CLASSE MÉDIA GAÚCHA: PELEGUISMO E MONTARIA DO PODER

Porto Alegre foi, de 1988 até 2004, uma capital estadual reconhecida pelos esforços de gestão que resultaram em práticas efetivas em várias comunidades e em algumas tentativas que não surtiram muito efeito nos bairros mais abastados que buscavam um diálogo maior e um contato mais direto e menos mediado com a população mais carente.

Os mais pobres constituem a maioria do eleitorado e dos cidadãos. A vida social é mais saudável sempre que privilegia valores caríssimos como a sociabilidade, a conversação, o debate, o respeito, a tolerância e o afeto. No entanto, os valores impostos pela sociedade de consumo capitalista a partir dos métodos de alienação do trabalho e do pensamento praticados por Taylor e Ford e a pulverização do dinheiro e da propriedade em um regime de volatilidade e fluxo de bens simbólicos e materiais desumanizam a sociedade.

Dinheiro é necessário, evitar o desperdício é fundamental e, até o limite que não chega à ganância, ao egoísmo e ao excesso de acumulação para poucos que gera a exclusão da maioria, a competitividade é importante. Todavia, a prática nos mostra que o TER infelizmente significa muito mais do que SER.

Qual a diferença entre consumo e consumismo? O consumo é fundamental para a saúde da economia, gerando mais empregos, mais empreendedorismo honesto e gerando distribuição da riqueza através da produção e da diversididade. O consumismo, por sua vez, é o uso irracional e supérfluo do poder de compra que, na verdade, possui muito mais responsabilidade na bancarrota de empresas e famílias do que a carga tributária, o câmbio, o superávit primário ou a taxa de juros. Isso os economistas neoliberais e a mídia corporativa não explicam. E é a verdade na qual a classe média baliza o seu sonho de ascensão econômica e social, sempre corroborada pela mídia de massa, que precisa vender seus produtos e os produtos de seus financiadores apelando sempre para a emoção e não para a razão.

Dentre tantos outros motivos, tudo o que foi exposto desde o início deste texto até aqui explica por que a classe média midiotizada não compreende e não aceita que se deva priorizar as ações de infra-estrutura, energia elétrica, saneamento básico, abastecimento hídrico, acesso à alimentação e ao comércio popular regulamentado, assistência social, moradia, educação, saúde, segurança e desenvolvimento sustentável para aqueles que mais precisam: afinal de contas, eles nunca irão enxergar que a violência urbana, a sujeira, a ignorância, a doença sempre são impostas de cima para baixo.

Todo o medo que a classe média tem de perder as suas conquistas materiais para os pobres decorre da intolerância e da não-aceitação das diferenças. Fazem de conta que são solidários e que possuem compaixão quando, pelas costas, fazem piadas sexistas (loiras), racistas (negros) e estamentais (pobres). No Rio Grande do Sul, um estado que possui pouquíssimos indígenas e negros, essa realidade é exacerbada.

A classe média midiota não consegue compreender do alto das benesses que os ricos nos quais se espelham como exemplos de sucesso possuem é que mesmo os remediados têm dinheiro suficiente para investir em benfeitorias e em adendos particulares para os mesmos serviços básicos que o Estado deve proporcionar àqueles que estão na base da pirâmide social. Nossa pseudo-democracia e o egoísmo predominante na sociedade (até mesmo entre uma parcelao considerável pobres que emergiram recentemente para a classe média) é que tornaram o Brasil atual do jeito que ele é: os bárbaros vêm de cima, não de baixo.

Tais antecedentes explicam por que o RS é, hoje, apenas o 23º estado em desenvolvimento. Explicam por que todos os investimentos no porto de Rio Grande, na usina de Candiota, na duplicação da BR-101 e em todos os hospitais da rede pública de Porto Alegre são federais e não estaduais e tampouco municipais.

Felizmente, graças às políticas de inclusão social do Governo Lula (Bolsa Família, PAC, ProUni, política emergencial de cotas para negros. indígenas e pobres nas universidades e tantos outros programas), os resultados sociais de distribuição de renda e de uma ainda tênue porém continuada redução da violência e da criminalidade nas regiões Norte, Nordeste e Centro-Oeste do país têm sido bem maiores do que em governos anteriores.

No entanto, a RBS, a Record, a Band, o SBT, a Pampa, a Rede TV e a sucateada, dilapidada, desvalorizada TVE, através de suas centenas de emissoras e repetidoras de televisão, emissoras de rádio, jornais, revistas e portais na internet pouco ou quase nada fazem para apresentar essas realizações ao povo gaúcho.

A classe midiota confia cegamente na desinformação pasteurizada: afinal de contas, não precisa correr atrás de nada e acredita que houve investigação jornalística e que toda a “verdade” foi desnudada. Dessa forma, acredita-se que as intenções de Yeda Crusius e de José Fogaça são as melhores possíveis e que são voltadas para aqueles que mais precisam. Porém, as ações de ambos priorizam interesses de grandes grupos. A direita é, muito mais do que a esquerda, facilitadora da corrupção, da sonegação de impostos, da concentração de renda nas mãos de poucos e da criminalização e da intolerância de quem pensa e age no contrafluxo.

Os ricos, de bobos não têm nada. Os pobres votam de acordo com o bolso. Mas e a classe média?! Vota com quem?! Vota por que?! Quais são os seus interesses?! No que ela acredita?! O que é “bem” e “mal” para ela?! O que significa solidariedade para ela?! O que ela entende por bem comum, mais valia, liberdade de imprensa, política fundiária, educação cidadã, política, economia, infra-estrutura, direitos humanos, serviço social, jornalismo, publicidade, leis e organização institucional?!

O sociólogo Anthony Giddens tem um conceito chamado DESENCAIXE. A grande parcela conservadora, reacionária, racista, sexista e elitista da classe média gaúcha está desencaixada do atual contexto, pois a prática do cotidiano diverge completamente de seus valores cultuados pela piada do culto ao gauchismo (o maior engodo cultural do ocidente, facilmente desconstruído pela FIlosofia, pela História, pelas Ciências Sociais, pela Antropologia e pelas Ciências da Comunicação). Eles estão completamente perdidos, sem entender por que a sua opinião não reverbera mais como reverberava até poucos anos atrás influenciando seus motoristas, faxineiras, porteiros, empregadas, office boys e jardineiros.

A Psicologia tem um conceito chamado PROJEÇÃO. O modelo de sociedade ideal para os ricos possui  uma massa pobre acrítica e sempre dependentes deles, que precisa estar ciente de onde fica o seu “lugar”. Essa lógica de descarte de pessoas como se fossem mercadorias ou meros utilitários é repetida pela classe média alta, que também pode pagar, até determinado ponto, por serviços que ela não gostaria de exercer por considerá-los menos nobres. Então, a classe média gaúcha projeta suas próprias contradições nos pobres: se ela é ignorante, então quem estudou menos do que ela e mora na vila é que é ignorante; se ela é racista, então os negros são racistas sobre os brancos; se ela perde status e poder por incompetência, então ela passa a se considerar “pobre” mesmo estando vários degraus acima da pobreza, pois ela só sabe se comparar com os valores dos ricos.

A classe média despolitizada gaúcha não é inocente útil nas mãos dos ricos e nem tampouco é escrava da mídia corporativa: ela é condicionada por valores seculares naturalizados sob a forma de uma série de preconceitos e intolerâncias. Ela pende à direita porque acha que o que tem é muito mais valioso do que realmente é e parece mais desprotegido do que realmente o é.

No fundo, essa parcela da sociedade faz o jogo dos donos do poder não porque seja meramente influenciada por eles mas, sim, porque se vê à imagem e semelhança deles.

Se o RS decaiu tanto, a grande responsável é essa parcela conservadora da classe média: afinal de contas, os oligarcas não agem diretamente mas, sim, através de uma casta social que não possui a menor condição de suplantá-la mas que exerce um papel de contato e de controle mediado sobre as massas empobrecidas. Logo, a parcela predominantemente conservadora da classe média urbana gaúcha é a executora dos interesses oligárquicos.

Adoraria muito que os integrantes dessa camada da sociedade viessem debater civilizadamente, sem utilizar a desculpa de que pagam Imposto de Renda, de que o presidente da república não tem estudo, que política é tudo igual e tanto fez como tanto faz o partido, que vota na pessoa, que a mídia corporativa é que é a única, maior, melhor e mais verdadeira fonte de informação existente na humanidade.

Sinceramente, não conto muito com isso.

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4 comentários em “CLASSE MÉDIA GAÚCHA: PELEGUISMO E MONTARIA DO PODER
  1. Hélio Sassen Paz disse:

    Guillermo,

    Não é uma visão simplista. Há uma série de economistas honestos que não são neoliberais que afirmam categoricamente que todo e qualquer indivíduo que consegue acumular pelo menos um milhão de dólares limpos fora o seu patrimônio e vive de renda só o consegue através de lobby, tráfico de influência, corrupção e especulação no mercado financeiro.

    Não é o fato de estudar em escola pública ou particular que vai fazer com que uma pessoa tenha uma visão social mais ou menos abrangente. Contudo, em escolas particulares, as diferenças econômicas, de raça, religião, profissão dos pais e o ensino mais pasteurizado do que crítico e mais objetivo do que subjetivo, isto é, com vistas mais a fazer as criaturas passarem no vestibular do que efetivamente aprender e, sobretudo, GOSTAREM das matérias, serem mais criativas, mais críticas e mais solidárias inevitavelmente TENDE a discriminar e a hostilizar as diferenças sociais.

    Mesmo integrantes da classe média que jamais serão ricos passam a crer na pretensa honestidade e no modelo de desenvolvimento proposto de cima para baixo e, acima de tudo, em pensar a sociedade única e exclusivamente do ponto-de-vista da defesa dos interesses da sua própria classe em detrimento da maioria.

    As pessoas tendem a confundir fé com religião e ideologia com partidos ou com MODELOS de acumulação, de distribuição e de gestão de riquezas e da sociedade (comunismo, socialismo, capitalismo taylorista-fordista, capitalismo neoliberal, anarquismo, etc.), solidariedade pura com a esquerda e egoísmo puro com a direita. Isso porque não há escola nem mídia corporativa que traga informações balizadas, especializadas e complexas com a didática nem com o tempo necessário para que essa informação seja processada.

    De qualquer forma, agora, sim, utilizando-me de um argumento bastante simplista por falta de tempo e de material ora disponível para caracterizar o que é uma coisa e o que é outra coisa, a maioria dos “ismos” de sentido negativo (velados ou não) TENDE a ser de direita, ao passo que a maioria dos sufixos “ade” de sentido positivo TENDE a ser de esquerda.

    Por hora, era isso. Valeu a visita! ;)

    []’s,
    Hélio

  2. Guillermo disse:

    A situação dos emergentes é pior ainda, pois esses têm menos acesso às informações cruas.

    Eu fiz todo meu ensino em escolas particulares e em universidade particular e isso não me tornou pior que ninguém que alguém que estudou em entidades públicas de ensino.

    Essa visão simplista de que as classes da camada de cima são de direita e as classe abaixo são de esquerda não poderiam estar mais erradas (me surpreende você estar defendendo isso nos seus últimos posts). A situação aqui tem absolutamente nada com a discussão ideológica. O que ocorre é a mentalidade de querer se levar vantagem com a situação atual. Ou seja, ricos que querem continuar ficando cada vez mais ricos e pobres que acreditam que estão levando vantagem com as migalhas jogadas pelas classes melhor providas não importando quem está no comando contanto que se mantenha as coisas como estão. Qualquer iniciativa de se mudar o foco para um bem comum é combatida, pois não é de interesse desses.

    Abraço e DÁ-LHE GRÊMIO!!!

  3. Hélio Sassen Paz disse:

    Miguel,

    De acordo com o relato que recebi e com minhas observações a respeito dos jovens universitários de classe média e alta também em formaturas de jovens conhecidos, a coisa tá feia…

    Eu aposto no poder dos emergentes.

    []’s,
    Hélio

  4. MIGUEL GRAZZIOTIN disse:

    Concordo plenamente.
    Tenho uma tênue esperança de que os filhos, ou talvez os filhos dos filhos desta parcela da populaçao, via internet possa se modificar ao menos um pouco. Mas nao sei quanto desta esperanaç [e puramente desejo…
    Um abraço

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