MEDIAÇÃO, EDIÇÃO, VERDADE E FORÇA

O blogueiro descompromissado e o leitor eventual precisam saber que o jornalismo possui técnicas e práticas que determinam o caráter de uma notícia ou opinião a partir de uma linguagem compreensível para a maioria das pessoas que, normalmente, são leigas em relação ao assunto tratado por qualquer matéria. Por exemplo: quando se fala sobre alguma demanda política, descoberta científica ou quando se demonstra um determinado procedimento da medicina, a função da Comunicação Social (Jornalismo, Propaganda e Publicidade, Relações Públicas, Radialismo e Televisão, Cinema, Produção Editorial e Comunicação Digital) é a de traduzir a linguagem técnica (jargões, gírias, etc.) dos médicos para que a população leitora e consumidora de notícias compreenda a informação publicada sob forma de texto escrito sobre um determinado suporte (jornal, revista, panfleto, internet, livro, anúncio, outdoor, etc.), narrada (rádio, internet ou evento) e/ou imagética (imagens estáticas e em movimento com ou sem som – televisão, cinema, internet, livros, revistas, anúncios, etc.).Nenhuma informação divulgada é neutra. Primeiro, porque o emissor da mensagem possui a sua própria visão de mundo, moldada a partir da sua rede social (família, vizinhos de todos os lugares onde morou, colegas de todos os lugares onde estudou e trabalhou, eventuais contatos presenciais ou virtuais que fizeram alguma diferença e fizeram com que acumulasse algum conhecimento relevante). Segundo, porque independentemente das suas crenças (ideologia, religião, paixões, ódios, concordâncias, discordâncias e ponderações), normalmente precisa defender os interesses de quem sustenta o seu emprego. Dessa forma, seja por vontade própria, por indução, por ameaça ou simplesmente em função do hábito adquirido de proceder sempre da mesma forma na hora de fazer da técnica um produto concreto, o jornalista emite juízos de valor que constroem e moldam a opinião de quem compra aquilo que disseram, fotografaram, gravaram/filmaram e/ou escreveram.Como há uma informação bruta que, em função do tempo ou do espaço disponível pode ser publicada (entrevista, consulta a livros ou a jornais e a gravações de filmes, programas, novelas, noticiários, documentários, etc.), há um processo de corte e de arranjo de informações que, na nova escrita, recebe o nome de EDIÇÃO: a edição é uma mediação, isto é, a transformação do material de referência (fonte da informação) a ser processado em uma ação feita por um mediador (o editor e/ou o repórter), que define tudo o que entra e tudo o que não entra na notícia. O processo de edição é subjetivo: ele permite a mudança da ordem de falas e imagens, descontextualizando-as de sua origem e alterando o seu sentido, de tal forma que a descontextualização da natureza bruta transforma-se em um novo contexto, onde aquilo que tinha uma determinada simbologia, isto é, que remetia a lembrança de quem assistiu ou vivenciou a situação não-editada a n significados, depois da edição passa a apresentar novos significados, agora construídos por um terceiro.Todos nós editamos a informação que queremos transmitir. Afinal de contas, pretendemos ser compreendidos e queremos levar o leitor a pensar a respeito daquilo que escrevemos em nossos blogs. Todo e qualquer diálogo, todo e qualquer debate, toda e qualquer conversação seriam absolutamente impossíveis de ocorrer de maneira inteligível caso não houvesse edição.Assim como as corporações de mídia tão criticadas, contestadas, corrigidas e naturalmente desacreditadas em muitos aspectos da sua agenda em função do pensamento único e de defenderem, na política e na economia, os interesses de seus anunciantes acima de tudo, nós também temos uma ideologia, uma visão de mundo, um posicionamento. Acreditamos e desacreditamos; valorizamos e desvalorizamos; incentivamos a relevância e excluímos a irrelevância em relação às nossas crenças e valores individuais e coletivos; denunciamos ou assinamos embaixo quando concordamos.Portanto, a verdade em si não existe, pois ela é a construção que fazemos em nossas mentes a partir das informações que vamos acumulando através de nossos cinco sentidos, daquilo que vivenciamos e daquilo que dizem a nós. Todas as pessoas possuem livre arbítrio, experiência e conhecimento em níveis variados a respeito de qualquer assunto e acreditam ou deixam de acreditar, agem ou deixam os outros agirem por si em função do caldo de referências que acumulam desde o seu nascimento até a sua morte.A verdade é, a meu ver, uma forma de advogar em causa própria: afinal de contas, todo ser humano mentalmente saudável, sem exceção, só consegue dar sentido à sua própria vida mediando vivências, historicidades e sociabilidades. A construção da realidade é tarefa exclusivamente pessoal e intransferível. Quem não defende seus próprios interesses não possui motivação para viver. Todo mundo omite o que não interessa e supervaloriza aquilo que interessa.No caso do jornalismo, não necessariamente aquilo que interessa ao dono, ao chefe ou a quem banca o dono dos meios de produção interessa ou faz parte das crenças do redator ou do editor, mas ele executa profissionalmente aquela tarefa técnica para a qual se preparou. Normalmente, onde a rede social é mais concentrada, também existe mais dinheiro, melhores salários, maior infra-estrutura e maiores possibilidades de promoção e de aspirações pessoais (conhecer pessoas influentes, viajar, obter mais rápida e facilmente subsídios para suas histórias, melhorar a sua escrita, evoluir intelectualmente, aprender novas técnicas e por aí afora). A marca da empresa de mídia torna-se referência profissional, fazendo com que jovens encontrem nessas corporações a sua melhor, maior ou até mesmo única forma de obter sucesso profissional.Seja de maneira ética e honesta ou de maneira anti-ética e desonesta, grande parte dos jornalistas que escolhem o caminho da mídia corporativa admiram e temem o poder da rede social engendrada por elas, ao redor delas e também da qual fazem parte. Sentem que é fundamental fazerem parte desse círculo de poder político, financeiro e simbólico, pois isso lhes dá acesso a uma instância de poder a qual almejam ambiciosa e/ou ganaciosamente ou, por outro lado, que precisam conhecer para não saírem prejudicados e também para aprenderem a fazer diferente em uma instância alheia.A força do jornalismo corporativo está no gigantismo, na grandiosidade, na grandiloqüência, no alcance do seu discurso e na qualidade do seu enunciado. Mesmo que saibamos quem, como, aonde, até que ponto e por que ela representa ou deixa de representar, não podemos ignorá-la nem tampouco calá-la: o que podemos fazer é denunciarmos, através do lado da moeda no qual acreditamos, de maneira descentralizada, justa, honesta, ética e bem-informada a verdade que fica opaca naquilo que a edição das corporações descartou, escondeu, desvalorizou, omitiu, perdeu.A agilidade dos blogs alternativos está na descentralização (cada blog define sua própria pauta), na independência financeira, de chefias e de lideranças e, acima de tudo, na possibilidade de sermos lidos e produzirmos diferença social através de nossas informações.Nem todo mundo acredita ou duvida cega ou conscientemente tanto dos blogs, das rádios comunitárias, dos jornais e podcasts alternativos, assim como nem todo mundo duvida ou acredita piamente nas notícias e opiniões quase uníssonas da mídia corporativa: o repertório individual de informações acumuladas é incessante e todos podem mudar de opinião à medida que fatos novos façam com que se acredite ou se deixe de acreditar em algo. Afinal de contas, nada é para sempre.Que isso sirva de estímulo e de conscientização. Reflita. Pondere. Não acredite piamente em tudo o que você lê, ouve, assiste, vê ou escreve. Confira. Cheque. Informe-se através de fontes diferentes. Confronte. Debata. Notícia não é informação. A verdade do seu pai, do seu chefe, do seu vizinho, da sua igreja, da sua faculdade, não precisa ser a sua verdade. Pese. Meça. Avalie. Multiplique o conhecimento. Gere conhecimento. Compartilhe conhecimento. Informação gera diferença. Através da diferença, constrói-se uma sociedade diferente a partir do crescimento de posições e opiniões. Não tenha medo. Participe mais. Aja. Reaja. Sempre sem violência, sem covardia, sem mentir. Mas faça com que a razão prevaleça sobre a emoção.A maior transformação que você pode fazer na sociedade começa pela transformação de si mesmo. Portanto, não ignore nada nem ninguém. Não menospreze nada nem ninguém. Expanda a sua capacidade de surpreender e de ser surpreendido evitando a previsibilidade e o conforto das ações conhecidas e repetitivas. Insira elementos diferentes na sua rotina.

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