MAIS SOBRE MIDIATIZAÇÃO E BLOGS

O sempre atento Miguel Graziotin postou o seguinte comentário no post “RS Carcerário de Yeda e a Volta dos que Não Foram” (leia aqui):

“Sabe companheiros,
Num filme nacional, qe infelizmente nao lembro o nome (é a idade chegando…), um ativista politico, em meio as confusões dos aos de chumbo diz, desconsolado _Mas eles (o povo) querem ser salvos?

As vezes gostaria de ser um imbecil tomador de cerveja, que asiste o JN e o Fantastico e que considera o Lasier Martins o homem mais sensato do RS….seria um débil metal, lógico, mas nao infartaria, futuro que me é certo….
Um abraço”

É a amiga da Olga Benario que fala isso para a saudosa militante comunista, ex-mulher de Luiz Carlos Prestes, quando as duas estão dentro de um camburão prestes a serem embarcadas para a Alemanha nazista.

Respondo que não dá para generalizar e nem para transformar objetos, lugares, adjetivos e instituições em sujeitos.

Há, sim, uma enorme quantidade de pessoas que querem ser salvas. Dentro de cada uma delas, há motivos, situações, um histórico pessoal e social dentro de um contexto muito particular que servem para identificarmos de que elas querem ser salvas, por quem (pode ser até por elas mesmas, reconhecendo ou não a ajuda de outros como substancial) e como.

Mas não dá pra perguntar se o Brasil quer ser salvo ou não. Aliás, tanto o discurso de líderes empresariais, latifundiários, banqueiros, cientistas, técnicos, políticos, sindicalistas, multibilionários e famintos, seja dentro ou fora da mídia e da política, tenta seduzir o público que representam utilizando-se da retórica “os médicos querem”, “os liberais precisam”, “o problema dos gaúchos é”, “a demanda dos arrozeiros é” e assim por diante.

Os grandes oradores da Grécia Antiga foram os precursores das técnicas teatrais, discursivas e, creio, até mesmo fonoaudiológicas para convencer os cidadãos na ágora que, à época, ainda era a praça pública. Os discursos não eram editados, gravados ou sequer amplificados. Era a mais pura demonstração da arte do convencimento através do treino e da adaptação da eloqüência voltados para uma parcela da população que tinha mais direitos do que obrigações e que definia as punições às quais raramente seria submetida.

Hoje, o tempo mercantilizado na forma de programas e de intervalos comerciais compartimentaliza a vida em segmentos diferenciados onde, em cada um deles, para ser aceito, o indivíduo deve representar um papel diferente – muito embora sua personalidade e o histórico de seus atos apresentem não uma constância ou uma regularidade mas, sim, repetições capazes de reduzir a margem de erro nas previsões de suas atitudes futuras diante de situações rotineiras.

Essa divisão faz com que a média das pessoas obedeça esse padrão e dance conforme a música para buscar conforto monetário para si e para os seus (em uma sociedade tão individualista, muitas vezes, nem para os seus).

Toda sociedade precisa de ordem, disciplina, organização, divisão de tarefas, regularidade e previsibilidade para que a convivência pacífica sobressaia-se em relação à violência. No entanto, é muito diferente quando as regras do contrato social são estabelecidas através de uma relação direta entre os representantes de uma população e esta população que os escolheu em relação a uma mediação das regras, editadas, recortadas, atomizadas, descontextualizadas, definidas sem a historicidade que definiu a necessidade da existência de uma cláusula x sob determinadas condições do ambiente local.

A educação, a doutrinação e a evangelização dos valores que acarretarão nas demandas de consumo dos detentores do capital que sustentam os meios de comunicação de massa são traduzidas e divulgadas por estes últimos de tal forma que o alcance, o poder do discurso e a sua conseqüente repercussão são potencializados e apresentados sob a forma de um pacote informacional que, embora possa ser combatido, debatido, contestado, debochado, ridicularizado, técnica, teórica e cientificamente desconstruído, estará presente o tempo inteiro dentro da sociedade.

E são as generalizações, os preconceitos enrustidos e o excesso de informação dentro de cada unidade contida nesse pacote que determinam a reverberação daquilo que os sujeitos percebem em si e na partícula atômica que é o seu mundo particular como identidade.

A necessidade de pertença a algo ou a alguém que a maioria das pessoas carrega consigo facilita a aceitação dos valores identitários difundidos pela mídia corporativa. O discurso dos âncoras, comentaristas e repórteres da mídia corporativa é treinado constantemente e rezado como cartilha, a fim de que a média da população (uma grande média, onde tanto os 100% adesistas quanto os 100% contestadores são raríssimas exceções) tenda a acreditar na maioria das coisas que eles dizem.

Nessa construção do discurso midiático, o papel da transformação discursiva de uma entidade em um sujeito é preponderante no convencimento do verdadeiro sujeito, aquele que é de carne e osso: este, ora solitário, ora egoísta, ora oportunista, ora carente, precisa fazer parte de algo – ou precisa que algo venha a fazer parte do seu universo quântico. Do contrário, suas demandas irão para o beleléu.

Sabendo disso, os patrocinadores e a própria mídia corporativa utilizam-se dessa retórica falsamente comunitária angariando novos consumidores para seus bens simbólicos e para os produtos e serviços dos anunciantes, substituindo os legisladores e os executivos do estado onde esse se faz ausente por incompetência, por ignorância, por desconhecimento ou, simplesmente, por interesse.

Seja através de uma TV Pública, ou através do encerramento das concessões irregulares de emissoras de rádio e de televisão, ambas as medidas jamais terão como censurar ou como terminar com a midiatização da sociedade. Afinal de contas, os meios sociotécnicos estão ao alcance de todos aqueles que puderem pagar por um computador, pelo acesso à internet, por um microfone, por uma câmera fotográfica digital e por uma câmera de vídeo digital.

O nosso próprio discurso já é midiatizado: a competência técnica e a experiência com as deixas simbólicas características de cada meio estão introjetadas nas últimas gerações, que possuem a habilidade inata de possuir o instinto que não as faz precisar pensar quando é que está começando ou terminando um programa, quando entra o comercial, quando o momento é de tensão, quando o momento é de comoção e assim por diante.

O esforço dos blogs é o de tentar sair do universo de nossos pares, a fim de produzir diferença através de informação confiável, opiniões fortes porém repletas de significado. É um trabalho que tem maior facilidade de reverberar nas gerações mais novas – justamente as que possuem a habilidade inata do uso da internet.

Se utilizada de maneira honesta, com quebra de monopólio, com capital misto e não-multinacional, a mídia corporativa poderá tornar-se um instrumento verdadeiro de informação, educação e entretenimento capazes de produzir diferença na sociedade. O modelo atual exige que o papel dos blogs seja o de divulgar com clareza, com análise e, acima de tudo, estabelecendo relações históricas, pessoais, empresariais e de causalidade tudo o que passa pela mídia corporativa no que tange à política, à economia, à cultura, à saúde, à educação, à infa-estrutura e à ecologia, acima de tudo.

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5 comentários em “MAIS SOBRE MIDIATIZAÇÃO E BLOGS
  1. Hélio Sassen Paz disse:

    MAIA: desculpa pela demora na resposta. Neste momento, estou lendo muita informação laica e acadêmica ao mesmo tempo pra poder deteminar o que é um blog e como categorizá-los, até eu chegar a uma definição MINHA sobre o que são blogs de esquerda.

    Pra começo de conversa, blogs de políticos, de empresários, de funcionários públicos com cargo no governo ou em grandes empresas, blogs de jornalistas de dentro da mídia corporativa e de qualquer dirigente de partido ou mandatário de cargo eletivo NÃO FAZEM PARTE do que meu objeto de pesquisa.

    Simplesmente porque meu critério primordial não é nem a busca do equilíbrio, nem da isenção e tampouco da verdade, pois os dois primeiros não existem e a terceira é relativa.

    Ainda, como é que eu vou considerar blogueiros 100% contaminados por patrocinadores públicos e/ou privados?! Queiras ou não, o que tu consideras como manipulação e o que tu consideras como blogs de esquerda ou de direita não passam de meros PALPITEIROS ou, simplesmente, de indivíduos que vivem ou do achismo ou de sua ideologia, pois não lhes interessa correr atrás da informação e, sim, apenas acreditar naquilo que lhes chega ou naquilo que a eles convém acreditar.

    Finalmente, a mídia corporativa é o reflexo de um conjunto de forças oligárquicas cujo objetivo existencial não é nem nunca foi o de esclarecer, de informar ou de prestar um serviço mas, sim, de influenciar uma legião de consumidores dos bens simbólicos que vendem (como criar os filhos, como trabalhar, como investir o dinheiro, o que é ‘certo’, ‘errado’, ‘bonito’, ‘feio’ e assim por diante).

    Seu papel é cumprido ao evitar questionar a forma com que seus anunciantes obtém dinheiro, pagam ou deixam de pagar impostos, tratam ou deixam de tratar seus funcionários e seus clientes e como eles lidam com o meio ambiente e com as leis. E isso não é jornalismo.

    JOSÉ: ainda não considero uma proposta. Creio que há muitos aspectos sociais relacionados a cada contexto e a cada cultura, onde o processo de midiatização da sociedade é mais ou menos vivenciado. Cada caso é um caso.

    MIGUEL: talvez não seja o caso de debochar do Maia, pois, embora discorde de muitas coisas que ele escreve em seu blog DEPÓSITO DO MAIA, ele não está redondamente enganado, assim como nós não somos os donos da verdade. Ele é um cara inteligente. Porém, sempre que eu tiver objeções e ele não puder ou não quiser trazer argumentos melhor embasados ao debate, tornar-se-á difícil para ele sustentar o que defende.

    PIRATA: vou começar retribuindo a tua visita com um comentário repleto de preocupação solidária e, se não me engano, também contagiado por um certo otimismo.

    No mais, é isso, mesmo: se formos perguntar ao povo se ele quer ser salvo, ele dirá que sim. Mas jamais saberá explicar exatamente do que deseja ser salvo. Por outro lado, quem somos nós para termos certeza de que aquilo que nós fazemos para tentarmos salvar o povo envolve a maneira e os tópicos dos quais desejam ser salvos?!

    Perdão pelo questionamento filosófico sem respostas nem soluções acima. Mas acho que foi a melhor forma de ilustrar que há espaço para várias tendências políticas e para várias instituições da sociedade civil organizada atuarem, desde que todas, sem exceção, visem o bem comum não apenas como retórica.

    Um feliz 2008, com muita saúde, felicidade, juízo, paz, amor e harmonia. Do resto a gente corre atrás! ;)

    Abraços a todos e obrigado pela visita,
    Hélio

  2. pirata z disse:

    Helião, salve, salve, paz e bem.
    o negócio, penso, não é se concentrar no pensamento de querer saber se o povo quer ser salvo, é alienado, ou não; a gente tem é que seguir fazendo a parte que nos cabe, a qual, acredito, é a de resistir às seguidas tentativas de un$ e outra$ de transformarem o mundo em um imenso campo de concentração mental, ou num xópim – o que, pensando bem, dá na mesma…
    baita abraço meu, irmão, e o desejo de os melhores dias, repletos de saúde e delícias bacantes pra ti e para os teus.

    ps: ao bom Miguel, que postou comentário acima do meu, um toque: vale a pena dar milho a bode?
    abraço

  3. miguel grazziotin disse:

    Este carlos Maia deve receber algu para ficar o dia inteiro enchendo os blogs de esquerda com suas pérolas. Para voce, maia uma história:
    Um pastor foi ao encontro de uma tribo de indios e recebido, começou uma pregação repleta de argumentos e paixoes..ao final ficou olhando para o cacique, esperando o resultado de tao brilhante oratória, e ouviu do mesmo:
    Você coça,coça muito, e coça muito bem…mas onde você coça, não coça.
    Se nao entender mostra pra sua mae e le lhe explica

  4. Jose disse:

    É. É alguma coisa. Uma proposta.

  5. Carlos Maia disse:

    A grande mídia até pode ser manipuladora, mas não se compara com a mídia alternativa de direita ou de esquerda. Essas são muito mais manipuladoras e desinformadoras do que a grande mídia.

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