazer com que grande parte da população conheça uma grande quantidade de assuntos diferentes.

Porém, o “lado ruim” da mídia corporativa existe, é predominante e nossos blogs só existem porque nos damos conta disso e queremos que outras pessoas também percebam isso e tomem uma atitude mais crítica perante tudo o que recebem vendido como se fosse informação.

Mesmo assim, não devemos nos furtar nem a criticar essa mídia hegemônica e denunciar seus interesses, nem tampouco ignorar a sua importância. Afinal de contas, blog não é mídia de massa e, só para ficarmos em um único exemplo, o trabalho das charges do EUGÊNIO NEVES e do KAYSER publicados no DIALÓGICO e no BLOG DO KAYSER; a crítica sarcástica e direta de A CARAPUÇA; a crítica sociológica bem fundamentada do DIÁRIO GAUCHE e o jornalismo militante de qualidade do ALMA DA GERAL e do RS URGENTE constituem, junto com a AGÊNCIA CHASQUE e com a RADIOCOM uma série de blogs que apresentam uma audiência extremamente reduzida se comparada à mídia de massa mas que, como afirma STEVEN JOHNSON em EMERGÊNCIA, certos fatos tomam certa proporção que torna inevitável a sua repercussão na mídia corporativa.

Mas isso não ocorre porque a grande mídia faz um mea culpa ou porque ela seria supsotamente isenta: simplesmente a população em geral já tomou conhecimento de versões mais fortes e mais críveis do que aquela que os grandes divulgaram anteriormente. Isso obriga a mídia corporativa a momentaneamente desobedecer a seus patrocinadores a fim de que estes ainda tenham público para ler seus anúncios.

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Um comentário em “GRANDE MÍDIA: A NOTÍCIA COMO MERCADORIA
  1. Carlos Maia disse:

    A notícia é mercadoria para o RS Urgente, para o Alma da Geral, para o Diario Gauche (o melhor deles disparado). O Weissheimer está em plena tarefa de derrubar o governo da Yeda. Essa é sua intenção e essa é sua mercadoria. E ele faz isso com esse firme propósito. Muito se critica a RBS na época do Olívio, que realmente exagerou e aprendeu com isso. Mas o Weissheimer está muito além desse exagero. Todo mundo tem interesses, Hélio. E não existem santos e cada vivente escolhe a sua mídia. O importante é ter espírito crítico e hoje cada um pode catar coquinhos nos quintais que achar melhor. E que bom que existe essa diversidade. Num clic estou no Reinaldo Azevedo e noutro estou no Emir Sader. Num minuto leio Veja e noutro o Carta Capital. E que bom que existe tudo isso…

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