CLASSE MÉDIA TRADICIONAL E BLOGS

Juro que não é pegação de pé. Tampouco espero que minhas objeções signifiquem que eu saiba grande coisa. Porém, insisto na necessidade de não haver chutômetro e de não haver generalizações que desvalorizem, anulem, minimizem ou distorçam a nossa voz mais do que já ocorre atualmente.

Claro que a luta social se faz através da militância, da conscientização e das redes sociais e que há, sim, uma violentíssima desigualdade social e uma péssima distribuição de riqueza que só perdem para a destroçada nação da Serra Leoa, na África Ocidental.

Também não possuo a mínima pretensão de ditar nenhuma espécie de padrão, manual de estilo ou de redação e nem sequer propor a utilização de um vocabulário mais “suave” apenas para parecer simpático. Diante da minha parca ignorância (sem falsa modéstia), Tive um professor de Sociologia, Milton Bins, que dizia que existem apenas duas classes sociais (que não têm nada a ver com os critérios das pesquisas de opinião e mercado): uma é a classe dos que recebem mais do que produzem; a outra, a dos que recebem menos do que produzem. Fora desse âmbito, o resto são castas ou estamentos.

Nesse sentido, os pobres e miseráveis do Brasil; a “classe” média formada por profissionais liberais, por funcionários públicos e por funcionários de nível executivo e operacional iniciais nas corporações; e os ricos, que possuem diversas formas de acumular dinheiro, não podem ser reduzidos a “burguesia” e “proletariado”. Afinal de contas, qualquer um que não obtém lucro de sua atividade e que não possui hábitos consumistas e impulsivos de compra depende ou de uma grande instituição econômica, ou de muitas pessoas que estão acima da linha da pobreza para usufruir dos produtos e serviços que seu conhecimento é capaz de oferecer à sociedade.

Embora muitas pessoas da dita classe média tenham vindo da pobreza em algum momento (se não é a atual geração, foi a que tornou-se economicamente ativa há 20, 40 ou a 60 anos atrás), pouquíssimos integrantes dessa classe média podem ser tidos como puramente reacionários. Da mesma forma, não dá pra afirmar que a maioria seja, apesar dos interesses de mercado dos patrocinadores da mídia corporativa.

É bom que se diga que a esmagadora maioria das pessoas, não muito tempo depois de ter atingido uma qualidade de vida que dificilmente lhes será tomada novamente, tornar-se-á conservadora. Tal comportamento ocorre até mesmo entre aqueles que não se tornam gananciosos. Afinal de contas, há de se compreender que a sociedade atual não é predominantemente solidária: mesmo quem não é egoísta, vive ensimesmado, pouco capaz de expandir seus horizontes mesmo quando pode. E que, em uma sociedade não-estimulada a cultivar a história, a gratidão e o espírito de cooperação, o sentimento de conquista pessoal em detrimento da máxima “ninguém faz nada sozinho” se naturaliza.

De maneira geral, essa classe média emergente acaba assinando embaixo da agenda midiática ao consumir e discutir segurança pública, gastos públicos e desenvolvimento quase sem questionar o discurso dessa mídia corporativa e sem perceber os verdadeiros interesses de quem a financia.

Eles tendem a cultuar a empatia dos repórteres, âncoras e locutores aos quais estão acostumados; a imagem de marca da corporação de mídia está associada a eles. Caso não sintam-se lesados, a credibilidade da informação que recebem tende a manter-se quase intacta – até mesmo quando percebem erros grosseiros. Portanto, apesar de uma mudança nos hábitos de consumo e também da conseqüente sofisticação do vocabulário em virtude de um maior leque de contatos sociais e do aumento da escolaridade, continuarão mantendo o hábito de assistirem a programas de auditório, telenovelas e telejornais.

O RS possui uma “classe” média predominantemente racista não-assumida (ou por maldade, ou porque o hábito já está tão introjetado que sequer são capazes de perceber, de refletir ou de mudar através do estranhamento – quando confrontados, negam). A polarização que ora assola a América Latina, os EUA e a Comunidade Européia é, aqui, um hábito secular de algo que talvez só tenha tido um lampejo de evolução (que depois regrediu novamente à ignorância) durante o governo de Júlio de Castilhos. Portanto, o que observamos em grande parte do planeta hoje em dia sob a forma de uma involução recente não é, para os gaúchos, nenhuma novidade.

Eis a atual conjuntura situacionista: o petismo transformou-se em trabalhismo – mas um trabalhismo diferente, que nem a inaptidão de Ivete Vargas e nem o oportunismo de Leonel Brizola conseguiram fazer respectivamente do PTB e do PDT partidos sólidos e amplos com firmeza ética, ideológica e programática. O lulismo é uma versão não-reacionária e não-ditatorial do getulismo: embora a CLT e o sindicalismo estejam perdendo gradativamente sua importância de uso até mesmo sob a forma da lei, os benefícios sociais do lulo-petismo são exponencialmente maiores do que os do getulismo trabalhista. Da mesma forma, as benesses aos poderosos de ontem e de hoje também são exponencialmente maiores.

A classe média, de uma maneira geral, depois que sente o gosto do consumo e do fim das privações, passa a almejar o próximo passo, que é o de tornar-se rica. A partir daí, a maior parte dos preceitos de ética, moral, ideologia e religiosidade se transformam em uma vulgar moral de cuecas, onde os novos valores são os do mercado. Nesse ponto, o retorno social e as artimanhas das grandes corporações deixam de ser questionados de maneira complexa e profunda (se é que um dia o foram). O ideal passa a ser o de ter a capacidade de expandir a rede social, deixando de ser um laço fraco para tornar-se um laço forte: dinheiro chama dinheiro ou rich get richer (v. Barabási, 2002).

Independentemente do poder aquisitivo, a maioria da classe média já arraigada ou da classe média emergente nos anos recentes do lulo-petismo ainda não é público dos blogs de esquerda: mesmo quem tem acesso à internet, busca mais informações nos portais da mídia corporativa do que se importa em aprender e em discutir uma agenda alternativa.

Nesse ponto, essa classe média de comportamento previsível (diria até tradicional) não é o nosso público-alvo, pois seu processo de transformação de si através do estranhamento só existirá de fato caso ela ACEITE CONFRONTAR-SE COM SEUS PRÓPRIOS VALORES. E, dada a raridade de “ovelhas negras” de esquerda capazes de serem respeitadas e ouvidas tanto nas escolas como nos clubes ou até mesmo dentro de suas próprias famílias, a coragem e a vontade de praticar essa mudança são extremamente limitadas.

Daí que surge uma questão importante em relação ao nosso papel social: como produzir diferença em relação àqueles que não estão entre nossos pares mas que, ao invés de rejeitar o nosso ponto-de-vista, seriam capazes de nos ouvir?

Creio que nós estamos em um extremo da democracia e a classe média tradicional em outro. No momento, a forma menos dolorosa de chegarmos até ela seria através desses simpatizantes apartidários, não-radicais, humanistas, solidários, não-gananciosos, bem informados, cultos e multiplicadores de informação.

Nossa militância infelizmente nos traz uma terríivel falha: a de ou não conseguirmos ser sucintos ao explicarmos alguma coisa, ou de sermos muito diretos, sem muita diplomacia para transformarmos nossas demandas em concretude.

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4 comentários em “CLASSE MÉDIA TRADICIONAL E BLOGS
  1. HELIOPAZ disse:

    […] Uma classe média crescente resulta em um expressivo desenvolvimento da qualidade de vida através do investimento público, privado, coletivo e individual em educação, saúde, transporte, vestuário, alimentação, infra-estrutura, tecnologia e turismo. Todavia, uma classe média crescente inevitavelmente resulta em consumismo e em conservadorismo. […]

  2. Hélio Sassen Paz disse:

    Oi, Ane!

    Brigadão pelo elogio, mas não há tantos exemplos nem tanta fundamentação prática ou teórica suficientemente sólidos a ponto de garantir que eu esteja coberto de razão. ;)

    Tudo o que eu escrevi sobre classe média e/ou mérdia neste blog está aqui. Talvez dê pra ampliar o panorama de como eu observo o fenômeno digitando classe média no campo de busca do PALANQUE DO BLACKÃO e escolhendo algumas dessas entradas (ou posts; dá no mesmo). ;)

    []’s e :* pra ti, pro zoológico doméstico autorizado pelo IBAMA e saudações tricolores ao Nego Véio! :D

  3. Ane Brasil disse:

    puxa, há horas que não lia uma analise tão boa da classe “mérdia” parabéns!

  4. Jose disse:

    Caro Hélio,
    Legal esta tua reflexão. Lá no Mosca Azul eu havia colado um texto do Correio da Cidadania em que o autor comenta este conservadorismo de parcela dos extratos médios da população. No caso ele relembrava, por exemplo, o governo Aznar na Espanha.
    Gostaria ainda de acrescentar, que muito deste conservadorismo, às vezes reacionarismo, passa pela pura alienação. Ou seja, muita gente não quer saber de política, e para eles, política é coisa suja, e não orgazinação do estado, quer dizer, uma maneira da sociedade se organizar, e regular a vida em grupo.
    Eu gostaria de pensar que isto tem a ver com o fato de termos vivido 21 anos sob ditadura militar, mas é necessário dizer que em todo tipo de democracia liberal, os políticos são motivo de chacota. Na verdade a atividade política, seja em que escala for demanda envolvimento, algum nível de compromisso, e nem sempre o pessoal está a fim disso.
    []

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