O TRABALHISMO LULO-PETISTA

Concordo com todas as críticas à reforma agrária, ao Ministério do Desenvolvimento Agrário e ao INCRA que o grande Cristóvão Feil fez nesta segunda-feira em seu excelente DIÁRIO GAUCHE. Como há uma enorme incompreensão por parte de todas as correntes políticas (desde a extrema direita até a extrema esquerda) sobre o que de fato é e representa o Governo Lula e as correntes hegemônicas e pragmáticas que dominam a cúpula nacional do partido, vou apresentar a minha interpretação a respeito dos fatos que se sucedem.

Paulo Henrique Amorim, embora não seja sociólogo nem historiador, tem 64 anos e pertence à seletíssima lista de jornalistas brasileiros (ou que atuam no país) aos quais atribuo um alto grau de credibilidade em quantidade e qualidade de informação. A saber: Marco Aurélio Weissheimer, Luiz Carlos Azenha, Luiz Nassif, Mino Carta, o próprio Paulo Henrique Amorim, Bob Fernandes e pelo menos 70% daqueles que escrevem para o Fazendo Media, para as revistas Carta Capital, Carta na Escola, Caros Amigos e Le Monde Diplomatique Brasil.

PHA disse, em um post de algumas semanas atrás, algo de que, em princípio, ainda não tenho motivos para discordar: que o “campo majoritário” do PT e o presidente Lula são TRABALHISTAS.

Por que? Porque o trabalhismo – seja ele anti-comunista e ditatorial (Vargas) ou baseado no socialismo sem ser essencialmente socialista (brizolismo e, agora, o lulo-petismo) – tanto oferece distribuição de renda através de benefícios sociais ou definitivos (a CLT de Vargas), de uma bandeira (os CIEPs e a educação pública no Rio de Janeiro de Brizola, medida que dependia fundamentalmente da continuidade do programa, do modelo, da ideologia, do partido e da liderança – sem isso, se perde) ou de assistencialismo em caráter emergencial (Bolsa Família, ENEM, ProUni, política de cotas).

Não vou aliviar a responsabilidade da coligação que elegeu Lula pelo esvaziamento dos movimentos sociais, cujas lideranças mais conhecidas foram cooptadas pelo pragmatismo lulo-petista do Planalto. Essa informação foi constatada nas discussões produtivas que já tive com o AGENTE 65, com a Cláudia e com o Eugênio (DIALÓGICO), com o Guga (ALMA DA GERAL), com A CARAPUÇA e também com o Duda e a Rô, cunhados de antiga militância na Serra. Independentemente do DEM e do PSDB sempre terem se mantido como uma oposição avacalhadora ao invés de fiscalizadora e construtiva, esse esvaziamento e a atuação não-confrontadora do Planalto em relação à mídia corporativa foi talvez a única possibilidade pacífica de conseguir cooptar parte do PMDB para o lado de Lula. Não julgo aqui se foi uma idéia premeditada em todos os seus detalhes e tampouco ousaria chutar a sua autoria. Mas Maquiavel já dizia que os fins justificam os meios, concordemos com eles ou não em termos éticos.

A não-confrontação do Planalto em relação a banqueiros, latifundiários e industriais daqui ou dos títeres de fora e a morosidade quanto à reforma agrária e um distanciamento blasé do Governo Lula em relação ao MDA, ao MST e à Via Campesina evita quaisquer confrontos belicistas ou de uma insuportável agressividade midiática (bem maior do que a que temos hoje – acreditem) por parte da oligarquia  que, como sempre, deseja manter o seu status quo custe o que custar.

A TV Brasil é uma enorme volta e um investimento monumental que, até aqui, obteve críticas muito mais suaves do que o que eu esperava por parte de seus poderosíssimos adversários. Prevejo que, mais do que nunca, ela seja, depois que o PT ou qualquer coligação à qual faça parte deixar o poder, ou extinta, ou que seus novos gerentes a transformem em uma rede muito chapa branca e pouco educativa. Mas é preciso primeiro esperarmos pra ver. Essa seria a bandeira fracassada do Governo Lula, isto é, aquele tipo de investimento que só vai funcionar se for mantido em sua essência pelos sucessores. De qualquer forma, é uma maneira democrática e menos arriscada de oferecer informação diferenciada daquela divulgada pela mídia corporativa sem confrontá-la de maneira perigosa.

A transposição do Rio São Francisco, embora ecologicamente péssima e cujo objetivo de distribuição mais voltada para o popular do que para o latifúndio monocultor ainda seja uma grande incógnita, é a volta que esta administração viu para não ser destroçada pela mídia e para não morrer de vez como alternativa para a classe média urbana para realizar uma reforma agrária para um número de famílias muito superior ao da promessa de campanha.

Mais adiante, vejo que tanto a TV Pública possa prestar um verdadeiro serviço de economia, cidadania e política como forma de contra-argumentar e de desconstruir o poder da mídia corporativa, assim como de obter novamente a confiança e a simpatia de vários agricultores despossuídos, porém sem dar moral para movimentos sociais, como uma manobra capaz de evitar confrontos no campo em uma dimensão que ainda desconhecemos e eu, pelo menos, pretendo jamais ver.

Caso realmente funcione, essa manobra política e midiática funcionaria como o alicerce de todas as bandeiras, favorecendo a sua aceitação não apenas pelos diretamente beneficiados pelo PAC, pelo Bolsa Família, pelo ProUni, pelo PEC ou por uma reforma agrária no agreste mas, sim, por uma classe média descrente e conservadora.

Aliás, a única medida atual feita para essa classe média cretina, reacionária, despolitizada, ignorante e retrógrada é o horror de permitir ações policialescas por parte do exército.

Para o bem e para o mal, o Governo Lula articula não com a média mas, sim, mexendo com os extremos. Essa forma de agir politicamente não satisfaz a nenhum movimento social e a nenhuma das castas oligárquicas. Porém, ao mesmo tempo, beneficia a ambos indiretamente, de maneira lenta e não do jeito que eles querem, mas, sim, como o governo quer.

Diante de tantas evidências, ouso dizer que Lula provavelmente deva mesmo achar valioso e bonito o latifúndio de exportação, o fluxo incessante de negociação de capital pelos bancos e a pujança industrial em detrimento da sustentabilidade porque ele é um filho da indústria paulista que, apesar da repressão e da ditadura, fez dele também um fruto do milagre econômico.

E que ninguém se engane mantendo o purismo, a ingenuidade, a ignorância e até mesmo a má intenção de achar que o PT era uno e puro: afinal de contas, quanto mais um movimento cresce, menos controlável ele se torna, de tal forma que as mazelas individualistas, egoístas, elitistas, pragmáticas, orgânicas e maniqueístas do homem manifestam-se da mesma forma em um ambiente tido como de direita e em outro tido como se fora de esquerda. Corrupção, licitações que favorecem amigos, concursos públicos com cartas marcadas, colocação de amigos incompetentes em áreas que desconhecem na técnica, na prática e na teoria prejudicando a qualidade do serviço público e da gestão SEMPRE EXISTIRAM E SEMPRE IRÃO EXISTIR EM QUALQUER LUGAR DO PLANETA.

Com qualidades nas quais acredito ainda presentes e com defeitos decepcionantes porém absolutamente normais e mais do que previsíveis, este governo, que mistura ousadia e coragem com pragmatismo e covardia em diferentes áreas de atuação, apesar dos pesares, merece a minha defesa porque erra menos e acerta mais.

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6 comentários em “O TRABALHISMO LULO-PETISTA
  1. brennofaro5 disse:

    Parabéns pelo seu blog!
    Muito Legal, Adorei…

    Visita também o meu site :
    http://www.torcidaflamengo.com.br
    Se quiser, deixe um elogio.

    Abraços e Sucesso!

  2. Caro Marcelo…
    Não é privilégio seu pagar impostos. Qto a ser “cretino, reacionário, despolitizado, ignorante e retrógrado”, se o chapéu serviu, faça bom uso. Penso que o comentário não generaliza a adjetivação pela classe social, mas sim, pela postura que grupos desta classe assumem nos debates políticos. Algumas situações são inegáveis no Brasil de hoje:
    1º – corrupção existe? claro. Mas nunca foi tão combatida.
    2º – Há preconceito com Lula? Lógico. FHC ficará na sua sombra. Imagine: um letrado multi-lingue não se elege nem para sindico, enquanto o metalúrgico entra no SEXTO ANO de mandato com aprovação recorde.
    3º – A mídia é golpista? Sem dúvida.

    Agora, se você não admite estas três situações como factíveis, realmente és um “cretino, reacionário, despolitizado, ignorante e retrógrado”.

  3. Hallo, Pessoal!

    Ah sim, muito obrigado por te me chamado de cretino, reacionário, despolitizado, ignorante e retrógrado, ainda que eu pague em dia todos os meus impostos e veja, seja no atual governo federal seja nos anteriores (e futuros também), com muita frequência o político corrupto se safando, ou aquele outro que desvia quase dois bilhões de reais (isso mesmo, R$ 2.000.000.000,00) de uma superintendência para bem próprio, ou então o que abusa de sua condição e autoridade para dar carteirada na cara do cidadão comum…

    Mas lá estou eu, trabalhando para pagar meus impostos que sustentam essa canalha de pilantras, sejam estes da esquerda ou da direita!

    Eu, se pudesse, trocaria todo o congresso brasileiro por meia dúzia de políticos suecos. Poderiam ser também filandeses, noruegueses ou islandeses.

    []’s

    Marcelo

  4. Ane Brasil disse:

    Rapá, vou lhe dizer uma coisa: o esvaziamento começou já na escolha do alencar como vice. tava escrito o que seria o primeiro mandato, só não viu quem não quis (e eu fui uma). Enfim, Lula tinha tudo pra ser o melhor presidente da redemocratização… acabou por se consagrar o “menos pior”. Azar o nosso.
    Quanto à TV pública… honestamente, acho uma tremenda picaretagem. Bem melhor teriam feito redemocratizando o acesso à transmissão, tirando da ilegalidade as rádios comunitárias e fomentando a criação de TVs comunitárias.
    Sorte e saúde pra todos!

  5. alessandrolisboa disse:

    Parabéns pelo seu blog!
    Muito Legal, Adorei…

    Visita o meu tbm:
    http://blogaodoflamengo.wordpress.com
    Seu quizer, deixe um comentário.

    Abraços e Sucesso!

  6. La Pasionaria disse:

    Hélio,

    Muito diletantemente, venho comentar o post, e dizer que considero pertinente a tua análise a propósito das várias questões políticas do que considera-se como estratégicas para o avanço progressista da nação no governo Lula, tal como o combate as desigualdades brutais, e da forma como vem sendo conduzidas as políticas públicas para as citadas áreas:sobretudo o MDA,Bolsa Família,ENEM, ProUni,Pac,etc.

    “Como há uma enorme incompreensão por parte de todas as correntes políticas (desde a extrema direita até a extrema esquerda) sobre o que de fato é, e representa o Governo Lula” (palavras tuas)…

    Efetivamente VC, o PHA, tocaram no fulcro de potência, sustentáculo e estrangulamento: a compreensão do que está ocorrendo, características políticas do governo Lula, historicamente falando.Os limites.

    O que fazer?
    Política.

    De fato, isto vem acontecendo,(a incompreensão)desde a primeira gestão. Agora, na segunda, estamos melhor observadores e um pouco mais agudos na compreensão do fenômeno político que é o presidente Lula e suas estratégias políticas de viabilização de um projeto de país e para quem. As consequências, começam a aparecer com mais clareza e portanto já podemos dar “palpites” políticos com mais consistência.

    Uma das análises mais objetivas que li ultimamente, foi a sua , postulando PHA, quando se refere ao Trabalhismo. Esta dificuldade política de compreendermos de que governo se trata, quais os referenciais político-ideológicos do Governo Lula, é fato.

    Porém, digo yo, como escreveu um chileno num cartaz numa passeata em defesa do governo de Salvador Allende: “el gobierno es una mierda, pero es mi gobierno”.

    Ainda sobre Os paradoxos do PAC, diz Miro, (deixei o link da matéria para vc no meu blog, onde reproduzi, para meu gáudio absoluto, o seu post de hj). Ah, o Miro:

    “Expressão cabal desta contradição encontra-se no Plano de Aceleração do Crescimento (PAC), anunciado com toda pompa e circunstância no início do segundo mandato. Por um lado, ele dá sinais positivos ao reforçar a necessidade do papel indutor do estado, ao fixar metas de investimentos e ao planejar as prioridades – como em obras de saneamento e habitação. É melhor debater propostas de desenvolvimento do que ficar discutindo a estabilidade monetária, como no reinado neoliberal do ministro Antonio Palocci. Por outro lado, o PAC não enfrenta os verdadeiros gargalos do crescimento econômico nem fixa qualquer controle social sobre os investimentos, que podem servir apenas às poderosas empresas.”

    “O tripé neoliberal da política macroeconômica – política monetária restritiva dos juros elevados, arrocho fiscal do superávit primário e libertinagem cambial – mais uma vez não foi tocado para alegria do capital especulativo.”

    “Num extremo, mantém intocados os privilégios dos banqueiros – que neste ano voltaram a bater recordes de lucratividade – e incentiva as poderosas corporações e o agrobusiness. Na outra ponta, adota políticas sociais que beneficiam os setores mais excluídos da sociedade. Na prática, ele não enfrenta os interesses da burguesia, em especial do capital financeiro, e não promove reformas estruturais que reduzam a brutal desigualdade na distribuição de renda – na qual o país é campeão mundial. Como diz o teólogo Frei Betto, esta ausência de projeto só agrava as disparidades sociais. “Em 2006, o Bolsa Família doou R$ 15 bilhões para 11 milhões de famílias pobres. Já o ?bolsa especulador? deu R$ 150 bilhões para 20 mil famílias de credores da dívida pública. Não há futuro para um país que beneficia dessa maneira a camada mais rica”.

    Destaco no artigo do Miro, “Os dilemas do presidente Lula”, os seguintes ítens:

    “Alguns riscos iminentes”

    “A opulência dos ricos”

    E mais: “Pressão urgente”, ainda que neste último, e do meu ponto de vista importantíssimo parágrafo, o Altamiro não aprofunde a questão.

    Maaaas, levanta a lebre, até pq, no corpo do texto, ele foi mt claro e diria, até bastante severo na crítica aos rumos que esta segunda gestão possa vir a seguir.

    Concordo,”Pressão urgente”, a sociedade se divide em classes e não entre fumantes e não fumantes, como querem alguns vis, torpes e não fumantes. ;)

    Fazer política, os movimentos sociais organizados, de modo consequente, deverão apontar os rumos e azimutes, caminhos e direções
    do que convém à nação.

    Fui no site da presidência, ler, copiar e colar, a seguinte finalização de apresentação da trajetória política-pessoal do Presidente Lula:
    http://www.presidencia.gov.br/presidente/

    “Na última semana de junho de 2002, a Convenção Nacional do PT aprovou uma ampla aliança política (PT, PL, PCdoB, PCB e PMN) que teve por base um programa de governo para resgatar as dívidas sociais fundamentais que o país tem com a grande maioria do povo brasileiro. O candidato a vice-presidente na chapa era o senador José Alencar, do PL de Minas Gerais.

    Em 27 de outubro de 2002, aos 57 anos de idade, com quase 53 milhões de votos, Luiz Inácio Lula da Silva é eleito Presidente da República Federativa do Brasil.

    Em 29 de outubro de 2006, Luiz Inácio Lula da Silva, do PT, se reelege Presidente da República com mais de 58 milhões de votos (60, 83% dos votos válidos) vencendo em segundo turno o candidato do Partido da Social Democracia Brasileira (PSDB), Geraldo Alckmin.”

    A parte da ‘comunidade’ excluída, está portanto referendada. Elegemos por duas vezes, com louvor, dele e do povo do Brasil, o Lula presidente, para nos representar politicamente. Parabens pelo post tão esclarecedor.

    PS:Este governo, tambem “merece a minha defesa porque erra menos e acerta mais”, portanto, dá-lhe Miro:”Pressão urgente”!

    Abraço.

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