ARENA: DÚVIDAS ATUAIS

Em princípio, como vocês podem lembrar, eu era totalmente contra a construção da Arena do Grêmio. Depois, tive contato com opiniões técnicas balizadas que me fizeram crer que é uma necessidade econômica, porém o modelo de financiamento e de gestão preferido pela situação (entregar a área do Olímpico – muito mais valiosa do que no Humaitá – e o controle de pelo menos 50% do faturamento do complexo nas mãos do empreendedor durante 20 anos) parece inconfiável.

Além disso, as manobras dentro do Conselho Deliberativo feitas em 2006 e 2007 antes da troca do seu presidente (atualmente é o advogado Raul Régis de Freitas Lima, de quem particularmente gosto muito) não foram nada democráticas.

Não soubemos nada a respeito de outras propostas oferecidas que devem ter sido descartadas – e tampouco sabemos por que foram descartadas. Ao mesmo tempo, quem definiu os critérios e quais foram os critérios para a opção pela concorrência exclusivamente entre as empresas Norberto Odebrecht e TBA/OAS?! Tais critérios não deveriam ter sido aprovados pelo Conselho Deliberativo?

Há ainda outra informação que recebi de um amigo confiável, mas que é preciso checá-la primeiro. Nesse ponto, peço a colaboração de outros blogueiros que possuam um conhecimento mais profundo e um contato mais direto com a vida tricolor do que eu: disseram-me que, na verdade, não seria necessariamente uma concorrência completa, pois a construtora portuguesa OAS é parceira da Odebrecht em outros negócios. Procede?

Observemos também a movimentação dos conselheiros: segundo o noticiário da mídia corporativa gaúcha, a data da reunião do CD cujo objetivo será definir quem irá levantar o complexo comercial e o estádio está sendo adiada desde dezembro de 2007. Já houve pelo menos cinco datas sugeridas. Houve várias justificativas para os sucessivos adiamentos (não necessariamente nesta ordem):

a) Esperar um pouco mais pela adaptação do projeto da TBA/OAS para o Humaitá (eliminando de vez a hipótese de manter a Arena na Azenha);

b) Dar um prazo maior para a Odebrecht alterar a sua proposta de arrendamento e de divisão dos lucros com o clube, pois a TBA/OAS emergiu de provável derrotada (caso mantivesse sua proposta para substituição do Olímpico Monumental no mesmo lugar) para favorita, por ter dado um percentual maior de faturamento ao GRÊMIO nos primeiros 20 anos a partir da conclusão da obra;

c) O presidente do CD, poderadamente, preferiu esperar que um número realmente expressivo de conselheiros passasse lá para conhecer as propostas. Apesar do alargamento do prazo, aproximadamente 2/3 dos conselheiros não fizeram questão de conhecer o projeto.

Como associado, quero me ater ao terceiro motivo para o adiamento da escolha em especial. Gostaria muito que conselheiros e ex-conselheiros com contato freqüente dentro da política do clube me ajudassem a esclarecer uma série de dúvidas, abaixo listadas:

1) Considero que todo conselheiro, ao ser eleito, assume automaticamente o compromisso de representar o associado nas decisões financeiras, patrimoniais e organizacionais, visando tornar o clube maior e melhor dentro e fora de campo. Sendo assim, independentemente dos compromissos profissionais e das férias de verão, como a documentação a respeito das duas propostas estava disponível para todos na secretaria do Conselho Deliberativo, quem não apareceu foi porque não quis. Certo?

2) Quais os motivos do desinteresse? Irresponsabilidade? Preguiça? Tanto fez como tanto faz, pois o vice-presidente de Planejamento (executivo responsável pelos contatos com as empresas e pela formatação do projeto) e o presidente do clube já haviam apresentado um resumo diante de seus pares? Porque os ausentes consideraram as informações recebidas através dessa apresentação resumida, do disse-me-disse junto a outros conselheiros cientes das decisões nos quais confiam ou de informações recebidas através da mídia suficientes?! Outra possibilidade seria uma insatisfação com o modelo de negócio escolhido ou com a impossibilidade de que a Arena seja erguida na própria área do Olímpico, configurando omissão por considerarem-se como votos vencidos? Ou, ainda, resignação com a irreversibilidade da possibilidade de tudo ter sido um jogo de cartas marcadas?

Sem ofensas, provocações, denúncias e nem sequer acusações, é fato que a representatividade dentro do Conselho Deliberativo – a despeito das pequenas conquistas como a reforma do estatuto que proporcionou o voto direto para presidente por parte do associado em 2º turno e da diminuição da cláusula de barreira contra aventureiros (que pode aumentar ainda mais sem riscos para o clube) – mesmo que tenha admitido nas duas últimas eleições para o CD diversos associados que são profissionais liberais ou funcionários públicos de classe média que não pertencem às tradicionais famílias que sempre estiveram dentro do clube desde a sua fundação estabelecendo um feudo ou uma oligarquia, ainda há um enorme poder nas mãos dos chamados “de sempre”.

Obviamente, seria uma grande ingenuidade interromper as relações sociais e profissionais de cada conselheiro de forma que não houvesse nenhuma interferência político-partidária, classista ou de parcerias empresariais dentro do clube. Como não se trata formalmente nem de uma empresa privada, nem de um órgão governamental e tampouco de entidade filantrópica, a legislação para essa categoria especial representada por clubes e por entidades de natureza semelhante não obriga a divulgar todas as suas ações de fluxo de caixa. Afinal de contas, associado não é acionista. Contudo, por uma questão de transparência e ética, preferia que as decisões fossem informadas não através do desencontro de boatos e de meias-verdades divulgado pela imprensa ou apenas pelo demonstrativo anual de resultados.

Porém, mesmo entre alguns grupos de conselheiros recentes, embora não sejam necessariamente parentes, funcionários ou colega de trabalho de dirigentes das oligarquias tradicionais, existe a formação de um núcleo com a mesma natureza daqueles a quem tanto criticaram por causa da centralização, da incompetência, do autoritarismo. Estabelece-se aí um paradoxo: mesmo que não haja facções polarizadas e que o interesse de todos deva ser o interesse do GRÊMIO em primeiro lugar, surgem quase de maneira natural algumas composições políticas cujo perfil é contraditório, tendo em vista que, seja para presidente, seja para o Conselho, havia até bem pouco tempo divergências seriíssimas em termos de objetivos e de modelo de gestão.

Imitando os partidos políticos, alguns grupos de novos conselheiros realizam alianças aparentemente incoerentes com setores situacionistas da oligarquia. Por um lado, compreende-se tal manobra rumo à busca de visibilidade e de um acesso mínimo ao poder através da chance de demonstrar serviço pelo clube. Aos poucos, eles obtêm um resultado positivo para a sua facção, que é trazer alguma inovação e serem reconhecidos pela mídia, galgando capital simbólico (poder) dentro do clube.

Notem bem: isso não configura nenhuma espécie de desonestidade ou injustiça. Mas até que ponto os fins justificam os meios?! Afinal de contas, assim como foram aceitos por um grupo supostamente antagônico e mais poderoso, poderão ser chutados mais adiante. Tal maneira de mostrar serviço mostra que esses novos conselheiros são tão conservadores quanto os tradicionais e almejam formar uma nova oligarquia quando estiverem velhos.

Embora não seja proibido, há muita política partidária como um elo de afinidade entre conselheiros que participam diretamente da administração atual do clube. Bem ou mal, apesar de algumas inovações, o modelo de pensamento vigente sobre quem eles são e como querem trabalhar pelo GRÊMIO se mantém constante, devido ao fato de que a classe social, a profissão e os contatos políticos e empresariais seguem a mesma matiz ideológica, sem espaço para um pensamento divergente.

Isso influi tanto em algumas demonstrações de autoritarismo, de falta de transparência e de ausência de debate como no modelo de gestão, que pretende afastar o torcedor de classe média baixa e de classe baixa do estádio, dando direitos apenas a quem tem dinheiro para consumir uma ampla gama de produtos comerciais que o clube pretende oferecer a partir da inauguração da Arena.

Em poucas palavras, torcer no estádio será um privilégio de muito poucos, quando sabemos que poderia ser diferente, mesmo com a Arena e com objetivos claramente lucrativos. Falarei sobre isso mais adiante.

Blogged with the Flock Browser

Tags: , , , , , , , , , , , , , , , , , ,

Anúncios
Sobre

Prof. M.S. @heliopaz | @unisinos | @comdig | @agexcom | @jetunisinos | @cultdigitalunis | @gremiosempre | http://bitly.com/tNhPU3

Marcado com:
Publicado em Sem categoria
8 comentários em “ARENA: DÚVIDAS ATUAIS
  1. Marcos Almeida disse:

    Independente das questões contratuais, procedimentos para a escolha da construtura, etc… me parece que a opção por um novo estádio é a mais acertada. Gostaria de abrir uma discussão a respeito da transferência dos sócios. Como ficam os atuais sócios patrimoniais, que pagam apenas mensalidade para assistir aos jogos? O contrato atual é com o Grêmio, e a Arena será da Grêmio Empreendimentos. Meu título patrimonial é de 1966, pertencia ao meu pai, estive no quadro social por duas vezes solicitando cópia do contrato e/ou título e só obtive negativas “está no arquivo morto”, não existe mais”etc. Os sócios Patrimoniais teriam algum direito sobre a área da Azenha?

  2. Hélio Sassen Paz disse:

    Guilherme,

    Obrigado pelo comentário e pela audiência. Só não entendi uma coisa: vou me retratar de que?! Opinião não é acusação. E eu apenas relatei o que um novo conselheiro havia falado, do alto de sua experiência profissional.

    De qualquer forma, ainda estou muito preocupado, pois não creio que um empreendimento desse porte vá permitir que o torcedor de classe média continue podendo freqüentar o estádio.

    Eu não vejo nem como um “mal” nem como um “bem” para o clube. O que eu tenho medo é de um prejuízo ou de que o Grêmio deixe de ser dono do Grêmio.

    []’s,
    Hélio

  3. Guilherme disse:

    aonde está o post deste link http://blackao.wordpress.com/2007/09/27/arena-com-odone-e-chapa-1-empreendimento-sob-suspeita/ ?

    afinal, ela não era uma farsa? tenho seu texto guardado.

    retrata-se

  4. Maria disse:

    Adriano

    O problema é que elas terceirizam várias etapas e perdem o controle sobre prazos,preços e qualidades dos serviços.A terceirização é um tiro no pé e nos empurram produtos e serviços que afetam nossa segurança.
    Olha a questão da carne.Aqui no RS não sabem criar gado.O que não entra na Europa vai ser ofertado aqui,Não sabemos nem a que tipo de risco que estamos sendo expostos.Só uma minoria consegue produzir dentro de padrões técnicos aceitáveis.

  5. Adriano disse:

    Hélio, eu ouvi também que as empresas são parceiras em outros projetos, mas não vejo isso como problema, aliás, isso é bem comum hoje em dia, visto que o mercado de construção civil é bem pulverizado, nenhuma empresa tem mais de 8% do mercado pelo que vi no noticiário.

    Abraço!

  6. Maria disse:

    Oi Hélio e demais gremistas

    As empreiteras atuam cartelizadas.A Odebrecht,por meio de sua subsidiária CBPO(Companhia Brasileira de Projetos é Obras),é lider do consórcio responsável pela construção da linha 4-amarela do metrô de São Paulo.O consórcio é formado pelas empresas:OAS,Queiroz Galvão,Camargo Correa e Andrade Gutierrez..Lembram da cratera gigante no acidente ocorrido no ano passado?
    A OAS ;em 2006,elegeu em São Paulo uma expressiva bancada,na Assembleia Legislativa.Vai cobrar um preço na hora certa.Não tem janta de graça,
    João eu acho sensata esta proposta.

  7. Bruno Gremista disse:

    Brilhante a sua análise Hélio. Eu sou favorável à construção da Arena no bairro Humaitá, mas devo admitir que há muita coisa mal explicada. Como o porquê da reformulação do Olímpico ser inviável, enquanto a do Beira-Rio ser possível; se houve outros consórcios interessados na Arena, além da Odebrecht e TBZ-OAS e por qual razão somente essas duas estão no páreo; por que o conselho deliberativo já adiou tantas e tantas vezes a data de votação e por que a demora dos conselheiros em observarem as propostas, já que isso deveria ser obrigação deles, pois eles deveriam defender os interesses da torcida do Imortal. E já fiz um comentário sucinto, sobre essa questão dos preços da Arena, que é uma tática burra, se for implementada na Arena. Valeu irmão gremista. Saudações.

  8. João disse:

    Gostaria de ler tua opinião sobre a proposta abaixo. Já te antecipo que me parece o único caminho para ter uma conclusão realmente confiável com a análise dos pontos fortes e fracos e a metodologia da construção de cenários

    Propostas para a arena
    Publicado em http://www.gremiosempre.com.br/
    19.12.07 SUGESTÕES QUE BUSCAM A VIABILIZAÇÃO DO PROJETO ARENA
    Os Conselheiros do Grêmio Foot-Ball Porto Alegrense abaixo identificados, após exame da documentação disponibilizada pelo Conselho de Administração do Clube acerca do Tema ARENA GRÊMIO, vêm, respeitosamente, encaminhar algumas considerações e sugestões que buscam a viabilização do Projeto ARENA, salientando que, preliminarmente, todos os signatários são favoráveis ao empreendimento.
    CONSIDERANDO QUE:
    (…) 4)A opção entre os dois projetos Arena será vital para o futuro do Grêmio;
    5)A decisão não poderá ser presidida por simples emoção, simpatia, ou motivos secundários;
    6)As etapas de desenvolvimento do Projeto Arena Grêmio devem obedecer a critérios técnicos consagrados e atender valores de transparência e respeito ao torcedor gremista;
    7)As ações implementadas pelo Conselho de Administração sobre o Projeto Arena, até o presente momento, atendem aos princípios e valores constantes no Planejamento Estratégico do Clube, especialmente, no que se refere à busca pela excelência de gestão e a satisfação do universo de torcedores;
    PROPÕE-SE:
    1) Como forma de garantir total equilíbrio nas várias etapas de negociação, em especial, quanto aos detalhamentos minuciosos das propostas e buscando a segurança dos Conselheiros do Clube no momento de votar, tal qual foi o procedimento adotado quando do estudo prévio e da análise jurídica, a contratação, pelo Conselho Deliberativo, de empresa de consultoria externa especializada (p.ex. um Banco de Investimento), isenta e independente, para que, obedecendo à metodologia técnico-científica pertinente, avalie pontos fortes, pontos fracos, ameaças e oportunidades com avaliação de cenários das propostas apresentadas para construção da Arena Grêmio e emita diagnóstico técnico-conclusivo;
    2) Solução da Dívida: na medida em que a dívida do Clube passa a representar, percentualmente, um valor pequeno no âmbito da obra total sugere-se, também, sua inclusão no pacote de negociações;
    Obs. não se divulgam os consideranda de 1) a 3) para não correr o risco de violar cláusula de confidencialidade.
    PENSE ANTECIPADO. PENSE GRÊMIO. SEMPRE!

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

page views
  • 309,034 (d. 12/05/2006)
Free hit counter estatísticas heliopaz.wordpress
comentários
Suzimary em PIRÂMIDE DO CAPITALISMO (…
Ivo Antônio Barra em E-MAILS DOS MINISTROS DO …
maison pereira lima em E-MAILS DOS MINISTROS DO …
Francisco Reginaldo… em E-MAILS DOS MINISTROS DO …
Francisco Reginaldo… em E-MAILS DOS MINISTROS DO …
%d blogueiros gostam disto: