PROFISSÕES, VIZINHANÇA, ENSINO E INFLUÊNCIAS

Em relação à entrada de hoje do Guga Türck no ALMA DA GERAL sobre o capitalismo, pensei rapidamente com meus botões em relação ao modus operandi pós-fordismo-taylorismo neoliberal em rede:

Só rindo pra não chorar: convido a todos os leitores a assistirem ao filme A CORPORAÇÃO que o Rodrigo Cardia postou no CÃO UIVADOR e também a UMA VERDADE INCONVENIENTE, com o ex-vice presidente democrata (gestão Clinton) Al Gore (trechos aqui e aqui).

Tenho um colega de mestrado que se considera de “centro”, professor do MBA em Marketing da ESPM que diz que o problema da corrupção, da impunidade, do desperdício, da ineficiência na saúde e na educação é tudo questão de gestão. Então, ele propõe que só se utilize técnicos competentes, formados, pós-graduados, poliglotas em todas as áreas, cujo objetivo seja sempre o de gastar cada vez menos lucrando cada vez mais e reinvestindo esse lucro em infra-estrutura e treinamento. Sem CCs, sem gente de partido, sem contratar mais funcionários do que o necessário para executar a tarefa bem feita e sem pagar um salário de fome, mas também sem um pagamento nababesco, pagando bônus por produtividade, premiando por inovação, etc.

Só que ele se esquece do seguinte: como é que várias instâncias públicas irão andar sem pessoas de confiança dos eleitos para o executivo? Como exigir zilhões de técnicos hiperqualificados se há centenas de municípios onde GERAÇÕES de prefeitos e vereadores não possuem sequer o ensino médio?!

Eu disse a ele que marketing e administração são estratégias de controle econômico, financeiro, laboral e mercadológico de direita.

Aí, ele retrucou dizendo que não existe técnica de esquerda ou de direita: quem define se o direcionamento será mais à esquerda ou mais à direita são os executivos e a pressão que for mais forte (empresários ou povo). Se – e somente se – partir única e exclusivamente para o lado da técnica, aí, sim, hei de concordar com ele.

Porém, mesmo sem envolver política partidária nem sem conhecer teorias sociológicas, a esmagadora maioria dos professores universitários nas áreas de Administração, Economia, Direito e afins são conservadores e vieram das camadas mais ricas da sociedade.

Se ser professor é uma atividade política (mesmo que não seja partidária nem ideológica – e é importante que não seja pois, do contrário, mesmo mantendo minhas convicções sem jamais me omitir ou me amedrontar, é extremamente complicado ser contratado por uma universidade que aceite numa boa a militância), ao estimular e obedecer a lógica da empregabilidade através de uma cartilha imposta por um “mercado” cujo ideal é sempre o de impor normas rígidas de comportamento e de procedimento ao mesmo tempo em que mente (ou acredita piamente) sobre liberdade, autonomia e democracia, então o pensamento único que eles contam aos alunos é uma forma de criar não indivíduos autônomos na sua forma de pensar e agir em relação ao trabalho mas, sim, em pré-determinar as suas escolhas.

Nesse ponto, volto à questão de que a classe média emergente torna-se conservadora rapidinho: conheço uma moça extremamente querida, doce, carinhosa, altamente solidária que lidera trabalhos de doação e brincadeiras com a comunidade mais miserável de Porto Alegre, a da Ilha dos Marinheiros. Ela estuda Turismo na FARGS. Pois mesmo vindo de onde veio e fazendo o trabalho social que faz, votou Yeda.

Então, como é que eu vou ser otimista em relação às possibilidades de Rossetto ser eleito prefeito e de alguém da esquerda ser eleito governador em 2010?!

Essa construção de identidade e do tipo de escolha política que se faz, como se vê, possui muito mais focos de influência (situação financeira, higiene, infra estrutura e beleza física dos vizinhos, dos coleguinhas de escola, faculdade, profissão) do que meramente dizer que o que prevalece é a verborragia do pensamento único da mídia corporativa.

O pensamento único é o que a maioria das pessoas prefere porque é mais fácil viver sem ter que pensar.

O desafio é, portanto, desconstruir o não-pensar, o não-refletir e a via única.

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2 comentários em “PROFISSÕES, VIZINHANÇA, ENSINO E INFLUÊNCIAS
  1. Hélio Sassen Paz disse:

    RODRIGO,

    Também penso da mesma forma. Tenho quase 35 anos e sou muito criticado pela família e pelos amigos de infância por não ter dado continuidade em nenhuma empresa, por não ter tido a capacidade de engolir sapos para mostrar que sou útil, tornar-me conhecido e enriquecer meu currículo.

    Perdi namoradas (hoje, felizmente, tenho plena consciência de que não me amavam o suficiente e que, mesmo que tivesse dinheiro, fama e casa própria minha vida com cada uma delas teria sido um porre) e deixei de conviver com vários amigos que considero como irmãos não por brigas ou divergências ideológicas mas, sim, porque a opção deles por freqüentar restaurantes caros, seguir conselhos de clientes e de conhecidos que são empresários ditos de sucesso e pelo total esquecimento e despreocupação em relação àquilo que mais defendiam (assim como nós) criou um obstáculo entre nós.

    Demorei muito e ainda tenho um logo caminho pela frente. Confesso sentir certa vergonha por ainda ter que depender de casa, comida e roupa lavada da minha mãe. Aliás, mesmo que cada um tenha sua profissão, seus filhos, seus amigos e suas próprias casas pra cuidar, eles fizeram a opção conservadora e 100% submissa ao sistema e todos estão ferrados, já beirando os 50 anos.

    A minha escolha é por crescer sempre, aprender sempre e me misturar com todos, sem exceção – muito embora sinta-me intimidade e pouco à vontade entre quem tem muito dinheiro e não pretenda atingir o padrão de vida deles da mesma forma.

    []’s,
    Hélio

  2. Hélio, citaste o exemplo de uma amiga tua, e eu também tenho um caso semelhante. Uma amiga minha, bastante envolvida em projetos sociais, mas que em 2004 votou Fogaça por causa da “burocracia do PT” e também porque “as ruas da cidade estavam esburacadas” e ficava ruim para ela andar com o carro dela.
    Tem também meus ex-colegas de 2º grau, que tem boa formação, cultura, mas são “anti-PT”. Tem um deles que era petista até demais (bem mais do que eu era), e hoje tornou-se extremamente reacionário, acha que “bandido bom é bandido morto”, dentre outras coisas. Há outros ex-colegas que eram PT e hoje só votam em Rigottos, Yedas e Fogaças da vida.
    Em comum entre eles, o fato de estarem “com a vida definida” ou em vias disso. Estão formados, trabalhando, pensando em constituir família (ou com ela já constituída) etc. Satisfeitos com a vida que levam, deixaram de sonhar com grandes mudanças, tornaram-se conservadores.
    Sinceramente, se o preço do “amadurecimento” for virar um conservador raivoso, quero ser “imaturo” a vida inteira. :D

    Abraços

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