OS MOVIMENTOS SOCIAIS E A BLOGOSFERA

As ações da resistência pós-moderna obviamente não precisam necessariamente do suporte das novas tecnologias da comunicação e da informação (NTICs), dependendo do contexto.

Um exemplo? Aquele misto de fazine com literatura de cordel que o MZLN de CHIAPAS distribui naquela região do México.

As duas principais características que definem esses movimentos são:

1) DESCENTRALIZAÇÃO: sem partidos, sem chefes, sem donos. O movimento vai-se espraiando mais pela necessidade/vontade de ter uma ou mais demandas satisfeitas por um movimento social atomizado, localizado que, mais adiante, até poderá servir de exemplo ou atuar em conjunto com uma série de outros movimentos atomizados, aí, sim, caracterizando uma reação multitudinária;

2) “EU SOU A FAVOR DA MINHA TURMA E DA MINHA CAUSA. NÃO SOU CONTRA NINGUÉM”: não há o interesse nem em mudar o sistema político-ideológico nem econômico vigente, nem tampouco de exacerbar o sempre presente conflito entre classes, raças, religiões, sexos, profissões, partidos, etc.

Pode-se (em tese dever-se-ia) agir em conjunto com sociólogos, professores, funcionários da mídia corporativa, políticos de diversas matizes e até mesmo empresários. O objetivo é ver uma demanda social relevante para aquele núcleo devidamente satisfeita.

No entanto, confrontos e desconfiança de parte a parte diluem toda e qualquer possibilidade de diálogo no mesmo nível, pois o Brasil possui uma centralização totalmente assimétrica, que caracteriza a não-democratização dos meios de comunicação.

Dessa forma, apesar do aparente sucesso do MST em ter obtido terras do INCRA para o assentamento de militantes como contrapartida para deixarem a fazenda Southall na fronteira do Rio Grande do Sul com o Uruguai nesta semana, houve tanto a violência consentida por uma POLÍCIA SUJA e por LATIFUNDIÁRIOS DA PIOR ESPÉCIE como a criminalização generalizada por parte da mídia corporativa do país inteiro. O deputado estadual DIONILSO MARCON do PT-RS, pequeno agricultor assentado possui maiores detalhes em seu site parlamentar.

É nesse ponto que eu sugiro que o MST, assim como diversos outros movimentos sociais cuja forma mais comum de pressão social se dê predominantemente através do bloqueio dos fluxos (do trânsito, do trabalho, dos serviços públicos, do patrimônio), precisam ser instrumentalizados: câmeras digitais, celulares, acesso à internet, computadores portáteis, blogs, torpedos, álbuns de fotos e de vídeos na internet.

Os sites oficiais desses movimentos como meras formas de divulgação de suas ações escritos por um assessor de imprensa não atingem quase ninguém. São textos asséppticos, sem sensibilidade, sem intimidade, sem chamar o leitor para jogar junto.

Se vários militantes do MST, cada um à sua maneira, escreverem sobre o seu cotidiano, fotografá-lo e gravá-lo, o movimento passa a ter um caráter mais quente, capaz de entrar em pequenos focos dentro do seio da classe média, colaborando para aumentar ainda mais o crescente descrédito da mídia corporativa, aí serão os internautas que tratarão de disseminar ainda mais a verdadeira informação acerca do Movimento.

Não vejo outra forma de ampliar o alcance, a adesão e a respeitabilidade do Movimento no meio urbano que, ao contrário do que muitos pensam, é muito mais importante do que partidos políticos e ideologias em função de dois aspectos:

1) 80% da população brasileira é, atualmente, urbana. É uma massa crítica de 4:1 em relação a uma população do campo que, via de regra, percebe o Movimento sob o viés da oligarquia rural e de seus parceiros, que são os anunciantes da mídia corporativa;

2) Porque o grosso da dita sociedade civil entende o trabalho através da moral judaico-cristã: além de ter que trabalhar feito um escravo para obter-se bens materiais e um lugar no céu, há todo aquele falso discurso da paz e da subserviência aos poderosos (quem pode, pode; quem não pode, se sacode). Então, em uma sociedade individualista e exacerbadamente hedonista, a perceção de quem ocupa e reivindica é a de “fora da lei”, “vagabundo”, “ladrão”, “bandido”, “preguiçoso”.

Infelizmente, a esmagadora maioria da população brasileira não consegue compreender de jeito nenhum como nem por que tanta gente se nega a procurar emprego de faxineiro, de pedreiro e não se mudam para as cidades se não há o que fazer no campo.

Finalmente, há ainda a gravíssima questão da idolatria, do exagerado respeito, do temor, da sedução das megacorporações. BUNGE, CARGILL, MONSANTO, STORA ENSO, VOTORANTIM CELULOSE, ARACRUZ CELULOSE, GESSY LEVER e UNILEVER são amados e temidos dentro e fora da mídia corporativa. No interior de todo o país, as principais referências, apesar do BOLSA FAMÍLIA, ainda são os “coronéis”. Quem possui uma grande quantidade de terras, manda seus filhos para intercâmbio no exterior, desfila na praça principal da cidade com carros importados e possui avião particular vira exemplo, referência, de como o resto da população do lugarejo deveria ser.

Como eu já disse, não é através de palestras em salões paroquiais que meia dúzia de gatos pingados irão sensibilizar toda uma sociedade. Além da ação apartidária e descentralizada através da internet, que tal visitar escolas na zona urbana, expor e oferecer a ampla variedade de produtos agrícolas isentos de transgênicos e agrotóxicos? Que tal levar biólogos, agrônomos, sociólogos e historiadores para desmentir o que a mídia corporativa e para desconstruir a imagem dos latifundiários e das corporações de sementes e de alimentos industrializados?!

O mote do desenvolvimento ecologicamente sustentável atrai e está aí, disponível para ser utilizado de uma maneira comunicacionalmente mais palatável.

Nós já temos um exemplo claro e bastante próximo: o blog AMIGOS DA RUA GONÇALO DE CARVALHO idealizado pelo CESAR E PELO RODRIGO CARDIA ajudaram a tombar a rua como patrimônio ambiental. Caso os vizinhos que se mobilizaram por essa causa fossem levar em conta suas diferenças ideológicas, religiosas, profissionais e partidárias, o movimento teria dado com os burros n’água.

Leiam os posts desse blog, que é o melhor exemplo de ativismo da blogosfera brasileira. Sendo os idealizadores Cesar (artista gráfico) e Rodrigo (acadêmico de História), tão-logo a almejada manutenção da qualidade de vida na rua mais bonita de PORTO ALEGRE foi mantida através do diálogo com o poder público, com a mídia corporativa e com a associação de bairro local, o blog passou a divulgar preocupações sociais e ambientais maiores, envolvendo toda a Grande POA. Passou, ainda, a envolver-se mais com as questões de bairros adjacentes.

É verdade que o prefeito e o secretário de meio ambiente, mesmo sendo de partidos de direita, sensibilizaram-se pessoalmente com a causa porque envolvia uma região de classe média alta próxima ao Centro da capital gaúcha. Também é verdade que a administração Fogaça é um desastre completo em termos de administração, finanças e, sobretudo, por ter acabado com uma série de políticas voltadas à satisfação de demandas mais populares. Contudo, é inegável a necessidade de saber, poder e de querer dialogar com eles.

Isso vale também com a polícia, com o Governo do Estado, com as prefeituras reacionárias das cidades agrárias da fronteira e do sul do RS.

Enfim… Eu analiso, observo, critico, sugiro soluções… Porém, minha indignação e meu envolvimento político-ideológico tornam muito difícil o meu envolvimento direto em reivindicações.

De modo geral, assim como a mídia corporativa não pode mais deter a pecha de “quarto poder” porque apresenta uma série de lacunas inerentes à sua forma de produção que podem ser rapidamente desconstruídas pela blogosfera, até mesmo os governos de direita, para manterem uma esperança mínima que seja de manterem-se no poder ou de eleger o seu sucessor, devem, necessariamente, satisfazer a algumas demandas populares.

Ao invés de querer tomar o poder de maneira com que o diálogo com os opostos torne-se impossível, é preciso aprendermos todos a entrarmos nesses focos não-blindados em busca de nossas próprias demandas.

Se cada pequena comunidade pensasse como o pessoal da GONÇALO DE CARVALHO, poderiam vir Yeda, Fogaça, FHC, Alckmin, Serra, Britto, Odone, Busatto e outros menos votados que eles, com ou sem apoio da mídia corrporativa, deveriam necessariamente atender a uma quantidade muito maior de cidadãos necessitados.

Claro que as dicotomias, a luta de classes, a corrupção, o lobby e as medidas a favor dos ricos que não trabalham pelo desenvolvimento do país nem pela distribuição de renda SEMPRE irão existir. Claro que os partidos de esquerda TENDEM a satisfazer demandas populares em maior quantidade e com maior rapidez do que os partidos de direita.

Porém, nada é perfeito e até mesmo aqueles em quem mais confiamos podem nos dar as costas se não fizermos parte de suas prioridades de investimento.

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3 comentários em “OS MOVIMENTOS SOCIAIS E A BLOGOSFERA
  1. Cesar disse:

    Hélio,
    Isso tudo realmente dá uma grande discussão.
    Estratégia e planejamento realmente são fundamentais.
    Como foi dito, qualquer dia desses se joga uma partida de botão e se fala mais a respeito.
    Mas tenho que informar que meu time, o “Fortes e Livres” de Muçum, apesar de velho é quase imbatível!

    Abraços

    Cesar

  2. RODRIGO: informação corrigida. Obrigado e desculpa pelo meu erro! :)

    No mais, a atuação de vocês foi realmente incrível! Vocês são um exemplo de cidadania no mais alto nível!

    Mais adiante, quando estiver um pouco menos atrolhado, a gente combina de jogar botão e de batermos um papo! :)

    []’s,
    Hélio

  3. Hélio:

    Em primeiro lugar, obrigado pelos elogios.
    Quando o movimento da Gonçalo começou, tinha-se quase certeza da derrota. Os interesses envolvidos eram muito poderosos. Mas ninguém desanimou diante das adversidades, e a luta acabou vitoriosa.
    Em segundo lugar, uma correção: meu pai, o Cesar, não é arquiteto, é artista gráfico.

    Abraços,
    Rodrigo

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