ARENA: DEBATE GRÊMIO IMORTAL E UNIDO

Na noite de quinta-feira, 25/09/2007, assisti a um debate na Associação dos Delegados de Polícia Civil do RS nas imediações do Estádio Olímpico, com os (agora eleitos) candidatos ao Conselho Deliberativo pela Chapa 3 Grêmio Unido e Imortal engº Paulo Roberto Ferrer, arqº Debiagi e consultor financeiro Roberto Sommer para explanar ao associado tudo o que eles pensavam e sabiam sobre a Arena.

Debiagi disse que não há espaço urbano disponível para realizar um novo estádio de futebol no município de Porto Alegre que não seja no Humaitá. Toda a zona sul de Porto Alegre ainda não-urbanizada conta com muitos morros, sem nenhuma área suficientemente extensa para abrigar um empreendimento desse porte.

Afirmou ainda que, inevitavelmente, Porto Alegre terá metrô. O Trensurb tem previstas conexões com novas linhas e estações que ainda não existem. Contudo, não há como saber se, até 15/09/2011 (período sugerido até o momento para a conclusão da arena), essas instalações estarão disponíveis.

O segundo debatedor, Roberto Sommer, disse que, quando o Grêmio estava em uma situação de penúria bem pior do que a atual (no 2º semestre de 2004), ele procurou, na sua ampla e polpuda rede de contatos, alguma solução através de fundos de investimento para tentar encontrar alguma solução para a impagável dívida do clube. Isso foi lá pelos idos do final de 2004.

Nenhum de seus contatos em banco algum e em fundo de investimento algum (inclusive no exterior) deu crédito ao Grêmio.

Quanto a outras alternativas de resgate financeiro do clube, publicamente, nada se sabe a respeito. Mas a primeira POSSIBILIDADE tecnicamente estudada (note bem: possibilidade não é sinônimo de solução) foi sugerida pelo próprio Sommer. Ele propôs a venda da área da Azenha para pagar dívidas e a construção de um novo estádio em outro lugar, bancado por investidores. Segundo esse modelo, para o Grêmio não precisar pagar os credores com o dinheiro destinado à viabilização da parceria e demais custos, deveria abrir uma empresa “laranja”. Tudo com base na lei.

Meses depois, já em 2005, Sommer entregou a proposta aos cuidados da direção e do Conselho. Naquela oportunidade, o estodo foi arquivado.

O engenheiro Paulo Roberto Ferrer afirmou que o Grêmio nunca teve uma gestão de patrimônio capaz de fazer com que o desatualizado, defasado, desconfortável e pouco seguro Estádio Olímpico Monumental chegasse ao ponto em que chegou. Tecnicamente, o especialista explicou que todo aparelho precisa de manutenção constante, pois ele começa a se deteriorar no exato momento em que sua construção estiver concluída. É preciso haver uma política de manutenção, a fim de fazer com que a vida útil do aparelho dure mais tempo do que o esperado e um plano diretor.

Das quatro etapas da manutenção, a mais básica e corriqueira é a troca de lâmpadas, instalação e conserto de interruptores, torneiras, etc. Em uma situação ideal de povo educado e responsabilidade judicial, não deve haver depredação do equipamento. Ao mesmo tempo, há o desgaste contínuo em função do uso sistemático. Como meu pai também era engenheiro e me ensinou muitas coisas, das quatro etapas de manutenção, a restauração é a mais cara e a que mais toma tempo. Ela exige que se refaça a estrutura, que é a parte que dá segurança e robustez à obra. Isso requer a substituição de vigas de concreto, cobertura, degraus, etc.

Há, ainda, as obras não-estruturais, cujo objetivo é proporcionar ou maior conforto, ou alguma economia, ou divisões de espaços no anel externo a fim de obter maiores receitas através do consumo, além de melhorias necessárias e atualizações tecnológicas e de atendimento ao torcedor-consumidor e ao atleta.

Também enfatiza que a futura Rodovia do Parque não passará perto da Arena, assim como a área alagadiça perto da FIERGS exige um investimento muito mais alto e o acesso via Assis Brasil favorecerá engarrafamentos bastante extensos.

Para ele, a área da Azenha é privilegiada em termos viários, pois há avenidas dispostas de forma radial ao seu redor, possibilitando chegadas e saídas de e para várias regiões da cidade (zonas sul, norte, leste e Centro). Disse, ainda, que o tradicional adversário está mal servido, pois fica no caminho rumo à zona sul e possui apenas uma avenida de chegada e saída.

Especialista em rodovias, Ferrer disse que não há como a Arena ser construída grudada na BR-116 ou mais próxima do caminho rumo à Freeway, pois as entradas e as saídas do fluxo da e para a cidade em direção a ambas as rodovias possuem poucos pontos, que são bem determinados.

Contudo, ele lançou várias ressalvas:

a) Düsseldorf, uma pequena cidade alemã cuja área metropolitana possui população e área semelhantes às de Porto Alegre (1,35 milhão de habitantes distribuídos em cerca de 480 Km2), possui um estádio moderníssimo, duas torres de salas comerciais de 26 andares, outras duas torres com um dos maiores hotéis Sheraton da Europa e um shopping center com o dobro do tamanho do Shopping Iguatemi. No entanto, não dá pra comparar o salário da classe média alemã em euro;

b) A Kyocera Arena do Clube Atlético Paranaense aumentou muito o preço dos ingressos e a média de público caiu vertiginosamente. O conceito de “arena multiuso” consiste na utilização do estádio para shows. Todavia, o Atlético-PR sediou seis shows no primeiro ano, dois no segundo, um no terceiro e agora, nestes nove meses de 2007, NENHUM EVENTO;

c) O faturamento médio de cerca de £380.00 mensais do Arsenal em cada assento no Emirates Stadium só é possível porque o salário médio do inglês é de cerca de £2.000.00, já descontados os impostos (fonte: designer Caco Vaccaro, residente em Londres).

Falando não como técnico em malhas viárias mas, agora, como torcedor, Paulo Roberto Ferrer apresentou recortes de jornais do final de 2006, onde mostrou-se extremamente desconfiado: quanta coincidência! Ninguém havia sequer mencionado fora do Conselho Deliberativo a proposta da arena apresentada por Sommer. O clube não estava procurando ninguém para fazer os primeiros estudos – aqueles mesmos estudos fundamentais citados pelo arquiteto Debiagi (econômico, ambiental, jurídico, governamental).

O momento forte da fala do engenheiro Ferrer foi quando afirmou sentir-se muito preocupado desde o final de 2006, quando vazou o assunto da arena na imprensa. Ferrer considera tal manobra como uma maneira de criar um fato novo na mídia naquela época, a fim de abafar o ano impressionante de 2006 do tradicional adversário.

Todavia, sua preocupação aumentou ainda mais quando viu que o excelente plantel do Grêmio de 2006 estava sendo desmantelado e, ao invés de ouvir seu presidente dizer que iria tentar manter vários dos jogadores (citou Rômulo, Rafinha, Hugo, Geovânio, Herrera, dentre outros), responsáveis por uma campanha inacreditável para quem recém havia voltado da Série B, continuava o papo sobre a arena.

Comentou ainda o fato de, já em 2007, Odone ter dito após um jogo no Olímpico que, quer queiram ou não, “a arena vai sair de qualquer jeito”. Esta é uma postura, na minha opinião, avessa ao debate, pois demonstra não tolerar uma opinião contrária nem mesmo como forma de construir um clube melhor para todos. Trata-se de uma prática autoritária lamentável.

Com isso, o conselheiro Cacaio pediu a palavra e leu os principais pontos da ata de uma reunião do Conselho Deliberativo ocorrida em maio de 2007. Para espanto geral de todos os conselheiros presentes, vários dos pontos relacionados à Grêmio Empreendimentos S.A. (empresa responsável pela administração do empreendimento do novo complexo) lavrados no documento não haviam sido debatidos na reunião. Portanto, segundo as palavras de Antônio Carlos Azambuja, na calada da noite, alguém teria lavrado a ata com tópicos que sequer haviam sido discutidos em relação à Grêmio Empreendimentos.

Todos os já conselheiros do Grêmio, presentes ou não à reunião de maio, que estavam presentes no debate, ficaram estupefatos. O que todos haviam entendido era que haviam tão-somente autorizado a existência da empresa Grêmio Empreendimentos e que seus termos e a parte que caberia ao clube seria determinada a partir de um estudo jurídico e que seria uma etapa posteriormente posta para apreciação do Conselho Deliberativo (CD).

Dentre os trechos lidos pelo conselheiro Cacaio, uma enorme contradição e uma série de interrogações. Por exemplo: primeiro, a Grêmio Empreendimentos será ou uma sociedade anônima, (SA), ou outro tipo de pessoa jurídica/econômica qualquer de acordo com a situação, com a necessidade, com o(s) investidor(es). Segundo, que a Grêmio Empreendimentos pertencerá integralmente ao Grêmio (50% +1). No entanto, mais adiante, fala que a Grêmio Empreendimentos poderá mudar de nome, ser adquirida total ou parcialmente, fundida ou extinta com o andar da carruagem!!!

O consultor Sommer então comentou que as reuniões do CD do Grêmio em 1999/2000 sobre a parceria com a ISL tiveram exatamente o mesmo caráter, isto é, de falta de informação e de atas redigidas após a reunião.

Dada a falta de crédito e a insolubilidade da dívida tricolor, Sommer deu a entender que UMA DAS POSSIBILIDADES de alguém investir mais de 500 milhões no Grêmio seria através de dinheiro não-declarado.

Observem bem: isso não é suspeita sobre ninguém nem confirmação de absolutamente nada. É a opinião de um técnico experiente, cuja função é a de fiscalizar e de prevenir a todos dentro do clube contra tal possibilidade. Tomara que tudo esteja muito bem encaminhado em relação à captação de recursos. Mas isso só será sabido assim que o projeto for efetivamente posto para apreciação do Conselho Deliberativo.

Sinceramente não vi, em nenhum momento, nenhuma ameaça política ou pessoal nem ao projeto da Arena do Grêmio, nem a quaisquer integrantes do Conselho de Administração do clube. Daí, ficou muito chata a ameaça do presidente Odone em renunciar. Afinal de contas, a maior preocupação que eu percebi no debate era muito mais no sentido de evitar que o clube cometesse um erro grave do que o de responsabilizar alguém.

Paulo Roberto Ferrer acrescentou lendo uma matéria do Terra sobre o caso Corinthians, onde citou o trecho que diz que o russo Boris Berezovsky (dono da empresa MSI, representada pelo testa de ferro Kia Joorabchian) utilizou o futebol apenas para entrar no Brasil. Segundo a matéria, ele estaria interessado em investir no mercado financeiro, no agronegócio, no biodiesel e…

…Já que o futebol não deu certo no Corinthians e que a Arena do Grêmio envolve um gigantesco esquema financeiro para ser erguida sob termos explicados segundo a ata da reunião do CD de maio último, caso a condução de todo o processo não seja competentemente fiscalizada, o clube corre, sim, riscos financeiros e de credibilidade bem mais graves do que o que verificou-se no caso ISL.

Pessoalmente, não considerei isso nem excesso de alarmismo, nem pessimismo, nem tampouco um argumento eleitoreiro barato: afinal de contas, é preciso, sim, ponderar. Ponderar bastante.

Intervenções menos importantes: o jornalista e agora conselheiro eleito Fernando di Primio viajou recentemente para Lisboa e disse que o Grêmio é maior do que o Sporting e poderia muito bem crescer a partir da construção de um estádio e de um entorno tão belos e lucrativos quanto o estádio José Alvalade.

Outro associado (também provavelmente conselheiro ou candidato na chapa 3), vinculado à FIERGS, disse que a sede da FIERGS era no Centro e que muitos disseram que não iria dar certo lá na Assis Brasil, uma região de banhado próxima ao terreno que um empresário afirma que doará ao Grêmio desde que o Grêmio invista nas devidas benfeitorias. Ele ressaltou que o Teatro do SESI é altamente lucrativo e que a entidade cresceu muito com um novo centro de convenções.
Diante das informações acima, toda a oposição responsável, construtiva e com conhecimento técnico e político apurados é extremamente bem-vinda. É muito dinheiro envolvido e uma quantidade imensurável de interesses. Sei que não é possível acusar ninguém nem agourar o esforço necessário para erguer o empreendimento. Contudo, cautela e canja de galinha não fazem mal a ninguém.

Justamente por causa desse episódio, o clube está dividido. No entanto, toda oposição responsável, madura e atuante é sempre muito bem-vinda. E todas as articulações da situação que ocorram com excesso de otimismo e de confiança em terceiros precisam ser analisadas com muita, muita parcimônia.

Mas a divisão no Grêmio só é forte durante o período eleitoral. As diferenças ideológicas, profissionais, de personalidade e de capacidade de gestão entre todos acaba sendo minimizada com o andar da carruagem.

Nesse ponto, não sei se isso é positivo ou não.

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2 comentários em “ARENA: DEBATE GRÊMIO IMORTAL E UNIDO
  1. […] de qualquer treinador competente, consagrado ou dos sonhos da torcida tricolor, está a nossa PENÚRIA FINANCEIRA (+ AQUI). Tudo o que consideramos falho em nossos jogadores permanecerá falho enquanto nossas […]

  2. […] DO ESTALEIRO, mas concordo com ele em relação ao GRÊMIO) e Paulo Roberto Ferrer. Estranhamente, aquela combatividade e a oposição que a chapa GRÊMIO IMORTAL E UNIDO ofereciam naquele pleito e que me convenceram a votar neles foi parcialmente perdida: na época, para mim, eles ainda […]

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