A FAVOR DAS COTAS NAS UNIVERSIDADES

Voltando as cotas. É preciso se informar mais, saindo do lugar-comum daquilo que a mídia corporativa comprometida até a raiz dos cabelos com os interesses de seus patrocinadores e com a sua mania de brincar de deus procurado influenciar corações e mentes costuma dizer.

O sistema de cotas justifica-se por n razões. Faltam várias, mas cito aquelas que me ocorrem agora. Todas relacionam-se com a

CONCENTRAÇÃO DE RENDA: é a pior do mundo. Apenas 1% da população é dona de 50% das terras aráveis do país. Isso se deve a vários motivos:

1. À todas as 13 capitanias hereditárias, onde os nobres portugueses passavam suas terras de pai para filho, extraindo tudo o que delas pudessem. Tentaram escravizar os índios, não conseguiram; tentaram convencer os índios, que viviam em simbiose com a natureza, de que o que era de todos agora tinha um dono – os invasores, como representantes da coroa portuguesa; depois, dizimaram quase todos os nativos. Para trabalhar para os portugueses em um território imenso com uma população muito reduzida, eis que vieram para o Brasil cinco milhões de escravos africanos. Quem não morria tentando defender suas tribos ou na viagem de navio, vinha para cá desgarrado de seus pertences, de sua família, de sua língua, de sua religião. Se não obedecessem aos portugueses, eram espancados, humilhados e mortos. A “abolição” da escravatura nada mais foi do que deixá-los a esmo, sem casa, sem emprego, sem chances de estudar.

Retomando: todos os principais fatores da atual violência urbana estão presentes desde a chegada dos negros ao Brasil. Falta de respeito, falta de oportunidade, falta de carinho, falta de condições mínimas de sobrevivência. Todos os brancos amigos da coroa protuguesa, espanhola, francesa, holandesa ou inglesa (os maiores credores de Portugal) podiam prosperar, estudar, constituir família normalmente e eram plenamente protegidos pela lei.

Os negros e mestiços só eram lembrados pelo Império (e pelos primeiros governos da República) quando era preciso constituir um exército, isto é, para que os marginalizados tivessem uma oportunidade de receber um soldo e de ter o que comer, o que vestir e um teto pra morar enquanto estivessem cedendo seu corpo e sua mente aos horrores das guerras internas (Inconfidência Mineira, Guerra dos Farrapos, Revolta dos Emboabas, etc.) e externas (Guerra do Paraguai, cujo principal nome foi o grandissíssimo FDP conhecido por Duque de Caxias, que dizimou 1/3 da população guarani depositando gado colérico no Rio Paraguai).

A maioria dos soldados que voltam de uma guerra na qual estiveram no front, mutilados ou não, tornam-se psicopatas – hoje em dia, apenas os oficiais recebem tratamento psicológico adequado. Quem perde um amigo, a visão, um braço ou uma perna nunca mais esquece: pesadelos, mania de perseguição, revanchismo, pavor, ódio, melancolia… Como são inúteis e não servirão mais como “buchas de canhão”, não têm mais valor para governos belicistas. E todo império ou república de generais é belicista.

Voltando: os filhos dos ricos proprietários de terras (todos brancos) jamais iriam para a guerra, salvo como oficiais de alta patente. Esses não precisavam dar a cara a tapa: bastava apenas ficarem à distância, movendo as “peças” no “tabuleiro”.

Quem conseguia sobreviver formou as primeiras favelas, pois não tinham dinheiro, emprego e nem estudo. Não podiam adquirir um terreno, comprar roupas e sequer se endividar ou “abrir um negócio”.

Até hoje, são vistos como gente de segunda classe: as oportunidades não são para todos. É um simplismo absurdo crer que basta apenas se esforçar. Ou, então, que eles são vagabundos, que querem tudo de mão beijada. Não: o começo deles é totalmente desparelho em relação ao começo da maioria dos brancos, pois o branco pobre é muito menos discriminado.

2. À pilhagem dos bandeirantes paulistas, que assassinaram milhões de índios desbravando o território ainda desconhecido das regiões Centro-Oeste e Norte do país e foram tomando posse: atrocidades liberadas pelo Império;

3. À grilagem dos barões do café em SP: eles foram aumentando suas terras tomando-as da primeira leva de imigrantes italianos. Primeiro, ofereciam dinheiro para comprá-las; depois, faziam ameaças à integridade física da família; na calada da noite, seus jagunços iam expandindo a cerca, comprimindo o território do imigrante; finalmente, quando o patriarca ou um de seus filhos era assassinado, a família italiana vendia o pouco que lhe restava a troco de banana.

Isto provocou o primeiro êxodo rural, para quem não podia/não queria vir para a serra gaúcha: alguns “carcamanos” eram absorvidos pelo mercado de trabalho e podiam estudar; outros, sofriam com o desemprego e com a vida apertada em fundos de porões em São Paulo e no Rio de Janeiro. Embora fossem minoria perto dos ex-escravos, esta foi a segunda leva de brancos marginalizados, logo após os portugueses que não eram filhos nem amigos dos graúdos.

As cidades ainda não-industrializadas ou em processo primário de industrialização tinham espaço, mas não tinham mercado. Produtos de qualidade e produtos importados (com ou sem qualidade) só podiam ser consumidos pela elite branca.

E isso não faz tanto tempo assim. Aliás, é o que ainda prevalece, com o adendo da disparidade econômica, cultural, de saúde, transporte e lazer ter aumentado dezenas de vezes.

A carência gera desespero. O desespero gera o furto. A indiferença gera a raiva. A falta de proteção e de oportunidade gera ódio. Com ou sem guerra, quem não possui proteção do Estado precisa sobreviver. Com ou sem violência, sua sobrevivência depende artimanhas opostas à corrupção inventada por políticos, industriais, latifundiários e banqueiros brancos.

4. A mecanização faz com que os latifundiários, os industriais e os banqueiros não precisem mais de muitos funcionários. Famílias, relacionamentos, sentimento de pertença a algum lugar e valores (alguém me ama? alguém me respeita? eu sirvo para alguma coisa?) são desfeitos em função da falta de dinheiro. Mendigos, menores de rua e assim por diante, além da superpopulação nas cidades;

5. Sabem como começou o tráfico de drogas? Alguém assistiu “Olga” e “O Que é Isso, Companheiro?”? A velha vocação da elite branca brasileira (que eu considero oligarquia, pois jamais significaram o que de melhor há em uma sociedade) sempre quis aparecer e sempre foi egoísta. Não apenas não admitiam (e até hoje não admitem) que um negro ou um índio possa “crescer na vida” honestamente, pois isso significa a diminuição dos seus privilégios.

Para manter o status quo, aliam-se a brancos ainda mais poderosos: aqueles que vêm de fora. Vargas fez as leis trabalhistas, permitiu o voto feminino, aboliu o voto por renda (só os ricos podiam votar), trouxe a indústria para o país e criou um monte de estatais importantes, que garantiram, no período, a soberania nacional em indústrias de base fundamentais para a melhora da qualidade de vida e da infra-estrutura nacional para obter apoio popular.

Em troca, manteve os grileiros, os políticos e os banqueiros de MG e SP com tudo o que tinham, sem uma redistribuição de renda efetiva. Afinal de contas, Vargas também era um latifundiário e um militarista.

O tráfico de drogas no Brasil começa na ditadura Vargas, expande-se durante a ditadura militar e expande-se como poder paralelo na “democratização”. Como vimos, os excluídos tiveram que, a seu modo, instituir o famoso “jeitinho brasileiro”, imitando a forma de roubar dos ricos adaptada ao seu universo de acesso limitado aos bens de consumo e à infra-estrutura básica de sobrevivência.

Vargas, insuflado pela Inglaterra (império decadente), pelos EUA (império emergente), pela Itália (fascista) e pela Alemanha (nazista) e pelas oligarquias brancas nacionais, considerou que o grande inimido do país eram as pessoas e partidos de esquerda. Uma classe média egoísta e mantida ignorante e influenciada pelo Estado de São Paulo, pela Folha de São Paulo, pelo O Globo e pelas rádios Tupi e Nacional foram amplamente bombardeados por uma desinformação que elegeu estudantes, negros e mestiços como o mal da sociedade.

Discriminação, desrespeito, medo e indiferença, que sempre existiram, passaram a crescer em progressão geométrica.

No RS, os descendentes de alemães e italianos enriqueceram no campo roubando caminhões de calcário das cooperativas e a maioria deles possui o racismo introjetado pelo fascismo e pelo nazismo (mesmo que muitos tenham fugido de lá – a educação escolar e a propaganda introjetou o racismo nos valores deles).

As Forças Armadas, a polícia e o Judiciário torraram tempo precioso e muito dinheiro prendendo, torturando, exilando e matando pessoas com pensamento político, administrativo, econômico e social diferente daquele imposto pelos donos do país (se há donos, não há iguais; se há diferentes, há ‘melhores’ e ‘piores’; e quem está por cima não quer dividir e nem perder, assim como quem não tem precisa ter um mínimo, mas não tem).

O know-how do tráfico veio dos EUA e sempre foi conhecido e financiado por políticos tradicionais (MA, Sarney). Os filhos dos empresários das grandes cidades podiam divertir-se à vontade (sexo, drogas e rock’n’roll); e uma juventude alienada (estudantes universitários que não se envolviam em política e viviam se chapando e fazendo surubas) não questiona: quem torra seu tempo apenas se divertindo ou indo de casa para o trabalho sem conhecer quem está logo ali do lado não tem como pensar diferente.

Isso é um resumo do que virou o Brasil atual.

Então, não é por caridade, nem por benevolência, nem pra pedir desculpas e tampouco para corrigir uma gravíssima falha social histórica: o sistema de cotas serve tão-somente para diminuir a diferença mais aguda do planeta em termos de chances de melhorar de vida.

Se a idéia é ter uma sociedade mais culta, mais saudável, menos violenta e mais produtiva, não se pode cobrar 10x de quem teve x chances, nem oferecer 200x a quem teve 10x de chances. Isso é papel do Estado. É para isso que se paga impostos.

No colégio, tive apenas um coleguinha negro em uma turma de 20 e poucos no jardim. Isso não é estranho?

Durante o 1º grau, o 2º grau e mais acintosamente na faculdade e nos lugares onde trabalhei, essa diferença só foi aumentando: de 20 para um subiu pra 30, depois 40 e, finalmente, 50 para 1.

Ora, segundo o último censo, 22% da população do RS é negra ou parda. Se um ou outro é branco e vai tentar se passar por pardo, aí é problema de revisão de critérios e de treinamento para os avaliadores. Corrija-se esse detalhe e o sistema funcionará muito bem.

Então, deveríamos ter, em todas as escolas públicas de todos os níveis e nas universidades particulares, em caso de uma igualdade educacional e financeira, 1 negro ou mestiço a cada grupo de 5 estudantes.

Em função de tudo o que eu já disse, a desigualdade impede que alguém que estudou nas escolas atuais e que precisa sobreviver com o dinheiro da mensalidade de um cursinho e com 1/3 ou menos do que seria necessário para pagar uma faculdade.

Hoje, no caso da UFRGS, 30% das vagas são reservadas para pobres (renda familiar de R$600,00 ou menos per capita facilmente comprováveis), dos quais a metade (15%) das vagas destinam-se a negros e pardos. Essa é a lei. A TV não diz isso!

Pra terminar: o ENEM é quase tão difícil quanto um vestibular de federal. Em média, 67% dos cotistas obtém notas maiores do que os não-cotistas.

Portanto, é mais do que justo.

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Um comentário em “A FAVOR DAS COTAS NAS UNIVERSIDADES
  1. José Luís Carneiro disse:

    Caro Hélio,
    Parabéns pelo lúcido post. Teus argumentos são bem construídos e teu pensamento coincide com o meu a respeito deste assunto.
    Mas eu colocaria uma outra questão: para termos mais médicos, advogados, dentistas, arquitetos, economistas e engenheiros afro descendentes ou oriundos das classes menos favorecidas; teremos também de olhar para a outra ponta. Teremos de aplicar a mesma energia na educação básica, pois é aí que os problemas começam. Sem uma escola pública de qualidade com professores bem remunerados e estimulados não adianta termos políticas de cotas se elas dificilmente serão preenchidas, por falta de capacitados. Temos que ter uma política de combate radical a evasão escolar e a repetência. Devemos estimular a criança desde cedo a ter contato com os livros; isto não é tão difícil quanto parece. Pegue por exemplo alguma de nossas vilas em nossas periferias, conte quantos bares e lancherias existem; se em vez de um boteco houvesse uma pequena biblioteca, mesmo com livros usados, e uma política pública que favorecesse isto, como conseqüência teríamos mais crianças gostando de ler e de estudar, pois na minha opinião a leitura estimula o aprendizado (comigo pelo menos funcionou, a mesma técnica eu aplico com o meu filho e os resultados estão começando a aparecer).
    Pode-se argumentar que em comunidades em que tudo falta e o poder público não se faz presente isto parece utópico, mas se outros conseguiram, porque não nós? Os outros a que me refiro são por exemplo a Coréia do Sul e Cuba. Citei apenas estes dois exemplos nos dois extremos ideológicos para ver que isto sim é possível.
    O que era a Coréia antes dos anos 60, um país que foi explorado implacávelmente pelo capitalismo japonês e apesar de tudo, com investimentos massivos em educação deu a volta por cima a ponto de liderar a corrida tecnológica e em certos aspectos da um baile até no Japão e nos EUA. Cuba então nem se fala, além de erradicar o analfabetismo é um dos países que mais forma profissionais de nível superior na América Latina; a ponto de ‘exporta-los’ para outros países exercitando uma outra faceta do seu sistema político – a solidariedade.
    Espero ter me feito entender e para não me alongar mais te deixo o meu endereço de e-mail se quiseres aprofundar a discussão e talvez gerar alguma ação mais concreta.

    Abraços,
    José Luís (e-mail devidamente copiado).

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