REGIMES DE GOVERNO

Embora eu sempre tenha-me identificado com idéias predominantemente de esquerda, meu regime de governo predileto não é o comunismo e nem tampouco o capitalismo global.

O comunismo dá condições mínimas de sobrevivência digna a todos (moradia, alimentação, energia, água, esgoto, vestuário, cultura e um padrão de escolarização). Porém, o preço dessa forma de governo é a impossibilidade de criticar o sistema publicamente e de haver oposição. Embora a economia planificada possa gerar lucro mesmo sem interesses capitalistas internos e sem patrocinadores, peca por não gerar lucro externo e trazer divisas para reinvestir em infra-estrutura de qualidade e também na melhora da qualidade de vida da população. Todos têm o mínimo. Contudo, será sempre nivelado por baixo.

Já o capitalismo pressupõe imperialismo, dominação, pilhagem, lobby, tráfico de influência e uma espécie de competição na qual não há vencedores e vencidos ou melhores e piores mas, sim, poucos oligopolistas e uma massa de mortos-vivos: tira-se o pouco que a maioria poderia ter para que raros tenham milhares de vezes mais.

O socialismo seria meu regime predileto. Todavia, comprovou-se que ele só é bem-sucedido quando a população do país em que é praticado for muito reduzida (no máximo 10 milhões de habitantes) e se já houver uma considerável reserva econômica (isto é, uma nação com alta capacidade de endividamento), um patrimônio histórico vivo na mente da maioria (lembranças vivas de todas as virtudes, de todas as falhas, de todas as conquistas, de todas as atrocidades e, acima de tudo, exaltação dos exemplos sociais e individuais positivos, de auto-estima elevada e solidariedade, bem como de uma competitividade onde o objetivo não é nunca o de pilhar mas, sim, o de melhorar a qualidade através da cooperação) e, se não houver nas últimas duas gerações, que pelo menos da terceira geração de hoje para trás tenha havido um alto nível de escolaridade. Se não for assim, o socialismo sempre irá perder para o capitalismo em termos de valores e arregimentação de corações e mentes.

O grande mal do capitalismo é o consumismo por parte daqueles que têm muito pouco por acabarem se endividando por ignorância e por uma falsa sensação de status, assim como a ganância desenfreada de quem está por cima da carne seca, que faz questão de demonstrar que tem mais julgando-se superior em todos os sentidos por meio da ostentação. De maneira simplista, exclusão, ostentação e ignorância de todas as partes geram a violência – sobretudo no meio urbano.

A ganância, a exclusão e o lado ruim da competitividade consideram o mero acúmulo de capital e a construção de rodovias, ruas, pontes, proliferação de automóveis e a padronização de tudo e de todos como formas de desenvolvimento, de progresso. Todavia, o custo psicológico e ecológico são infinitamente mais altos do que os custos do comunismo.

O melhor regime possível pode evitar a miséria de um lado e o acúmulo irresponsável e desenfreado do outro. Porém, é impossível erradicar a pobreza e a riqueza. A liberdade de expressão deve ser o mote, desde que não haja monopólio nem oligopólio e que o Estado tenha o controle da distribuição dos veículos sem lobby nem tráfico de influências. Empresário de mídia deveria ser proibido de ter qualquer outro tipo de negócio. E não poderia haver grupos: todos os sócios só poderiam ter uma única emissora de rádio, uma única emissora de TV, um único jornal e uma única revista. A obrigatoriedade de possuir pelo menos dois anunciantes concorrentes do mesmo segmento econômico com espaços idênticos mais o anúncio da agência reguladora ou do ministério que regulamenta o setor também.

Campanhas políticas deveriam ser sempre pagas, com o mesmo tempo e o mesmo espaço espartanamente divididos entre todos os partidos. Coligações e alianças formais deveriam ser proibidas, assim como a mudança de partido e nenhum político ou empresário de mídia poderia ter parentes de até quarto grau atuando nos mesmos ramos, mesmo que em outros estados ou em redes ou emissoras de terceiros.

Quanto aos partidos, apenas cinco e mais a permissão para uma candidatura independente (apartidária) por instância em cada município (no caso dos vereadores), em cada estado (deputado estadual, federal, senador e governador) e federal (presidente). Todos os partidos devem necessariamente ter programas claros, identificados na prática e na teoria por sociólogos, filósofos, antropólogos, historiadores e administradores como pertencentes aos campos de extrema direita, centro-direita, centro, centro-esquerda e extrema esquerda. Quanto ao que eu compreendo como uma reforma partidária decente, vou escrever um longo artigo sobre isso mais adiante.

Isso é o mínimo pra se começar a ter um país melhor. Mas a competitividade por meio do cooperativismo deveria ser estimulada: afinal de contas, o senso de conquista e de distinção individual por competência, por esforço e por talento precisa ser diferenciado.
____________________

CORRIGIDO E ATUALIZADO EM 14/02/2008 (17:25h):

Onde se lê cooperativismo, leia-se:

“Na verdade, refiro-me à cooperação saudável, onde todos ganham e ninguém e nem o meio ambiente são pilhados. À medida que todos aprendem e produzem, prosperam. E a idéia é a de transmitir seus conhecimentos para que mais pessoas sejam capazes de chegar até onde elas já estão.

É uma teoria que o prof. Henrique Antoun da ECO/UFRJ utiliza muito em redes P2P, cujo autor ainda não descobri quem é, chamada de ECONOMIA DO MÉRITO, na qual o capital social cresce à medida que a pessoa mais dá do que recebe. Não é necessariamente quem acumula mais que é o mais conhecido e mais útil a uma comunidade mas, sim, aquele que é mais solidário, que está mais bem-informado e que socializa essa informação visando o bem comum.

Obrigado ao Miguel Grazziotin por ter lido o que eu deixara passar despercebido! ;)

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9 comentários em “REGIMES DE GOVERNO
  1. GUILHERME E LUCAS: não me nego jamais a dar atenção até mesmo a quem é mal educado ou bravateiro. Posso estar redondamente enganado, mas eu gosto de APRENDER. Portanto, tragam ARGUMENTOS e façam uso da sua INTELIGÊNCIA.

    AH! O nome do físico é ALBERT EINSTEIN.

    []’s,
    Hélio

  2. JOSÉ: quem não possui um objetivo, não chega a lugar algum. Quem não acredita em uma utopia, menos ainda. O erro do capitalismo está na pura crença do pragmatismo e o erro do socialismo está na pura crença de um ideal. Na verdade, acredito que nenhuma dessas condições pode prescindir da outra.

    Eu acho que a esquerda quer resolver o problema do país de maneira imediatista, enquanto a direita só pensa em tomar o poder e manter o status quo. Ninguém tem um PROJETO DE NAÇÃO, assim como o povo não possui UM IDEAL DE NAÇÃO.

    Como já li outro dia, os EUA crêem na LIBERDADE e a FRANÇA crê na IGUALDADE. O BRASIL poderia fazer uso propagandístico e filosófico da FRATERNIDADE, por exemplo.

    []’s,
    Hélio

  3. JOÃO: na minha opinião, funcionou apenas em Cuba, onde uma série de condições sociais, econômicas e, acima de tudo, a aliança com a URSS colaboraram para que, mesmo apesar do embargo econômico dos EUA e do fim do socialismo em quase todo o planeta, a ilha caribenha ainda mantenha este regime de governo.

    Ele está longe de ser perfeito, mas é o menos perverso para a maior parte da população.

    Isso não é comprovação científica: são meras observações pessoais. ;)

    []’s,
    Hélio

  4. seu comentário não era bem o que eu queria vc sabe que Albert Aisten fez um comentário melhor que o seu então traste de melhorar esse comentário mau elaborado! de seu querido pai Lucas Moreira Santos BJS!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!! e de sua mamaesinha que te dá chasinho!!!!!!!!!!!!!!!!!

  5. achei ruim,e mal elaborado,conta outra seu maluco!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

  6. Jose disse:

    Caro Hélio,
    Esta provavelmente é a tua versão do livro Utopia, de Thomas Moore, não?
    Não me leve a mal, mas fora das tuas esperanças, como alcançar tal estado de coisas?

  7. João Sebastião Bar disse:

    Caro Hélio,

    “…, O socialismo seria meu regime predileto. Todavia, comprovou-se que ele só é bem-sucedido quando a população do país em que é praticado for muito reduzida (no máximo 10 milhões de habitantes) ..,”

    Quem comprovou e onde?

  8. Hélio Sassen Paz disse:

    MIGUEL: rateeei. Não era, de forma alguma, cooperativismo a palavra que eu deveria ter usado. Desculpa por esse erro grosseiro que deixei passar.

    Na verdade, refiro-me à cooperação saudável, onde todos ganham e ninguém e nem o meio ambiente são pilhados. À medida que todos aprendem e produzem, prosperam. E a idéia é a de transmitir seus conhecimentos para que mais pessoas sejam capazes de chegar até onde elas já estão.

    É uma teoria que o prof. Henrique Antoun da ECO/UFRJ utiliza muito em redes P2P, cujo autor ainda não descobri quem é, chamada de ECONOMIA DO MÉRITO, na qual o capital social cresce à medida que a pessoa mais dá do que recebe. Não é necessariamente quem acumula mais que é o mais conhecido e mais útil a uma comunidade mas, sim, aquele que é mais solidário, que está mais bem-informado e que socializa essa informação visando o bem comum.

    Obrigado! Vou corrigir a entrada!

    []’s,
    Hélio

  9. miguel martinez grazziotin disse:

    Cuidado Hélio.
    O cooperativismo, assim como se encontra em nosso país,é apenas uma maneira que o capital encontrou para usurpar todos os direitos dos trabalhadores. Senao vejamos, assistimos a um festival de “ollas” cada vez que uma empresa fali (com seus donos sempre saindo ricos…) e os “nobres empregados” formam uma cooperativa para levar o barco adiante.
    1. Ficam e terao que pagar as dividas que nao fizeram
    2. Nunca mais terão ferias,Nao trabalha, nao tem ganho.
    3.Se ficarem doentes vale o mesmo, se tiverem sorte e a cooperativa tiver plano de saude menos mal, mas nao terao renda enquanto nao voltarem ao trabalho.
    3.Decimo terceiro? Repouso remunerado? Nevermore…
    Assistimos a um festival de cooperativas laranjas que só existem no papel para tirar as obrigações trabalhistas das empresas.
    E nao me venham falar do custo do empregado com carteira assinada. Uma rapida comparação com Europa e veremos que nao é verdadeira. Afinal se a burguesia gosta de comparar tudo (que interessa) com o 1º mundo, vamos comparar isto….
    Sou um socialista convicto, mas acho que o grande problema da execuçao é que nós os socialistas queremos acreditar que o homem é integro e justo…e aí reside o problema. Neste ponto o capitalismo joga o jogo….
    Um abraço

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