BLOGS GREMISTAS DISCUTEM O MOMENTO

Pego o gancho do JOÃO SILVA do excelente blog GRÊMIO IMORTAL (uma crítica corretíssima sobre um exemplo de mau jornalismo praticado por ZERO HORA ao abordar a questão da crise do GRÊMIO) para explicar um pouco da minha atividade como pesquisador em Ciências da Comunicação. Trabalho em uma divisão da grande área denominada pelo CNPQ como CIÊNCIAS SOCIAIS APLICADAS. O objetivo deste trabalho não é ser inacessível ao grande público através de uma linguagem ininteligível, nem tampouco o de discutir por discutir.

Ao contrário do que muitos pensam, absolutamente todas as áreas do conhecimento que estudam de menos e tornam a sua prática mecânica demais seriam beneficiadas e o país cresceria em níveis exponenciais caso houvesse preocupação constante em uma revisão das práticas que contemplasse também o indivíduo, o grupo, a solidariedade e os aspectos sensíveis e afetivos ao invés de meramente se preocupar com a frieza dos números traduzida em despesa, receita, lucro, dívidas, resultados e produtividade.

Sem a mínima reflexão acerca do papel social, isto é, do pleno conhecimento de quem, quando, como, aonde, por que/por quem e sob quais condições é prejudicado ou beneficiado com cada ação mercadológica ou científica, não há nenhuma possibilidade de proposições, propostas, debates, discussões em prol das transformações verdadeiramente sensíveis em cada microcosmo (família, rua, clube, igreja, escola, empresa, cooperativa, federação, etc.).

Independentemente da etnia, da religião, da ideologia, da profissão ou de onde cada um vive, trabalha, estuda e se diverte, a sociedade brasileira beneficiar-se-ia muito mais, proporcionando maior qualidade de vida a todas as pessoas – sem exceção – caso houvesse espaço para a divulgação de ações propositivas a partir de análises multidisciplinares criteriosas e minuciosas das leis, dos métodos de administração e da condução da economia e, acima de tudo, da solução personalizada para cada caso ao invés de pôr a sociedade em uma vala comum e buscar soluções através de fórmulas prontas, o próprio GRÊMIO seria um clube muito melhor em todos os sentidos – sobretudo naquele que mais interessa, que é a regularidade nos resultados do futebol.

O meu papel é analisar a influência, a repercussão, as mudanças de hábitos nas relações afetivas, sociais, econômicas e ambientais não como um megacientista conhecedor de tudo e de todos mas, sim, pegando emprestados os conhecimentos de muitas áreas do conhecimento para verificar o quanto as ações dependem de como a sociedade se apropria das notícias, da publicidade e de como ela se relaciona com e através das Novas Tecnologias da Comunicação e da Informação.

Complicado? Nem tanto. Tomemos como exemplo tudo o que se relaciona ao GRÊMIO.

Já pararam pra pensar que há diversos blogueiros que procedem de diferentes formas ao falarem do GRÊMIO? Uns são mais irônicos; outros, mais incisivos; outros assumem a responsabilidade por suas opiniões publicamente dando seus nomes verdadeiros e profissões enquanto outros são mais verborrágicos, menos detalhistas e se escondem através de um pseudônimo ou do mero anonimato.

Cada blogueiro possui uma diferente motivação para falar do GRÊMIO. Alguns conhecem gente da mídia. Outros, gente que trabalha dentro do GRÊMIO. Outros, juntam tudo o que lêem, ouvem e assistem seja pessoalmente, seja através daquilo que circula na mídia e publicam suas impressões pessoais ou informações que afirmam serem verdadeiras divulgando ou não suas fontes e referências.

Com o tempo, um blogueiro vai conhecendo os outros. Quando gosta de um blog, adiciona um link à sua lista, indicando a seus leitores aquilo que lê como uma forma de expandir os horizontes a partir de concordâncias e divergências sobre o clube.

Cada blogueiro possui um público cativo e um público volátil: os primeiros crêem no blogueiro e sempre voltam, fazem comentários aos seus posts, copiam e colam posts inteiros ou trechos de posts ou em seus próprios blogs, em listas de e-mail ou em comunidades do Orkut.

É inegável que estabelece-se aí não apenas uma nova massa crítica que não tem espaço nem para participar de debates na mídia corporativa, nem dentro do Conselho Deliberativo. É uma possibilidade de, com os MESMÍSSIMOS erros e acertos de informação e de interesse no assunto que a mídia tradicional e os dirigentes também apresentam, de qualquer torcedor, associado ou até mesmo adversário TRICOLOR dizer o que pensa a respeito do clube.

Audiência pequena não é sinônimo de incompetência nem de falta de credibilidade: é uma decorrência da falta de tempo e de dinheiro para dedicar-se inteiramente a falar sobre o GRÊMIO, da falta de novidades e das redundâncias que cada um traz sobre a sua experiência de ser gremista e também do fato de a internet ainda ser um privilégio de poucos brasileiros. Some-se a tudo isso a enorme segmentação, que faz com que um número reduzido dentro do universo de internautas saiba o que de fato significa um blog. Segundo pesquisa recente do IBOPE/NetRatings, o Brasil apresenta 44 milhões de internautas entre assíduos e eventuais. Desses, apenas 10 milhões sabem o que é um blog, sem necessariamente ler todos os dias ou escrever um blog. E há milhares de assuntos diferentes tratados pelos blogueiros – muito além do GRÊMIO e da predominância de blogueiros gremistas de Porto Alegre, do Rio Grande do Sul e dos estados pouco povoados das regiões Centro-Oeste e Norte onde houve uma imigração de agricultores gaúchos na década de 1970.

Portanto, se alguém ainda não prestou atenção no fenômeno da blogosfera, os blogs são muito mais do que meros registros pessoais, links recomendados e textos publicados em uma ordem cronológica reversa: eles representam a voz de quem não possui acesso a patrocinadores ricos nem a um aparato tecnológico que emita o seu discurso de maneira massiva.

A audiência dos blogs é absurdamente menor em comparação à audiência das mídias de masssa tradicionais (jornal, revista, rádio e televisão). No Brasil, meia dúzia de corporações de mídia são proprietárias ou associadas de milhares de pequenas emissoras e publicações espalhadas por todo o BRASIL. Em uma simples busca no site do MINISTÉRIO DAS COMUNICAÇÕES, está publicada a lista de todos os proprietários e sócios e, com paciência, não é difícil saber quem é amigo de quem e quem financia quem. Não por acaso, as famílias de JOSÉ SARNEY, ANTÔNIO CARLOS MAGALHÃES e FERNANDO COLLOR DE MELLO e de cerca de 100 dentre os quase 600 deputados federais e senadores são proprietárias de afiliadas da GLOBO, da BAND, do SBT e da RECORD.

Somente o meio acadêmico sabe disso porque é sua obrigação. Por razões de mercado, a mídia corporativa jamais irá divulgar suas origens. A GLOBO e a RBS cresceram muito durante a ditadura militar, gastando muito pouco em troca de não falarem mal do regime. Existe uma agenda comum, mesmo entre supostos concorrentes. A agenda é um conjunto de temas e de critérios para considerar-se um determinado fato como notícia. A partir daí, definem-se estratégias de enunciação e de discurso com o objetivo de levar a audiência a pensar e a agir em relação a um determinado assunto de maneira que favoreça os interesses políticos e econômicos dos seus patrocinadores e, sobretudo, aos seus próprios interesses.

O que é apresentado a respeito de cada assunto, como é dito, por quem e quando esconde uma série de assuntos que poderiam ou até mesmo deveriam ser conhecidos e tratados pela sociedade com prioridade em relação àquilo que é veiculado. COMO É DITO, POR QUEM É DITO E O QUE NÃO É DITO MUITAS VEZES É MUITO MAIS RELEVANTE DO QUE, SIMPLESMENTE, AQUILO QUE É DITO.

Na atual sociedade, onde tudo é midiatizado, isto é, onde as discussões não são mais públicas e diretas em auditórios, praças públicas e em salas de reunião mas, sim, travadas a partir da edição (cortes e troca de ordem das falas em relação ao material bruto com a informação completa) e da mediação (parte da informação escolhida por terceiros como a única parte a chegar até nós) dos meios de comunicação, a relação entre o que é dito e entre o que não é dito pela mídia corporativa é algo MUITO SÉRIO e EXTREMAMENTE RELEVANTE.

Voltando ao GRÊMIO: desde o final do fatídico jogo contra o ATLÉTICO-GO, quanta energia é torrada em especulações? Citar nomes jogados ao vento de maneira inconseqüente, dar importância ao irrelevante e dispender o tempo de um monte de profissionais entre repórteres, cinegrafistas, editores, motoristas e por aí afora é muito mais uma forma de vender jornais e de garantir que o dial do rádio está sintonizado na rádio X ou Y a fim de poder cobrar mais e de prestar contas aos patrocinadores do que necessariamente de comprometer-se com algo objetivo, que são os movimentos de solução da crise.

Mau jornalismo foi o que muitos repórteres de diversos veículos fizeram no bombardeio incessante sobre o técnico CELSO ROTH após o jogo. Feito hienas, vários dos entrevistadores foram jocosos e masoquistas, esperando terem o poder de derrubar o técnico sem que ele próprio estivesse disposto a sair do GRÊMIO por livre e espontânea vontade e sem absolutamente nenhuma informação oficial sobre demissão ou troca de comando nas falas do presidente ODONE ou do diretor de futebol PAULO PELAIPE.

Nós, como blogueiros, para obtermos confiança e respeito, não precisamos ser jornalistas. O que devemos ter é um compromisso com a verdade, sermos responsáveis e, de preferência, não-verborrágicos.

Espetacularização da notícia é uma prática regular na contemporaneidade. Diz o ditado que contra fatos, não há argumentos. Notícia é ago que foi declarado por alguém ou pesquisado de tal forma que seja possível a qualquer um verificar a veracidade dos fatos. Todavia, nesta sociedade onde os fluxos (de veículos, de informações, de dinheiro e de mercadorias) infelizmente é mais importante do que a sociabilidade, a convivência, as relações sociais e tudo aquilo que é sensível, ao invés da opinião ser opinião; do fato ser fato; e da mídia veicular somente aquilo sobre o que se tem absoluta certeza, tudo é misturado para vender mais.

E, ao mesmo tempo, como poucos são donos de quase tudo, as práticas são as mesmas e não há quase espaço para a divergência. De qualquer forma, isso não significa necessariamente má fé mas, sim, uma desvirtuação do papel social que os aquários e a preponderância do valor do dinheiro sobre o valor do profissional e da pessoa como ela é impõem esse modus operandi que é ruim para o bom jornalista que não tem muito para onde escapar, nem para o público, que poderia ser informado com mais qualidade.

O ALMA DA GERAL, o GRÊMIO ACIMA DE TUDO, o GRÊMIO IMORTAL, o EL ZAGUERO, o GRÊMIO 1983 e vários outros blogs gremistas que leio freqüentemente e com quem troco comentários e citações (confiram minha lista com atuais 22 links) formam não apenas uma relação pífia entre o antigo conceito de emissor e receptor mas, sim, um CANAL DE RELACIONAMENTO onde, ao invés de concorrência e de pensamento único, há discordâncias cordiais, concordâncias com críticas e ressalvas, uma ampla troca de informações muito diferentes entre si e um acúmulo de impressões que proporciona o surgimento de ações e de propostas completamente novas.

Isso prova que a audiência não é passiva, é divergente, não aceita tudo o que recebe como verdade e, acima de tudo, POSSUI INTELIGÊNCIA. Uma INTELIGÊNCIA COLETIVA e não uma resolução consensual.

O trabalho honesto, coerente e verossímil dos jornalistas que ainda agem à moda antiga é importantíssimo. Tenhamos em mente que tanto conselheiros do GRÊMIO como jornalistas monitoram todos os blogs: como nenhuma prática social urbana da atualidade está dissociada da midiatização, eles nos pautam (cerca de 80% daquilo que discutimos surge através do que eles noticiam) e também os pautamos (dentre tantos exemplo, cito a repercussão do meu mero relato sobre o debate da CHAPA 3 antes da eleição do CD em setembro do ano passado).

E sigamos o baile, com todas as nossas qualidades, defeitos, coerências e contradições – que não são maiores nem piores do que as de quem defende interesses de quem os paga.

Até 21/04, terei muito trabalho e postarei muito pouco. Basta ver que deixei para trás muito o que dizer sobre a UEFA CHAMPIONS LEAGUE e sobre os campeonatos europeus (alemão, inglês, etc.) neste primeiro terço de 2008.

Sigamos trocando impressões. Sempre que der, trarei algo novo. ;)

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Um comentário em “BLOGS GREMISTAS DISCUTEM O MOMENTO
  1. André K. disse:

    Eu sempre acho que aquele numero absurdo de blogs da Rbs é uma reação a “isso” tudo.

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