Comunicação, papel do Estado e das empresas

A Têmis publicou no Alma da Geral (dela e do Guga) a transcrição de duas “notícias” de uma rádio popular do Rio Grande do Sul e um spot (comercial).

Definitivamente, não interessa nem à mídia (nem ao estamento dominante que banca essa mídia) cumprir a função social de INFORMAR e de COLABORAR NA EDUCAÇÃO da audiência.

É um lucro muito fácil, sem o menor esforço técnico ou jornalístico. Qualquer mané pode desenvolver muito rapidamente a competência necessária para “comunicar” esse tipo de papo que não informa, não entretém, não engrandece, não produz diferença nenhuma na vida de ninguém.

Pergunto: se a mídia – em tese – deveria traduzir o discurso dos outros campos sociais para que a sociedade laica tenha acesso às discussões que esses campos pretendem pôr em pauta a fim de tornarem-se reconhecidos e de proporem discussões temáticas em um sentido mais amplo, por que diabos investe-se tanto nesse prejudicial emburrecimento da população?!

Tanto as grandes empresas brasileiras como as multinacionais queixam-se de que a escolaridade do brasileiro é tão fraca que, mesmo com o ensino médio completo, são muito poucas as pessoas capazes de tomar decisões por si próprias sem depender de seus chefes ou gerentes o tempo inteiro. Simultaneamente, há imensa dificuldade em ler, interpretar, escrever, falar e compreender a mensagem ouvida em português do Brasil, idioma oficial do país, exaustivamente visto e revisto em pelo menos 12 anos na escola.

A ignorância mantém mais de 50% da população deste enorme país sobrevivendo dura e bravamente com reles R$800,00 mensais ou menos. De um lado, o Estado não pode cumprir com grande parte de suas diretrizes porque ou falta dinheiro, ou parte significativa da verba disponível no orçamento para investimentos em educação, saúde, infra-estrutura, segurança e financiamento empreendedor é desviada ou para outros fins, ou para a corrupção. Por outro lado, as empresas e os cidadãos que jamais correrão o risco de empobrecer crêem que fazem muito pelo país ou gerando emprego, ou pagando impostos.

A responsabilidade social e o desenvolvimento ecologicamente sustentável são iniciativas mais do que elogiáveis: são fundamentais, são condições sine qua non para a sobrevivência da espécie humana neste planeta. As empresas e as pessoas físicas que pensam e agem com este intuito não passam de raríssimas e honrosas exceções.

Diante desse impasse, a sociedade midiatizada passou a ver não mais no espaço público mas, sim, na tela da TV, nos textos impressos de jornais e revistas e na voz do locutor de rádio, um espaço de discussão política e de reivindicação de suas demandas.

As empresas que não praticam responsabilidade social ou filantropia até possuem vontade de ajudar. No entanto, teria que ser sob as suas diretrizes. Teria que ser de acordo com a visão que elas têm da sociedade. E a visão predominante nesse meio é a de que se eles próprios precisam arcar com a formação de suas futuras gerações de funcionários, logo, a visão de mundo pregada em todas as disciplinas escolares deve ser necessariamente a visão neoliberal do capitalismo.

Os defensores dessa idéia pregam que tanto nas escolas como nas faculdades dos cursos relacionados ao ofício necessário para o ingresso nass grandes empresas deve-se impor uma visão não plural e sequer questionadora do sistema, ao mesmo tempo que dizem que o Estado não forma pessoas questionadoras e dotadas de autonomia, pois é isso o que as empresas precisam.

Ora, ora: desde quando formar alguém para ler sempre as mesmas revistas e para ter uma visão única é prestar um serviço à sociedade?! O serviço, nesses moldes, não envolve responsabilidade social mas, sim, uma espécie de contrato social, onde quem é formado pelas escolas patrocinadas pelas empresas deve sentir-se grato e precisa formar a sua personalidade e o seu modelo de prosperidade moldado nos objetivos dessa empresa.

Quero deixar claro que não sou contra a iniciativa privada e que vejo os governos como um todo atuando de maneira muito falha nas questões sociais. Todavia, se uma sociedade totalitária a partir do estado é nociva, uma sociedade liberal a partir da possibilidade de as empresas darem todas as cartas é mais perigosa ainda.

Dessa forma, é preciso pensar em várias gerações de brasileiros que estão excluídas. É necessário saber que, ao invés daquilo que a oligarquia prega, o número médio de filhos por mulher no Brasil é, atualmente, de apenas 2,3, sendo que dois filhos por mulher é apenas a taxa de reposição da população, sem crescimento – ainda mais que a explosão populacional no Brasil deu-se entre as décadas de 1950 e 1980 não apenas nas camadas mais baixas da população. A grande maioria das mulheres que possuem o ensino médio (não precisa nem ser superior) não pensam em ter filhos ou, no máximo apenas um filho.

Então, a visão elitista de que deve-se fazer ligação de trompas compulsória nas exceções que ainda geram muitos filhos é não apenas inconstitucional mas, sim, extremamente reacionária, pois eles não se importam se as pessoas serão ou não pobres mas, sim, que a pobreza afaste-se cada vez mais deles.

Enfim, há mais quesitos a serem abordados neste tema.

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