ESTRAGOS NA EDUCAÇÃO SE REFLETEM NA ATUALIDADE

Uma resposta pública ao comentário que o amigo Miguel Grazziotin fez sobre a entrada anterior:O que eu aprendi recentemente (resultado de pesquisas de acadêmicos sérios e muito experientes, de renome internacional no campo da Comunicação, que não vendem seus trabalhos para a iniciativa privada) foi a maior suscetibilidade ao discurso dos patrocinadores da mídia corporativa de quem pode pagar pra ler um jornal ou uma revista.Logo, os blogs, embora ainda poucos e extremamente conhecidos quase que exclusivamente apenas entre as pessoas de esquerda e também pelo monitoramento constante dos patrulheiros da mídia corporativa incomodados com a nossa liberdade, podem, em um futuro próximo, começar a surtir efeito na nova classe média emergente.Os leitores com décadas de consumo de jornais da mídia corporativa considero pelo menos 95% sem volta. É o mesmo que uma criança subnutrida, violentada e/ou criada na rua: o grosso da personalidade e do desenvolvimento mental ocorrem até os sete anos. Se não chegar até aí com saúde física, mental e emocional minimamente aceitáveis, sua afetividade, seu controle da agressividade, sua capacidade crítica, analítica, reflexiva e o seu senso de ética e de valores estará irreversivelmente comprometido. Como veremos abaixo, as camadas superiores da população orquestraram a exclusão social tendo a classe média como apoio e como instrumento de seus objetivos. Todavia, não previam que precisassem de mão-de-obra qualificada e acharam que as ruas seriam sempre tranqüilas e pacíficas.A esmagadora maioria dos adultos de classe ABC na faixa dos 40-55 anos que não foram pobres durante os anos de chumbo foi decisivamente influenciada não apenas pela mídia pelega: o pior de tudo, na minha opinião, foi o processo pedagógico baseado no medo, no reacionarismo, em um sentido falso de patriotismo e na eliminação das ferramentas de ensino responsáveis pelo pensamento crítico, analítico e associativo durante toda a década de 1970.As turmas nas faculdades eram diferentes em todas as cadeiras, a fim de reduzir ao máximo o espírito de grupo, de colaboração e de engajamento. Havia dedos-duros em todas as turmas, generosamente pagos pelo antigo SNI (Serviço Nacional de Informações – minha irmã teve um vizinho que parecia ‘muito gente boa’, casado com uma esposa pacata e com duas lindas filhinhas, mas que eu podia perceber pelo olhar que ele era muito observador, embora não conversasse sobre política – certamente deve ter sido cachorro ou secreta). O ensino de HIstória passou a meramente exaltar o patriotismo de figuras brasileiras que guerrearam contra países vizinhos orquestrados pela Inglaterra, resultando na perda da memória a partir da não-capacidade de entender o presente e prever o futuro a partir do conhecimento sobre o passado; a Filosofia foi eliminada do currículo, reduzindo a capacidade de pensar.Enfim, a omissão de fatos e a sublimação dos espíritos analítico, crítico, historicista e coletivo trouxeram exatamente o resultado que eles queriam: a despolitização, o individualismo e o fazer sem pensar através da mera obediência e repetição.De maneira geral, todos esses graves danos também tiveram um resultado arrasador para a cidadania nas gerações seguintes (a minha, na faixa dos 35 anos, e a de meus sobrinhos mais velhos, na faixa dos 20): o individualismo e o consumismo se exacerbaram, pois dinheiro chama dinheiro e as pessoas de posses acabam convivendo cada vez menos com os despossuídos. Logo, o abismo, a diferença, a separação, o sentimento de “elite” foi sendo ampliado.Paralelamente, vivenciei, como estudante de colégio estadual durante todo o 1º grau, sucessivas greves de professores, cujos salários eram achatados ano após ano desde meados da década de 1970. EM 1982, ainda durante a ditadura, não houve greve, mas a mãe de uma colega que era engajada no CPERS chamava o governador nomeado pelos militares Amaral de Souza de “Anão Perverso”. Em 1986 ou 1987, no Governo Simon, com Iara Wortmann de secretária da Educação, os professores viveram o maior arrocho salarial da história do magistério.Collares pouco fez e sua esposa Neusa Canabarro fez valer o “calendário rotativo”- um pesadelo para a convivência em família nas férias de verão, em uma medida completamente desnecessária tanto do ponto-de-vista financeiro quanto pedagógico.Olívio pegou o Estado quebrado e não pôde dar o aumento nem investir como gostaria em infra-estrutura (escolas, sala de aula, informatização, equipamento de áudio e vídeo e segurança).Rigotto pegou anos de relativa paz, apesar das reivindicações consantes do CPERS. Todavia, isso só ocorreu porque os professores finalmente puderam confiar que não havia dinheiro em caixa. E, bem ou mal, o governador do mandato anterior ao atual ao menos foi educado e não se esquivou muito das reuniões com os professores.Agora, a situação é outra: os professores, o ensino público, os alunos e os pais estão sendo tratados como insignificantes, com escárnio. O trabalho é absolutamente anti-pedagógico.O ensino da Língua Portuguesa já é fraco; a carga horária é insuficiente, pois as crianças deveriam ter dois turnos de aula, livres das drogas e da violência na rua, com merenda, mais períodos para as matérias mais críticas, analíticas e lógicas e um pouco de recreação, disciplina e espírito colaborativo através da informática, do esporte, do teatro, da música e das artes plásticas.Mas aí os professores não estão preparados e, infelizmente, nem mesmo motivados e interessados em melhorar. Afinal de contas, ganham tão pouco que seu trabalho é praticamente um voto de pobreza. É desumano fazer um professor trabalhar 40 ou até 60 horas em sala de aula, pois eles deixam de expandir seus próprios horizontes impossibilitados de ter uma vida social minimamente decente com seus cônjuges, filhos, irmãos, cunhados, sobrinhos, pais, avós, primos, tios, amigos, vizinhos; deixam de ir ao cinema, ao teatro a um bom espetáculo musical; deixam de viajar, de conhecer lugares, pessoas e realidades diferentes; estão sempre cansados, estressados e sequer têm força de vontade de educar os filhos dos outros, pois não há tempo, maturidade e nem união por parte da maioria dos pais dentro daquele ambiente de privação da periferia.O regime militar e o neoliberalismo são duas faces da moeda da exclusão social em progressão geométrica. Ainda bem que temos a internet para buscarmos informação e conversações através de um pensamento diferente.____________________Agradeço mais uma vez ao Luiz Carlos Azenha por ter aberto o VI O MUNDO, blog de intensa conversação e colaboração opinativa e informativa por ter copiado a mesma entrada que originou esta resposta aqui, na seção VOCÊ ESCREVE.

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