CARTA ABERTA À DEP. MARIA DO ROSÁRIO

Não sou filiado ao PT, embora vote predominantemente em seus candidatos e identifique-me plenamente com a ideologia que está no estatuto do partido e com as bases sociais que o formam. Conforme já falei neste blog em n posts, não é possível nem varrer a sujeira para debaixo do tapete, muito menos deixar que atribuam a este governo falhas que ele não tem, ao mesmo tempo em que é inadmissível apontar suas várias conquistas.

Aproveitei que, hoje, recebi um e-mail padronizado para todos os integrantes da lista de contatos da deputada Maria do Rosário, pré-candidata à prefeitura de Porto Alegre, para ser sincero, franco e questionador, cobrando dela, como eleitor, algumas atitudes que me desagradaram muito. Falo do beija-mão à RBS que ela deu em discurso na Câmara dos Deputados em Brasília e na sua convescótica aparição que simbolicamente também contribuiu para endossar o arrendamento que o prefeito Fogaça fez da Usina do Gasômetro durante três longos meses. Ei-la:

“Caríssima deputada Maria do Rosário,

Sou publicitário formado pela UFRGS e mestrando em Ciências da Comunicação pela UNISINOS. Tenho 34 anos e sou porto-alegrense. Também milito pela Educação, que é o motor da sociedade e a principal maneira de vermos a violência urbana, a concentração de renda e a intolerância racial, sexual, religiosa, profissional e bairrista diminuírem no Brasil.

Embora nosso contato tenha sido muito breve na caminhada com Olívio e Jussara na campanha para o Governo do Estado em 2006 na Redenção, já votei tanto em ti como no companheiro Henrique Fontana.

Compreendo que política é a arte de compor e de ceder para chegar a um objetivo maior. Todavia, que esse objetivo seja ético, transparente, honesto e voltado para aqueles que mais precisam. Isso foi o que me fez ser um homem de esquerda e manter afinidade com o PT.

Não acredito em maniqueísmos. Não existe perfeição, assim como não existem os extremos completos mau/bom, belo/feio, inteligente/burro, forte/fraco e assim por diante.

Quando o PT fez o movimento de expandir o número de filiações e de atrair alguns políticos (parte deles, identificada com a nossa causa; outros, não passando de meros adesistas), me preocupei, pois é um tipo de expansão que a sociologia também verifica de maneira semelhante nas torcidas organizadas dos clubes de futebol: quando o número de integrantes ainda é mensurável e quando as principais lideranças ainda conseguem reconhecer seus companheiros pela fisionomia e chamá-los pelo nome, a chance de um não fiscalizar os atos do outro a fim de que a instituição preserve um caráter socialmente reconhecível como uma marca de qualidade frente à diversidade de sujeitos que a compõe, quase tudo funciona às mil maravilhas.

No entanto, todo crescimento resulta na incorporação involuntária e quase imperceptível de embriões de forças que transformam a diversidade fiscalizadora da transparência em “panelas” de vaidade, de tráfico de influência e de interesses ilícitos. Ao vir à tona, essa nova composição de forças demonstra claramente que as idiossincrasias e contradições ora reinantes resultam no esgotamento desse modelo.

Nada disso me fez deixar de ser de esquerda e, na esmagadora maioria das minhas reflexões, ainda não cheguei ao ponto de deixar de preferir o PT, sobretudo pelo que ele representou em 16 anos de conquistas populares para Porto Alegre e em quatro anos de conquistas que foram soterradas pelos interesses de banqueiros, latifundiários e da intolerante, ignorante, revanchista e desleal corja representada pela direita riograndense.

Fiquei profundamente decepcionado com a tua postura em função daquele discurso pró-RBS na Câmara dos Deputados. Pior foi o “beija-mão” que tu, a Luciana Genro, a Manuela e outros deram no triste arrendamento do espaço democrático e popular de manifestações artísticas e culturais cujo ícone maior é a USINA DO GASÔMETRO.

Diante desses fatos, te pergunto:

Por que prestar contas à essa mídia corporativa que JAMAIS irá dar o espaço necessário para a Frente Popular se manifestar de maneira complexa e contextualizada? Basta ter meio neurônio para perceber que a alternativa da mídia local tratar os dois pólos políticos com a mesma importância, com o mesmo espaço e, acima de tudo, com o mesmo respeito, inexiste.

Tu deves alguma coisa a alguém e tens o rabo preso ou alguém do PT está enterrado até o cabelo e estás tentando preservar a imagem da instituição?

Sei por conhecidos em comum que a Luciana Genro confessou que morre de medo da mídia. Por um lado, como pesquisador iniciante na simbologia, nas sociabilidades, no modus operandi e nos interesses cruzados que envolvem as corporações de mídia, compreendo que, em um primeiro momento, parece ser obrigatório bater ponto e torcer para que os Lasiers, Rosanes, Diegos, Políbios, Armandos  e Rogérios da vida não “batam” muito na gente. Também parece ser “fundamental” ou aparecer um pouquinho que seja, ou ocupar espaço nos veículos de maior exposição.

Todavia, companheira Rosário, não há confronto. Não há questionamento. Não há preparo técnico nem intelectual seja teu, seja da maioria dos candidatos a qualquer cargo pelo PT gaúcho.

Questiono muito a importância de haver tantos assessores de imprensa em quase todos os gabinetes de deputados estaduais e federais se nenhum deles sabe prepará-los para um debate. Se, nas raras ocasiões em que algum deles consegue ser suficientemente competente para fazê-lo, vocês decidem ter um rompante de autonomia deixando de apresentar dados práticos representativos da atividade dos nossos governos e da inaptidão de nossos adversários.

Nesse jogo, O PT está perdendo porque, em uma analogia da atividade dos assessores de imprensa e de vocês, parlamentares, com o futebol, eles são maus técnicos e vocês são jogadores medíocres.

Não sei se adianta muito teres um banner para a AGÊNCIA CARTA MAIOR no teu site pessoal se a esmagadora maioria das informações e das verdadeiras aulas de Sociologia de diversos articulistas desse importante órgão de imprensa (um dos poucos realmente confiáveis) parece entrar por um ouvido e sair pelo outro.

Concordo que há muitos pormenores que desconheço e que jamais virei a conhecer dentro das relações políticas e institucionais. Concordo que, infelizmente, seja necessário fazer composições, alianças, coalizões e coligações ideologicamente esdrúxulas para manter ou ampliar a governabilidade e que, mesmo que perca-se os anéis, os dedos precisam ficar.  Apóio o PT desde os 16 anos, quando votei em Lula Presidente no já longínqüo ano de 1989.

Todavia, apesar do ENEM, do FIES, do ProUni, das novas universidades federais, dos novos cursos técnicos e de várias radiografias que o ENEM e que o IBGE fazem da nossa educação, mais do que reintroduzir o ensino de Filosofia e de Sociologia nas escolas do ensino médio, é fundamental aumentar a carga horária e reforçar Português, leitura, o uso da internet para fins didáticos, música, esportes e, acima de tudo, noções de cidadania, economia doméstica, pequenos serviços domésticos e empreendedorismo.

Sei que o PEC vem aí. Confio na continuidade do desenvolvimento que o Governo Lula está promovendo.

No entanto, a inabilidade na compreensão da agenda da mídia e de seus patrocinadores e a total desobediência às leis de concessões de emissoras de rádio e TV (muitas repetidoras das grandes redes funcionam inclusive com financiamento público) têm-se constituído na maior falha do Governo Lula e das administrações populares em Porto Alegre e no Rio Grande do Sul.

Gostaria muito de saber o que pensas a respeito disso. Mantenho um blog chamado PALANQUE DO BLACKÃO (disponível em https://heliopaz.wordpress.com) e te garanto que são as informações que nós, blogueiros de esquerda, catamos na internet as mais capazes de gerar questionamento sobre a atividade política e da mídia corporativa.

Agradeço muito o espaço e espero que possamos debater essas questões.

Um abração e um beijo respeitosos e com carinho,
Hélio Sassen Paz”

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Publicado em ATIVISTAS
4 comentários em “CARTA ABERTA À DEP. MARIA DO ROSÁRIO
  1. Bela carta, Hélio. Foste no ponto, ou nos pontos nevrálgicos da deputada. Essa gente deixou de lado a militância de esquerda e partidária. Eles são de um time chamado “Deputado Futebol Clube” e ponto. É a coisa mais corporativa que há no País.

    Abraço e continue assim, sempre combativo e insurgente!

  2. claudia cardoso disse:

    Recebeste resposta???? Nós mandamos uma msg a ela e, até hoje, nadica.

  3. miguel grazziotin disse:

    Pois é Helio, “se” receberes resposta…será protocolar, ignorando as questoes e “respeitando” seus posicionamentos…..
    Espero – realçmente – estar errado…
    Um abraço

  4. sueli halfen disse:

    concordo contigo ! não sou petista,mas já votei em vários do PT.

    Agora…esse beija – mão foi demais !

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