A ESQUERDA PÓS-MODERNA

Dada a recorrência da dificuldade da esquerda gaúcha ser respeitada, reconhecida e, fundamentalmente, de poder mostrar trabalho, resultados e despertar conscientização através da cidadania e da informação correta, torna-se fundamental conhecer três livros bastante atuais:

1) MULTIDÃO, de Antonio Negri e Michael Hardt: eles falam em uma revolução descentralizada e desinstitucionalizada EM REDE. Como exemplo, citam Chiapas (fora da internet) e eu cito o protesto contra o presidente filipino que convocou uma multidão de pessoas em frente ao palácio do governo local através de torpedos via celular.

2) EMERGÊNCIA, de Steven Johnson: fala de reações midiáticas e sociais em função das brechas no controle do agendamento dos patrocinadores e dos técnicos da mídia corporativa que podem ser exploradas, de tal forma que uma contra-informação gerada via internet, rádios comunitárias, pequenas emissoras de TV sem nenhum vínculo com as grandes redes e outras formas de mídia alternativa seja capaz de gerar uma reação inesperada sobre quem pensa que detém o controle sobre tudo e sobre todos.

3) LINKED, de Albert-Laszló Barabási, fala sobre teorias de redes sociais. Dentro ou fora da internet, todas as pessoas, animais e plantas, ou seja, todos os seres da biosfera terrestre estão conectados. Há laços fortes, íntimos, locais, profissionais, organizacionais, clubísticos, de lazer, educacionais, etc. que formam os clusters. Mas a grande importância dessa teoria é que a sobrevivência e a satisfação de demandas sejam elas individuais ou coletivas (sejam elas ‘boas’ ou ‘más’) dependem inexoravelmente de saber estabelecer uma REDE DE CONTATOS.

Apesar de Linked não ter sido traduzido para o português, todos os três livros devem ser multiplicados através de palestras e de cursos dentro de todos os movimentos sociais, cooperativas, ONGs e escolas.

Bem dizendo, a direita não pode jamais ser ignorada pela esquerda e nem tampouco a esquerda pode isolar-se da direita. Feliz ou infelizmente, uma depende da outra não apenas para afirmar-se ideologicamente mas, sobretudo, para governar. A direita, em determinados momentos, precisa dar breves socializadas a fim de manter-se no poder. A esquerda, por sua vez, raramente conseguiu, em estado de conscientização cidadã e honesta, obter, em média, mais do que 30% de simpatia. Ao que parece, esquerdistas fiéis não passam de 15%, dos quais 5% são completamente ignorantes e cegos, assim como a extrema direita.

Portanto, queiram ou não, é decisivo, sim, para o Brasil, que o PT, o PSB, o PC do B e os tradicionais aliados que compõem a Frente Popular trabalhem em conjunto e dialoguem com a direita. Porém, deve-se, acima de tudo, ter a plena consciência de que a inevitável troca de favores entre duas tendências ideológicas antagônicas reside necessariamente na obrigação que a esquerda tem de poder exercer plenamente o governo que foi eleito pela maioria da população e que essa esquerda deve compensar enormemente suas medidas anti-populares, anti-sociais e anti-ecológicas para satisfazer seus “aliados” trabalhando cada vez mais pelo povo.

Dessa forma, acordos e jogos de interesses políticos são normais e importantes. Essa é a grande brecha da democracia presidencialista, que não é uma brecha pequena: afinal de contas, tais manobras não diferem em nada do que verifica-se na monarquia, no parlamentarismo ou na ditadura.

Então, o que NÃO pode ser aceito de maneira alguma? Trocas de partidos e de domicílio eleitoral; coligações eleitorais fora do espetro ideológico do partido principal; compras de votos; tráfico de influência; obras superfaturadas; licitações fraudulentas; criminalização dos movimentos sociais; depredação do meio ambiente; falta de investimento em saúde e, sobretudo, em educação.

Embora discorde veementemente da transposição do rio São Francisco, da pífia política de meio ambiente do Governo Lula; dos ricos permanecerem sendo subtaxados; da liberdade de cobrança de taxas bancárias; da suruba pró-corporações representada pelas tais “agências reguladoras”; por não haver voto distrital e nem voto facultativo no Brasil e tantas outras mazelas que resultam na pior distribuição de renda do mundo (responsável pela miséria, pela violência e pela ignorância total e irrestrita dentro de todas as classes sociais)…

…Mesmo assim, o Governo Lula representa, queiram ou não, uma evolução nas políticas públicas de investimento em saúde, educação e infra-estrutura perto de tudo o que vivenciamos nas últimas décadas.

Voto no PT por falta de escolha e porque acho o voto nulo uma covarde omissão resultante da desinformação, constituindo, assim, um falso protesto que não passa de falta de inteligência. Não votaria jamais na esquerda stalinista e considero o socialismo sem capital completamente inviável em um país de proporções continentais. Contudo, todas as opções de centro, de centro-direita e de direita existentes são, disparados, piores do que a pior das esquerdas. Não me canso de repetir: o Brasil nas mãos da direita jamais passou de nota 2; nas mãos do PT, é nota 4.

Voltando à multidão, à emergência e às conexões, portanto, a composição ora esdrúxula, ora aparentemente entreguista, ora até mesmo falsa que os parlamentares estaduais e federais do PT gaúcho têm feito com parlamentares do PMDB, do PDT, do PTB e do PP nada mais representam do que a necessidade de compor, de aparecer, de apresentar uma posição mais moderada e conciliadora, independentemente se seus antigos laços estão agora enfraquecendo (movimentos sociais, sindicatos, etc.).

O que não pode haver é a ruptura desses laços antigos, pois eles podem representar sempre a possibilidade de um novo alargamento entre o partido e eles. O que não pode acontecer é o alargamento dos milhares de laços fracos ora estabelecidos com os representantes da visão antagônica.

Portanto, é BURRICE fazer manifestações em frente à mídia corporativa gritando palavras de ordem contra ela e seus funcionários através de pessoas identificadas com partidos políticos, sindicatos e cooperativas. É BURRICE interromper o fluxo de pedestres, de automóveis e de trabalhadores, pois isso, ao contrário do que se pensava antigamente, não angaria novas adesões à causa alguma. Muito pelo contrário: gera tão-somente uma enorme antipatia por parte da classe média predominantemente mal informada, egoísta e reacionária.

Movimentos inteligentes com resultado prático são todos descentralizados, despartidarizados, desinstitucionalizados. Pode-se ir com um megafone e um punhado de gente como a ONG MSM (Movimento dos Sem-Mídia) tem feito recentemente. DEVE-SE oferecer palestras, congressos e cursos em qualquer lugar da sociedade, mas não mais predominantemente nos lugares tidos como “de esquerda”: que saia-se dos sindicatos, dos partidos e das cooperativas para dialogar com as escolas, com as empresas públicas e privadas, em cafeterias, lojas, livrarias.

Tudo isso sem interromper o fluxo e sem forçar a barra nas adesões.

Já pensaram na possibilidade de identificar as empresas que patrocinam colunistas de direita, entrar em contato direto com eles e avisar que há uma gigantesca massa pronta para receber milhões de e-mails, torpedos, panfletos, vídeos, telefonemas, etc. disposta a BOICOTAR seus produtos caso continuem investindo pesado nessa mídia mentirosa?!

Isso é verificar e denunciar as conexões. Isso é resistência e articulação descentralizada. Isso é um movimento social e político emergente.

A institucionalização político-partidária só permite que o Governo (seja lá de quem for) estabeleça suas relações em rede da forma como o sistema legislativo e eleitoral vigente permitem. Já a sociedade em rede ppode manifestar-se de maneira livre e espontânea.

Contudo, que fique bem claro: assim como as atitudes progressistas originadas em idéias socialistas e de esquerda podem emergir surpreendendo os mantenedores do status quo vigente transformando-o em uma outra coisa, também é possível verificar a emergência de movimentos descentralizados conservadores, para os quais devemos ficar atentos.

Por exemplo: na divisa entre os estados do Novo México (EUA) e de Chihuahua (México), há uma série de cidadãos estado-unidenses moradores daquela fronteira que fazem vigília dentro de suas próprias casas utilizando webcams voltadas para a rua, internet banda larga, comunidades virtuais e listas de e-mail “dedando” os imigrantes que pretendem fugir da miséria em sua terra natal mais ao sul em busca de oportunidades no norte. Muitos mexicanos pobres são presos, agredidos e até mortos em função dessa ação.

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12 comentários em “A ESQUERDA PÓS-MODERNA
  1. […] Esquerda inteligente Publicado em 10 de dezembro de 2007 por Rodrigo Cardia var addthis_product = 'wpp-264'; var addthis_config = {"data_track_clickback":true,"data_track_addressbar":false};if (typeof(addthis_share) == "undefined"){ addthis_share = [];}Vale a pena a leitura do texto que o Hélio Paz escreveu lá no Palanque do Blackão. […]

  2. […] addthis_share = [];}No dia 10 de dezembro, o Hélio Sassen Paz escreveu um ótimo post no Palanque do Blackão, sobre os atuais desafios da esquerda – inclusive recomendei a leitura. E lembrei que, quando […]

  3. […] de direita de retomar o poder na VENEZUELA terão como base aquilo que STEVEN JOHNSON chama de EMERGÊNCIA, que é aquele movimento em rede descentralizada que se organiza e começa a agir online, até […]

  4. […] é, acima de tudo, ser a favor da RESISTÊNCIA PÓS-MODERNA, baseada em REDES SOCIAIS, transformando demandas locais em casos conhecidos globalmente, […]

  5. […] o livro EMERGÊNCIA (referências aqui), de Steven Johnson, há notícias publicadas de maneira descentralizada a partir de veículos de […]

  6. […] esquerdistas cegos No dia 10 de dezembro, o Hélio Sassen Paz escreveu um ótimo post no Palanque do Blackão, sobre os atuais desafios da esquerda – inclusive recomendei a leitura. E lembrei que, quando ele […]

  7. Pirata Z disse:

    Helião, salve, salve, paz e bem.

    demorô, eu tô ligado, mas apareci. quae sera tamen, no entanto, que não se vive, como eu vivi, 30 anos nas Minas Gerais impunemente…
    muito bom, mesmo, tudo por aqui, com o que, hoje mesmo, qual um operador de telemarquetim, “vou estar lincando” o blogue do senhor lá na minha caxanga. isto, claro, não lhe trará “audiência” digna de nota, mas a intenção não é essa, e sim a de permitir a outras e tantos mais a leitura de bons textos – e, para mim, jornalista ôldi iscul que sou, quem tem que “ganhar”, e sempre, é o público, não o veículo.

    bueno, mas eu, sem nem pedir licença, gostaria de contar uma passagem que vivenciei recentemente, dado o ocorrido, de um jeito ou de outro, ter a ver com a lúcida observação que fizestes sobre o comportamento das gentes, as de ontem [equivocadas] e as de hoje [mais eficientes], nos ditos “protestos”.

    fui visitar uma amiga que mora em Ipanema. em dado momento, quis pitar um meu cigarrinho – é, não sou nada moderno, pois ainda pito e, como sou cafonérrimo, ainda gosto de mulher -, mas dado a casa não ter fumantes, e ainda ter crianças, desci à rua, pra baforar sem causar danos que não a mim mesmo. no que dou a primeira tragada, olho do outro lado da rua, e quem vejo? diogo mainardi.
    rapá, devo admitir: na hora, de mim para mim, exclamei aquele “é hoje” ao qual, normalmente, se segue alguma atitude pra lá de macha – nunca menos impensada, portanto -, compreendendo, ao final, alguma merda carecendo intervenção da turma do “deixa disso”.
    assumi, então, minha melhor pose do James Coburn – te lembras deste? – nos uésternis em que este fazia o tipo “não parece, mas sou capaz das piores coisas, beibe” – manjas, né? – e, com a língua, mandei o pito prum canto da boca, ajeitei a cintura da calça e danei a pensar ondé que eu meteria o balaço – no caso, de saliva.
    enquanto preparava a munição, buscada lá nos recônditos mais sinistros da pleura, a visão de um seu filho pedindo atenção ou colo me fez retroceder – e que bom isso. explico.

    primeiro, ocorreu-me que, cuspisse-lhe a fuça de gondoleiro em dia de chuva (ele morou em Veneza, afinal…), dar-lhe-ia uma espécie de ‘medalha’ da qual, depois, se orgulharia em sua coluna, dizendo o que tem provocado em petistas espalhados pelaí. isso, no entanto, seria o de menos. o que me fez retroceder, mesmo, foi o fato de pensar que eu, quando menino, se visse o meu pai tomar uma escarrada na cara, e sem reagir – porque alguém aí, em sã consciência, é capaz de imaginar aquela valentia exibida em revistinha sendo posta em prática na, como dizem fãs de novela, “vida real”? -, mas, dizia, eu, se menino fosse, carregaria aquela cena para o resto de minha vida, e não sem me envergonhar e entristecer pela mesma.

    mano, eu não tenho religião, tampouco minha fé vai para além do que pode – e deve – fazer quem me cerca, então a questão não era carregar um “pecado” desse na cacunca até o perdão final, mas de não querer deixar constar de minha já tosca biografia um ato tão vil, como o de arruinar os sonhos de uma criança, nos quais, ou em sua maioria, altivo e invencível, o pai é o protagonista.
    me ocorreu, entretanto, que ele mesmo, mainardi, não tá nem aí, quando escreve o que escreve unicamente para fortalecer o “estabelecido”, que, abusado que só ele, diariamente escarra na cara de quem o sustenta, mais do que com impostos e ou consumo, com o suor do trabalho, e com, apesar das humilhações diárias, aquela ‘paciência’ que o pragmatismo da sobrevivência reveste aqueles que não tiveram a “sorte” de saber escrever pra veja e afins – e os filhos destes humilhados que se fodam com os seus dilemas existenciais, referenciais, humanos, enfim. então, um último impulso, digamos, bobcuspeano ainda teimou em pedir vazão, mas, valente e cool qual James Coburn, resisti, e assim, acho (ainda não tenho certeza), fiz a minha parte – humanamente, digo. mas fiz, digamos, “algo”.
    antes de subir novamente ao apartamento da amiga, chamei o cabra com um “ei”. ele virou-se para o meu lado e me olhou com aquela cara de “é comigo”. antes de confirmar e dizer o que me ocorrera, aproveitei pra fazer a minha performance do Coburn – afinal, eterno garoto, não podia perder essa chance…. então, tirei o pito da boca, segurei-o em dois dedos, e depois deixei-o cair ao chão. canastrão pra chuchu, esmaguei o pito com a ponta da imaginária bota, e, com uma expressão de quem até perdoa, mas não esquece, disparei:

    – lembra, sempre, desta cena, de você pegando teu filho no colo, e dele olhando pra ti, quando for escrever as tuas colunas.
    – o quê? – indagou-me, perplexo, o colunista.

    dei-lhe as costas e subi ao apartamento.
    olha, Helião, sei que tu, como alguns para quem contei esta história, pode pensar que falhei, que tive a chance de redimir muitos, e não a aproveitei.
    pode ser, pode ser, meu camarada. mas rogo-te uma última atenção: a de não desconsiderar, em tua reflexão, que, ao fazer o que fiz, ao não fazer o que “deveria” ter feito, de alguma maneira, acho (eu ainda não tenho certeza, apenas sinto isso), eu nunca fui, em toda minha vida, tão homem – e não digo no sentido macho da coisa.

    perdoa aí o abuso do espaço. segue com este trabalho bom pra cacete que estás fazendo, salve, salve, paz e bem.
    baita abraço meu

  8. dinosaur fact disse:

    Hello, just stoped by the comment section to thank you for the work you have been doing so others can enjoy your blog with a morning cup of coffe :)

  9. Hélio Sassen Paz disse:

    RODRIGO: Valeu a lembrança! ;)

    MAIA: sem julgar ideologia, pessoas nem condições financeiras, é inaceitável que, hoje em dia, a sede municipal do PT não tenha internet banda larga nem um PC rápido (rápido não é sinônimo de caro). É inaceitável que, em uma sociedade na qual mais de 80% de todos os assuntos comentados por TODA a população têm origem na mídia, a maioria dos assessores de quase todos os parlamentares petistas – que são jornalistas – não monitorem o que se fala deles na mídia corporativa e não municiem seus chefes de material farto e verídico encontrável em sites do Governo e na mídia alternativa nos debates. Aliás, surpreende muito o fato de que a retórica antiga e o despreparo estético e discursivo dos candidatos de esquerda diante das câmeras poderia ser facilmente contornado através de aulas e de um treinamento pouco dispendioso e pouco rigoroso a fim de concorrer pau a pau com a esperteza de seus adversários na exposição midiática.

    Seria muito fácil destruir todo e qualquer argumento da direita e reconquistar a classe média caso houvesse coesão e interesse.

    []’s,
    Hélio

  10. Carlos Maia disse:

    Bom texto, Helio e concordo parcialmente com ele, mas o pessoal da esquerda gaúcha certamente não vai concordar.

  11. […] 10/12/2007 Vale a pena a leitura do texto que o Hélio Paz escreveu lá no Palanque do Blackão. […]

  12. Muito bom esse texto!
    Vou recomendar a leitura lá no Cão.

    Abraços,
    Rodrigo

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