CAPAS DE REVISTAS MANIPULAM SUBJETIVIDADES

Embora a pauta já esteja bastante datada, creio que se trata de um assunto fundamental para que todos compreendam o processo de escolha das imagens, das fontes e da diagramação de uma capa ou de uma página qualquer de revista ou jornal, a fim de compreenderem que a edição produz sentido diferente da conotação original da imagem capturada pela lente de uma câmera, através da criação de um novo enquadramento, gerando uma descontextualização na maior cara-de-pau.

Creio que este seja um subsídio interessantíssimo para testar novas opções pedagógicas no ensino de História que um grupo de professores está introduzindo no blog HISTÓRIA EM PROJETOS, com direito à tentativas bastante válidas de abrir os olhos dos estudantes para a interpretação correta a respeito do que fala a mídia corporativa.

Peguei a dica do comentário da CONCEIÇÃO OLIVEIRA em um post recente do blog do EDUARDO GUIMARÃES, visitei o site e eis minha pequena contribuição para eles:


Protótipos da capa (acima)


A capa publicada

Um dos blogs que faz parte dos 22 gaúchos da SIVUCA (meu corpus), o Alma da Geral, lançou uma discussão interessante, que me levou a pensar além. Depois, eu preciso saber se e como transpor isso para o meu texto.

Lembrei da aula que o Fausto (v. Midiatização e Processos Sociais, Antônio Fausto Neto) deu sobre uma comparação entre as capas das revistas semanais antes das eleições de 2002 e 2006. Nesse caso, nada a ver com redes sociais ou com internet. Olhem só esses posts:

CAPA DA SEMANA: CHÁVEZ POR ÉPOCA

AINDA ÉPOCA SOBRE O CHÁVEZ

Bem… Em um momento no qual a credibilidade da mídia corporativa como um todo, apesar de todo o seu poder e da midiatização crescente, anda abalada junto a vários setores da sociedade que sequer perdiam o seu tempo discutindo o papel da mídia corporativa, o Fausto disse que os editoriais estão mostrando o processo de produção (isto é, o que se passa por detrás das câmeras no estúdio; que a produção telefonou, mandou e-mail, buscou o entrevistado x no aeroporto, fora o espaço que muitos jornais dão para que o leitor escreva uma coluna).

Esse movimento existe pra mostrar que, “se a gente mostra pra você como nós fazemos; se você percebe o trabalhão que nós temos para levar a informação até você e, de quebra, se ainda abrimos espaço e, de certa forma, ensinamos um pouco a você como fazer do jeito que nós fazemos, é sinal de que o nosso trabalho é honesto, sério, gratificante e, portanto, CONFIÁVEL.

O caso dos links acima demonstra que a exposição daquilo que fica opaco dentro do ambiente de produção midiático torna-se quase transparente no momento em que é exposto na web através do FAZ CABER – um blog público que às vezes se esquece do tamanho da sua exposição midiática criado pelos técnicos e editores de capas e de fotografia da Editora Globo.

Santa vontade de aparecer fazendo de conta que não quer aparecer, Batman: a explicação dada pelos editores de Época através de um endereço www disponível para o mundo inteiro forneceu subsídios para interpretações diversas a respeito do seu processo de trabalho. Conseqüentemente, isso gerou n interpretações da mensagem enunciada na capa.

Voluntariamente ou não, seja de forma explícita (na carta ao leitor) ou implícita (em um blog editado pelo pessoal da arte), o fato de chamar o receptor para junto do veículo mantém intacto, em ambos os casos, o objetivo de fazer com que esse receptor que atende ao chamado da mídia mantenha a crença na importância da revista x, y ou z como fonte de informação confiável.

Portanto, a forma dos blogs independentes interpretar e difundir a explicação de como a capa foi feita a partir do blog da arte da revista não apenas ressemantizou a própria capa, de tal forma que essa nova visão a respeito do mesmo conteúdo contraria a intenção da revista.

Isso gerou uma réplica dos próprios editores de arte de Época. Portanto, a reverberação dos blogs independentes fez com que a revista precisasse se defender.

Voltando à dupla NEGRI E HARDT, imagina se isso virar moda como ocorre na propaganda eleitoral e nos debates, onde um lado só bate e acusa o outro só para fazer com que ele perca seu tempo se defendendo ou dando explicações ao invés de apresentar suas propostas ou realizações…

Explicando melhor: tal edição de Época contém muito mais do que a capa e a matéria de capa. Imagina se n blogueiros começarem a fazer a comunicação comparada da revista inteira, com n links (outros blogs, sites de notícias concorrentes, informações parecidas recuperadas a partir de um outro contexto que apresenta particularidades semelhantes, You Tube, Orkut e assim por diante)…

A revista não precisaria gastar mais páginas, aumentar seus editoriais e pautar seus articulistas tão-somente para se explicar?!

Não seria essa uma forma de resistência pós-moderna mais eficiente do que meramente mandar spam dizendo pra boicotar a revista ou fazer uma passeata na frente da editora?!

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7 comentários em “CAPAS DE REVISTAS MANIPULAM SUBJETIVIDADES
  1. Hélio Sassen Paz disse:

    ZÉ: VALEU!!! :D

    Esses links são importantíssimos pra eu descrever meu objeto de pesquisa! ;)

    []’s,
    Hélio

  2. Jose disse:

    Oi, Hélio,
    Só para acrescentar, tem um texto do Venício Lima, no Observatório da Imprensa, onde ele fala mais uma vez do impacto da Internet.
    Porém no final do texto ele mostra capas da Veja, comparando a desta semana, com a de algum tempo atrás. Ótimo para comparar e lembrar.
    []

  3. S-Porto Alegre / RS disse:

    Hélio, achei tudinho verdade na resposta que tu deu pro Maia!
    Eu não sei como pode,alguém crer Sem Prova Nenhuma,nenhuma,que o Chaves,Fidel,e outras “esquerdas”,
    são coisas demoníacas.Alguém ainda no séc XXI acreditar no Demônio só porque veste vermelho, e defende pobres e desvalidos,mas o Maia acredita…Acho ele um baita sem-vergonha e sem noção por puro oportunismo.

    Nem perde tempo tentando explicar isso à ele,mas prá mim ficou tudo bem claro.
    O Maia acredita em Notebook blindado ( qui nem li nem sei em que blog) e que resistem as bombas que foram usadas contra as Farc.

    Será que ele é cego tb e não viu os furos das balas pelas costas? ou ele pensa que as balas entraram e saíram dos corpos?Alguém com um pingo de inteligência sabe que a saída da bala,pelo vácuo interno causado, faz um buração e não um buraquinho!!!!!

    abraços Sueli

  4. Hélio Sassen Paz disse:

    Maia,

    Mídia vigilante e atenta registrando DE IGUAL PARA IGUAL TODAS as realizações E TODAS as falcatruas e decisões polêmicas ou contraditórias é algo que nunca se viu no lado de cá do Atlântico.

    A mídia corporativa não poderia, de forma alguma, distorcer, enganar, manipular dados e fatos. Jornalismo se faz através de FATOS e de PROVAS. Folha, Estadão, RBS, Globo, Abril, etc. NÃO FAZEM JORNALISMO INVESTIGATIVO E TÃO IMPARCIAL QUANTO POSSÍVEL quando se trata de política e economia.

    Isso é desonestidade. É forçar a mediocridade e a crença pura e simples naquela subjetividade produzida ao invés da reflexão. É falar pouco e somente exaltando ou criminalizando um único lado da história. Dessa forma, não existe compromisso com a verdade.

    Tu conheces alguém que foi à Venezuela, subiu morro, conversou com a população pobre daquele país? Algum jornalista brasileiro da mídia corporativa o fez? NUNCA!!! O Eduardo Guimarães, o Luiz Carlos Azenha e o Maringoni, que são independentes, fizeram um trabalho único de pesquisa de campo, onde colheram depoimentos não-editados e não-descontextualizados.

    Conheces alguém que foi para Cuba sem ser para disputar algum torneio esportivo ou para curtir praia em Varadero?! Eu conheço pessoas que foram para lá ficar em casa de família e participar da rotina diária da população.

    Pra não ficar nessas falácias, aonde está A PROVA de que Chávez deu dinheiro para as FARC? Tu conheces as FARC? Sabes por que existem as FARC? Sabes quais são os objetivos e contra o que lutam as FARC? Tu concordas com a invasão de território estrangeiro para provocar uma guerra entre irmão insuflado por uma potência que tem interesse nas riquezas naturais dos países da região? Sabias que a libertação de Ingrid Bettancourt – opositora do narcopresidente Uribe – está sendo negociada pela França e pela Venezuela? Sabias que os documentos da CIA de 1993 e a matéria de 1994 da revista Newsweek (que nunca foi de esquerda, porém não briga com a notícia) comprovam o envolvimento de Uribe com um movimento antagônico às FARC de justiceiros e que ele era o braço político de Pablo Escobar quando era senador?

    Me diz POR QUE DIABOS nada disso sai nos jornalões, revistonas, rádios e TVs brasileiras?

    O que é inaceitável é o consenso, a demonização, o caminho de via única, a repetição insistente em uníssono de fatos contados pela metade misturados com opiniões simplistas, maniqueístas e de um único viés.

    Percebe-se que tu não és do ramo. Logo, aceitas como verdade qualquer coisa que o nome, a marca, o carisma, a expressão facial e a tonalidade vocal dos comunicadores de uma série de veículos de comunicação cujo compromisso maior é com seus patrocinadores a fim de vender seus produtos do que em fornecer um serviço de cunho social, capaz de produzir a diferença na sociedade.

    A crítica deve ser feita sempre. Porém, com muita responsabilidade: quem disse o que, onde, quando, para quem, antecedentes. Isso é notícia. Com que efeito e com qual objetivo? Isso é crítica. Toda notícia deve fornecer PROVAS. Se há várias maneiras de interpretar uma tabela ou dados estatísticos, então que TODAS sejam oferecidas ao mesmo tempo e com O MESMO PESO.

    Quem regorgita o que a mídia corporativa diz como um papagaio de seus pseudo-críticos ou é ingênuo, ou é ignorante, ou age de má fé. Quem é que se espelha nos ricos (usineiros, latifundiários, grileiros, banqueiros, sonegadores, corruptos, traficantes, políticos representantes de todas essas oligarquias e de interesses multinacionais orquestrados para sugar nossos recursos e nossa mão-de-obra sem distribuir riqueza) como exemplos de “sucesso” e de “honestidade”?!

    Quem projeta toda a sua ignorância política, social, cultural e econômica? Quem projeta uma visão construída em torno de valores que sustentam o maniqueísmo, o sexismo, o racismo, o preconceito e a incapacidade de se esforçar para resgatar na história os antecedentes do atual contexto? Quem prefere desconfiar, temer, agredir, retaliar e criminalizar a base da pirâmide?!

    A CLASSE MÉDIA!!!

    A classe média é o pior extrato social na América Latina. Não o faz por maldade mas, sim, por subserviência. É a classe média que faz o trabalho sujo da concentração de riqueza nas mãos dos ricos e criminaliza os pobres a torto e a direito.

    É a classe média que diz “chega de imposto”, sem saber que a carga tributária do Brasil é, embora cheia de equívocos de alíqüotas e de acúmulos em cascata, menos complexa do que a dos EUA e que teria que morar em cavernas caso não houvesse esse investimento. Se não houvesse saneamento básico, água potável, vias públicas, iluminação pública, coleta de lixo, escolas públicas, saúde pública, tudo o que se queixam em relação à violência urbana seria multiplicado por 1000 e estaríamos vivendo em uma guerra civil.

    É a classe média que se diz solidária e complacente, mas que quer que mandem bala no MST, na Via Campesina (e sequer sabem as motivações sociais e políticas desses movimentos sociais porque a mídia corporativa JAMAIS os mostrou de dentro pra fora) sem pegar um carro e atravessar o RS pra ver que há CENTENAS DE MILHARES de hectares nas mãos de meia dúzia de donos SEM PRODUZIR ABSOLUTAMENTE NADA e que é a monocultura a responsável pela miséria na Metade Sul do Estado.

    É a classe média que é contra o sistema de cotas nas universidades, que é contra o Bolsa Família. Ela acha que se mata trabalhando e que o mérito de ter conseguido acumular alguma coisinha é único e exclusivo dela.

    Estou sendo generalista e maniqueísta?! NÃO!!! Afinal de contas, também faço parte da classe média e conheço muita gente boa e honesta, inclusive de direita. No entanto, crer na direita é crer sempre no poder de cima para baixo e na manutenção do status quo. Porém, mais da metade da classe média é conservadora e reacionária.

    A mudança não vem do PT nem do PSDB. Não vem do judiciário nem do executivo. Os grandes empresários não são quem mais sustenta a economia. Eles não são sacrificados por causa da carga tributária mas, sim, os pequenos.

    A mudança vem de cada um de nós. Se a classe média não começar a mudar a sua maneira predominante de ver o mundo, mesmo que cheguemos a um estágio de melhor distribuição de renda, economia aquecida e justiça social, essa parcela da classe média será sempre bucha de canhão nas mãos de quem pretende centralizar o poder nas mãos de poucos e dividir a sociedade em castas.

    []’s,
    Hélio

  5. Carlos Maia disse:

    Hélio. É fundamental que a mídia tenha uma postura crítica em relação ao governo Chávez por um motivo mais do que relevante: ele gosta de calar a boca da mídia que lhe critica. Mídia tem que ser vigilante, Hélio. E é impossível não ser vigilante num governo como o de Chávez que gosta de fazer cortinas de fumaça para desviar da população venezuelana os graves problemas econômicos de inflação alta e desabastecimento. Então ele cria crises de forma desproporcional como esse caso da Colômbia e Equador. Assisti ao pronunciamento dele na conferência de Santo Domingo. Ele se mostrou preocupado com a denúncia de que ele deu dinheiro público para as FARC. É que no computador de Reyes tinha muiiiita informação. Aquele senhor das armas que os americanos estavam procurando há muito tempo foi preso exatamente porque se localizou no computador de Reyes seus passos. E Chávez parece estar envolvido. Aliás, eu não tenho dúvida nenhuma disso.

  6. Esqueci, de dizer se vc observar lá embaixo em blogs e portais de notícia, o Palanque do Blakão também está listado lá no blog da História em Projetos e não apenas no post específico do projeto :)
    Não refi o link ainda no Mariafrô, porque mudei recentemente o layout da página e perdi toda a minha lista de sites e blog e ainda não tive tempo de recuperar o layout original, vc já estava linkado lá e seria bom eu conseguir tempo pra isso, tem muitos amigos com blog angolanos muito interessantes, que vc também poderia visitar.
    abraços
    Conceição Oliveira

  7. Hélio, querido, sua visita em meu ‘barraco virtual’ é um prazer. Admiro muito o teu trabalho que passei a conhecer melhor via o Azenha.
    Quanto ao blog da História em Projetos, vc deve ter lido nos objetivos que ele é um espaço de trocas entre professores de história tanto para os que usam a minha coleção em co-autoria, quanto aos professores em geral. A idéia é fornecer atualização bibliográfica, cursos de interesse, dicas de filme e textos que possam enriquecer o trabalho e ao mesmo tempo dar visibilidade para os projetos bacanas que muitos professores desenvolvem e que nunca aparecem na mídia.
    Esse projeto do professor de Curitiba é bem bacana, discutimos um pouquinho sobre a proposta de ampliação e dei a minha contribuição no post onde publicizei o projeto de análise de discurso da mídia, sugerindo que ele incluísse os blogs que hoje fazem contra-pauta à mídia institucional.
    E vc entrou em contato com o povo de Angola que te falei?
    Grande abraço
    Conceição Oliveira

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