O CONDUTO E SEU PERIGOSO PESO SIMBÓLICO

Enfim, cessaram os transtornos dos 34 meses de obras dos cerca de 15 km de enormes galerias subterrâneas do conduto Álvaro Chaves-Goethe em Porto Alegre. O maior incômodo foi durante o erro de projeto que fez com que quase se derrubasse o Túnel Verde da R. Marquês do Pombal e o maior transtorno foi o tempo em que a R. Coronel Bordini passou semi-fechada para o trânsito de veículos.

Se fosse o PT, imagina o que não estariam dizendo?!

O maior erro de engenharia desta obra – que custou meses em tempo e dinheiro – possivelmente causou demissões, brigas e, sobretudo, muito lobby para que a mídia amiga blindasse o atual governo municipal. Hoje, o tema é tratado pela mídia corporativa porto-alegrense como uma decisão que poupou 400 e tantas árvores. Na verdade, houve tão-somente a união do útil (isto é, do pretenso apoio à ecologia por parte de um governo de direita) ao agradável, isto é, uma obra que mostrou trabalho direto em bairros de classe média e alta, atingindo 11 bairros próximos ao Centro, à saída de Porto Alegre e cortados por ruas e avenidas importantes e tradicionais.

Enquanto isso, a atual gestão esconde que deturpou a essência do Orçamento Participativo gerando uma participação de poucos com benefícios para poucos. Ao mesmo tempo, diversos programas de inclusão social, muitos deles realizados em uma parceria que nada tinha de fraudulenta nem tampouco de cara ou de ineficaz entre o Programa de Pós-Graduação em Psicologia Social da UFRGS e a saudosa Administração Popular foram extintos, com ou sem alegações que, quando haviam, eram as mais esdrúxulas possíveis.

Pois bem: voltando ao conduto, as galerias são capazes de evitar os alagamentos freqüentemente enfrentados durante décadas pelos habitantes do pequeníssimo baixio da quadra entre as ruas Mata Bacelar e Nova Iorque no Bairro Auxiliadora; do trecho nas cercanias da Av. Goethe e da Dr. Timóteo nas proximidades do Parcão; de algumas pequenas ruas perpendiculares às avenidas Cristóvão Colombo e Farrapos, em trechos muito pontuais.

A classe média merece essas obras? Sem sombra de dúvida que sim! A obra era realmente necessária? Óbvio que sim! Há pessoas de idade avançada vivendo em prédios antigos nessas regiões que precisam MUITO de conforto e qualidade de vida? Não há o que questionar a esse respeito. Contudo, a questão crucial para a esquerda que, desde sempre, caracteriza-se por buscar trabalhar priorizando sempre os mais carentes é: ela [a obra do conduto] deveria ser prioridade em relação a zonas onde doenças, violência, falta de investimento em saúde, educação, pavimentação, policiamento e outros quesitos de infra-estrutura responsáveis por uma melhora considerável na qualidade de vida daquela maioria que mais precisa de assistência do Estado?

Excepcionalmente, na atual conjuntura, digo que sim com todas as letras. Afinal de contas, embora sempre haja reivindicações justas, urgência e, acima de tudo, prioridade para os mais pobres, o grandissíssimo pecado de todas as Administrações Populares foi justamente o de não ter sido minimamente eleitoreira e clientelista em pequenos aspectos.

Infelizmente, o RS está muito atrasado em relação à descrença na mídia corpporativa em relação até mesmo ao paulistano e ao carioca que, supostamente, deveriam ser os mais bitolados em função da atuação direta dos grandes conglomerados midiáticos no Sudeste. Aqui, lê-se menos blogs, lê-se mais jornais e, em função da melhor qualidade de vida, temos uma classe média proporcionalmente maior que, em função do aumento da expectativa de vida, lê mais jornais e revistas e uma classe média baixa que ouve mais rádio.

O peso simbólico do conduto afeta diretamente a essas pessoas: ao contrário do que orgulhava a esquerda durante os 16 anos de Administração Popular, o conduto Álvaro Chaves-Goethe trouxe ao imaginário da classe média porto-alegrense a olhos vivos uma realidade que eles queriam ver há muito tempo: a ação direta da Prefeitura a seu favor. O desconhecimento das centenas de realizações da Frente Popular na periferia que proporcionaram um avanço muito menos caótico que resultou em uma condição muito menos catastrófica das relações sociais urbanas em nossa cidade do que teria sido caso as obras tivessem sido feitas apenas “pra burguês ver” é total. Tanto é que muitos conservadores dizem: “Esta prefeitura, sim, trabalha! Desta vez, as obras aparecem!!!

Como o objetivo é governar para todos sem exceção e já que o prefeito e seus secretários devem trabalhar pela cidade, a Frente Popular ignorou uma parcela extremamente significativa da população, mesmo que tenha priorizado o que qualquer pessoa minimamente culta e inteligente também teria apoiado caso tivesse sido suficientemente informada sobre isso.Por mais “errado” que seja, em certas situações, o ditado “QUEM NÃO É VISTO, NÃO É LEMBRADO” precisa ser levado a sério.

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Um comentário em “O CONDUTO E SEU PERIGOSO PESO SIMBÓLICO
  1. […] deleite de boa parte da mesma população beneficiada pelo conduto, a “chinelagem” foi transferida para a parte do Centro onde só circulam  as […]

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