TRAJETÓRIA ACADÊMICA

Sei que posts “bife” são pouco lidos, mas confio no interesse da minha parca porém fiel audiência. Vou contar um pouco da minha história estudantil.

No final da 2ª série do 1º grau, a Tia Mara deu um livrinho infantil pra cada aluno na festa de fim de ano. No meu, ela pôs uma dedicatória: “Querido Hélio, essa ‘curiosidade’ que tens em aprender muito te valerá”.

O resto eu não lembro, pois, infelizmente, perdi o livrinho entre tantas mudanças e arrumações às vezes radicais no meu quarto. Mas isso ficou marcado e eu nunca esqueci.

Quando estava no IPA, no 2º ano do 2º grau em 1989, fui protagonista de uma peça de teatro que retratava a vida de um grupo de amigos da adolescência até mais ou menos 30-35 anos de idade. E eu acabei a peça como professor! ;)

Confesso que levei a graduação em Publicidade na FABICO/UFRGS nas coxas e que não me esmerei em dar continuidade em nenhuma agência. A profissão é muito legal, as técnicas, a criatividade… Mas eu não nasci para o meio corporativo. Sentia-me pressionado pra fazer um feijão com arroz que não me interessava, assim como deixei de enxergar a rotina de agência como uma eterna novidade.

Meu pai sempre dizia pra eu tentar um mestrado e entrar na vida acadêmica. Porém, seduzido pela midiatização da experiência de ser publicitário (espetacularização da função, glamour dos prêmios, perspectiva de um bom salário e até mesmo de uma certa fama), passei anos negando essa possibilidade.

Aos poucos, o óbvio foi tomando conta: eu precisava aprender sempre mais (ainda preciso, e precisarei sempre). Eu precisava que ler o que não havia lido. Ouvir o que ainda não havia ouvido. Discutir o que ainda não havia discutido ou, se já tivesse discutido um determinado assunto antes, que, daqui para a frente, aprendesse a fazê-lo de uma forma mais sofisticada, mais honesta, mais bem fundamentada.

Então, eu precisava de mais aulas, de professores melhores, de me preparar pra ter voz pra ajudar um monte de gente a desenvolver sua capacidade de livre arbítro, autonomia e, acima de tudo, senso crítico para não se tornarem meros escravos egoístas do sistema.

Sempre sonhei em me divertir, em me sentir útil, em me sentir gratificado, em não medir hora, lugar, clima ou momento pra fazer aquilo que sei fazer melhor, que me dê vontade de me aperfeiçoar cada vez mais e de não parar de aprender nunca e, de quebra, ainda ganhar dinheiro pra fazer isso!

Tudo isso fez com que eu passasse por diversos hiatos profissionais, já que ainda não havia despertado a consciência nem a iniciativa de procurar por um pós-graduação stricto sensu. Então, só a obrigação de ter que carregar um fardo, de ter que fazer de conta que eu acredito em sina ou em destino, em ter que cumprir obrigações nada prazerosas para as quais não conseguia enxergar vantagem alguma, aprendizado algum, resultado ou interesse algum, me puseram em depressão.

Perdi a confiança em mim mesmo, pois via meus amigos crescendo profissionalmente, ganhando bons salários, indo morar sozinhos ou casando, com dinheiro para viajar para o exterior, etc.

Aos poucos, comecei a sentir vergonha de mim mesmo. Comecei a me sentir fraco, incompetente, sem confiança. Estava fazendo um MBA em Marketing na ESPM que até me agradava, mas faltou dinheiro pra pagar, eu estava desanimado com as disciplinas de estatística e finanças e havia mandado diversos e-mails para o coordenador pedagógico pedindo emprego ou estágio e ele nunca havia respondido. Percebia que somente os colegas que já trabalhavam em empresas conhecidas ou com vendas eram ajudados pela Escola para melhorarem. Senti uma falta de apoio (que, provavelmente, não deva haver mais) justamente para quem estava começando ou tentanto mudar de área.

Em agosto de 2002, já fazia quase um ano e meio que eu tinha voltado do Rio de Janeiro, onde trabalhei na Globo.com. Eu estava fazendo freelas eventuais em web design, mas nunca fui bom em cobrar os clientes nem em oferecer o meu trabalho como autônomo. Era péssimo em redes sociais.

Todos esses perrengues devido à mecanicidade e à pressão social rumo ao bom-mocismo (por isso que, à exceção do trabalho social, sou mais Piquet do que Senna) fazem voltar aquela maldita estrofe da minha canção alter ego:

They put a hot wire to my head
Cos of the things I did and said
They made these feelings go away
A model citizen in every way
Your time has come your second skin
Cost so high the gain so low

Obviamente, isso lembra também The Clockwork Orange. Afinal de contas, o P.I.L. era uma banda do pós-punk inglês que bebeu na fonte da laranja mecânica de Kubrick. E, embora eu esteja longe de ser um apocalíptico, não sirvo pra macaco lobotomizado.

Na mesma época, meu pai estava morrendo de câncer no esôfago. Ele já não dizia quase coisa com coisa, não levantava da cama e era pele e osso.

Então, o Alex Primo – um eventual conhecido do Brasil Apple Clube (BAC) – me ligou. Ele havia lembrado que eu dissera que gostaria muito de dar aula. E falou pra eu enviar minha documentação ainda naquela semana para substituí-lo.

Pra minha felicidade, fui selecionado, até mesmo diante de outros candidatos ou com mestrado, ou com experiência profissional muito mais bem-sucedida do que a minha. Foi um começo interessante, pois eu deixei de ser aquele aluno pentelho que pedia pra fuçar nos Macs do LEAD pra ser mais um professor a utilizá-lo! :P

Tive turmas muito boas. Comecei apenas com duas noites e 12h/aula, nas disciplinas do Alex: Projeto Gráfico em Propaganda e Processos de Produção Gráfica. Mais adiante, peguei as duas turmas de Comunicação Visual, pois a profª Ana Cláudia Gruszynski também havia entrado em licença para concluir a sua tese.

Foi um ano muito bom, pois eu ia para a FABICO cedo, saía tarde, atendia a todos com o maior prazer e atenção, batia papo com os outros professores, com os funcionários, com os alunos… E acho que, embora ainda fosse muito “verde” e precisasse afinar muitos detalhezinhos, fico feliz por alguns professores com 20 anos de casa ou de mercado terem elogiado muito o resultado da avaliação prática das minhas turmas, pois havia muitos profissionais em agências com qualidade criativa e técnica inferior. Isso me encheu de orgulho! :D

Para poder ser contratado por qualquer universidade particular ou prestar concurso nas federais, precisava entrar no mestrado. Eu não sabia o que era ser um pesquisador acadêmico e nem como proceder. Afinal de contas, havia passado vários anos trabalhando como arte-finalista e como web designer. Nunca havia sido bolsista de iniciação científica na graduação e me formei antes ainda de existir algum programa de pós-graduação em Comunicação no RS.

Fracassei por não saber pedir ajuda para elaborar um pré-projeto de dissertação e também por não saber me defender da banca. E doeu bastante. Mas eu não desisti.

Pouco antes do meu contrato na UFRGS terminar, eu comecei a mandar e-mails e a fazer ligações para vários coordenadores de cursos de Comunicação. Sem título, tudo é muito difícil (hoje, é quase impossível). Consegui, então, através do Kiko, outro conhecido do clube de Mac, um contato que me deu a oportunidade de dar quatro turmas de Introdução ao Web Design na UNIFRA, em Santa Maria.

Lá, enfrentei problemas muito diferentes. Na FABICO, faltava material e dinheiro, mas sobrava inteligência, talento e capacidade de improvisação. Eu pedi muitos trabalhos para a gurizada mas, depois dos chios e dos choros iniciais, quase todo mundo saiu da disciplina com orgulho do que fez. Lembro até hoje dos rostos e dos nomes de pelo menos 80% dos alunos. Ou porque ainda cruzo com eles nos bares da Cidade Baixa, ou porque eles apareceram em eventos acadêmicos dos quais também participei, ou por causa do Orkut.

Já na UNIFRA, no 2º semestre de 2003, me deparei com a realidade de vários alunos menos maduros, que não tinham o hábito da leitura arraigado, que haviam estudado em escolas fracas e em um curso ainda no início. Confesso que não fui bom em saber lidar com muitos dos alunos e tive que mudar o processo pedagógico e de avaliação diversas vezes. Lá, tinha dinheiro, mas faltou contade política em investir em um laboratório de Macs que eu havia solicitado. Gostei muito da cidade, das irmãs, dos outros colegas professores. Mas, por aparecer lá somente um dia por semana e por participar de apenas uma reunião a cada duas semanas, não consegui nem me integrar ao ambiente como gostaria, nem que as pessoas me conhecessem melhor.

Bem… Cinco seleções na UFRGS, uma na PUCRS e duas na UNISINOS depois, finalmente consegui entrar no mestrado. Tenho colegas sensacionais, professores que considero os melhores do país e estou aprendendo um monte de coisas em apenas nove meses. Depois de tantas dúvidas em relação ao objeto de pesquisa e em relação a uma abordagem, acho que estou acertando a mão! ;)

A quem quiser trocar figurinhas, estou à disposição! ;)

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Um comentário em “TRAJETÓRIA ACADÊMICA
  1. Sandra disse:

    Muito obrigada pela referência bibliográfica , Hélio. Abraço, Sandra

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