POEMA ANTI-PUM GAUDÉRIO

Um comentário sobre “POEMA ANTI-PUM GAUDÉRIO”

  1. Precisamos definir o que é esquerda… Por exemplo, é de esquerda um partido que tem sua campanha financiada pelo dinheiro dos capitalistas? Historicamente os partidos de esquerda acabam sendo engolidos pela direita. Portanto, precisamos ser mais rígidos na utilização de nossos conceitos. Segue minha contribuição neste sentido.

    Sem conceituação não há revolução!

    Heitor Reis (*)

    Vamos tratar aqui, tu e eu, dos maiores e mais abstratos problemas dos revolucionários. Esta categoria é, em número, uma parte ínfima da população, lutando pela conscientização de uma correnteza desproporcional de conservadores das classes média, pobre e miserável, estes, inconscientes de sua condição como mera massa de manobra dos poderosos, os quais são, por sua vez, uma outra parte desprezível da sociedade, tanto no sentido moral, quanto percentual, insensível ao sub-produto resultante do lucro que lhes satisfaz a natural voracidade do ser humano.

    Um dos maiores, senão o maior motivo pelo qual a revolução socialista, que defendo como sendo duradoura apenas se pacífica, caminha tão lentamente ou retroage muito facilmente e com enorme freqüência, é porque há uma grande dispersão da pouca energia empregada por uns pobres gatos pingados em tal tarefa.

    Também defendo que a única revolução possível somente pode ocorrer dentro de mim e de ti, sendo conceitual (ou cultural, como diria Mao-Tze-Tung), conversão a uma idéia de mundo que contemple permanentemente a existência e a necessidade do outro, gerando a empatia, solidariedade, cooperação, fraternidade, igualdade, a liberdade, e até o amor em seu sentido mais elevado, como o defendem os cristãos verdadeiros e similares, outra preciosa raridade.

    Assim, reconhecer-se egoísta, mesquinho, totalitário, prepotente, arrogante, dogmático, etc., etc., etc., é condição sem a qual jamais estaremos no caminho de nos livrarmos de tais qualidades, ou melhor, defeitos.

    Mas, como todos os revolucionários acreditam já ter superado esta fase, coisa que duvido, ou melhor, a realidade nos mostra que isto ainda está muito longe de acontecer, na medida que conseguem se enganar a si mesmos e/ou apenas aos seus liderados, quando chegam mais perto do poder e se tornam cópias róseas, leves (“lights”, para os colonos idiomáticos do império anglo-saxão-judáico-protestante) e neo-socialistas, candidatando-se a lacaios da elite capitalista, vamos para o próximo passo, assim mesmo.

    Então, a coisa mais difícil é um verdadeiro revolucionário permanecer coerente com seus princípios até o fim e, mais ainda, chegar a alcançar algum naco do poder de fato, pois dificilmente negociará, para tanto, o que a maioria de seus ex-companheiros, mais flexíveis e realistas, porém, menos idealistas, conseguem. Assim, a frustração quase que fatalmente irá superar a esperança.

    Tudo isto porque, durante o processo de construção do suposto caminho para a revolução, a grande maioria destes gatos pingados, ansiosa e maquiavélica, não teve interesse em e nem tempo para melhorar a qualidade dos debates sobre os conceitos fundamentais que utilizam, preferindo a quantidade de militontos, a velocidade no processo e alcançar o poder a qualquer preço.

    Caso ocorra de lá se instalar, em função da incapacidade de realização de um projeto comum sobre definições tão gelatinosas, quando não a serviço do poder econômico, faz-se necessária a eliminação política ou física da maioria dos líderes mais desafinados da revolução, até prevalecer o ponto de vista de um grupo deles, normalmente composto pelos mais espertos e ativos, menos reflexivos e democráticos.

    Assim, hoje, cada um tem uma visão diferente e inexprimida definição do que seja, por exemplo, uma democracia, inclusive e geralmente, pouco interessando se o povo governa ou não, se a eleição sofre influência do poder econômico particular e estatal ou não, para aplicar este conceito em seus propósitos aparentemente salvacionistas. Não são capazes de perceber que uma “democracia popular” (governo do povo com o povo) implica numa redundância ou pleonasmo e na existência de uma outra, uma “democracia impopular” (governo do povo sem o povo), coisa absolutamente absurda e contraditória, caso consideremos que, se o povo governa realmente, como o termo determina etimologicamente, ele jamais consideraria impopular aquilo que determinou como ação de seu próprio governo.

    Outros, frustrados e indignados com o sistema de governo atual, criticam a democracia representativa como algo abominável, ainda que não haja como exercer uma democracia direta no momento, já que a ciberdemocracia também seria elitista (poucos tem acesso à internet) e nossos políticos jamais legislariam contra seus próprios interesses e dos financiadores de suas campanhas eleitorais, valores que boa parte dos partidos que se dizem de esquerda tanto anseiam, sem reação explícita e considerável de seus membros, capaz de evitá-lo. Querem financiar a revolução com o dinheiro do patrão! Ou se locupletar…

    Pergunta-te, solenemente, amigo, por que um banqueiro financiaria um partido que realmente pretenda acabar com o livre mercado, com a propriedade, com a “mais valia”, etc.?

    Uma democracia verdadeiramente representativa seria aquela em que os representantes respeitam a vontade de seus representados, coisa que está muito longe de ocorrer no Brasil, a menos que os consideremos como legítimos representantes de grandes banqueiros, industriais, ruralistas, comerciantes, etc., os quais lhes financiaram a campanha.

    Raros são os que fazem distinção entre a democracia formal, rezada na Constituição Federal, e a democracia real, inexistente, na prática, onde impera o governo dos ricos (plutocracia) e dos corruptos (cleptocracia), nada mais nada menos que uma ditadura dos ricos sobre os trabalhadores, como sempre, ora militar, ora civil.

    Considerando o baixo grau de alfabetização plena do povo brasileiro (26 %), a alienação geral decorrente deste fato e de nossa cultura mesomilenar de dogmatismo monárquico e papista, a revolução verdadeira, feita pela reforma interior destas pessoas fica num horizonte utópico que Galeano levará algumas longas gerações para alcançar, coisa que Hugo Chávez vem demonstrando, na prática, como acelerar.

    Isto porque os ricos não são nada bobos e se o fossem seriam pobres como seus explorados, conseguem equilibrar a revolta latente no seio da classe operária, fornecendo sempre alguém que lhes dê a esperança ou o medo da mudança, conforme a conveniência do momento, gotejando migalhas de pão e de circo, para satisfação da massa ignara.

    Dentre muitos outros, um conceito que precisaria ser melhor determinado também é o de esquerda… Como qualquer um pode constatar, tal condição de salvador dos pobres dá voto e muito voto, desde que seja meramente festiva e inofensiva, coisa que todos querem ser explícita ou veladamente, sendo que o poder, após adquirido, lhes anestesia as mentes, passando a ser um governante como outro qualquer que tenha lhe antecedido, com raríssimas exceções. Tu já viste algum candidato ou partido proclamar-se como sendo de direita, quando, na realidade, quase todos o são, na prática?

    Outro problema é que, por falta de consciência destes conceitos, os líderes não são devidamente fiscalizados por seus liderados, podendo aqueles fazer o que bem entendem, adotando a mesma tática da direita, tendo-os como uma doce e ingênua massa de manobra, participando das reuniões das entidades às quais pertencem apenas como ouvintes, sacramentando decisões que não entendem. A democracia tem sido, geralmente, apenas um feixe de capim que se utiliza para conduzir os burros para a direção desejada na ocasião. Um belo discurso sem nenhum compromisso com a realidade.

    Assim, faz-se necessária a construção de algo como um pequeno dicionário da revolução, fruto de um esforço coletivo, onde todos pudessem se reportar, para manter os militantes coerentes com coisas tão simples e fundamentais como os conceitos que utilizam para se expressar na construção de um mundo melhor, o qual jamais será possível, caso não utilizemos de definições também melhores. Pessoas melhores também são fundamentais, claro!

    Superada esta fase, o próximo passo seria a aplicação destes conceitos devidamente especificados na adoção da técnica mais simples de planejamento, exigindo que dignostiquemos precisa e profundamente a situação em que nos encontramos no momento e determinemos claramente uma outra para a qual desejamos caminhar, bem como o trajeto a ser percorrido, seu custo, nossos recursos, os obstáculos a serem superados, quem será responsável por cada mínima etapa do processo, etc. Tal técnica, por mais elementar que seja, se apropriada pelos revolucionários e aplicada convenientemente, poderá evitar ainda mais dispersão das minguadas forças progressistas. E o pior: a incoerência, o auto e o alter-engano.

    Caso contrário, fica tudo do jeito que está ou vai piorar ainda mais!…

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