Imposto Único: uma grande fria

Hoje de manhã bem cedo, acordei e li o e-mail de um cidadão não-identificado que atende pela alcunha de “o desburocratizador”. Para mim, o nome verdadeiro e uma breve apresentação do interlocutor é fundamental para estabelecer pontos de concordância ou de discordância, a fim de ver se vale a pena ou não estabelecer um diálogo.

Ele me levou a entender que acha que a mídia é responsável per se por todas as mazelas sociais. Mais adiante, conclamou a todos os leitores de sua mensagem para que fizessem uma mobilização pelo imposto único.

Abaixo, a íntegra da minha resposta, ilustrando claramente a minha posição.

“Caro Desburocratizador,

Em primeiro lugar, não costumo responder a e-mails cujo remetente não se identifica com seu nome verdadeiro e não faz uma breve apresentação pessoal como, por exemplo, idade, profissão e um resumo do que pensa sobre temas que considero hiper relevantes para a discussão política, econômica e social, tais como: privatizações, educação, saúde, reforma política, política internacional dos EUA, pena de morte, solidariedade e ecologia.

Pode parecer muito, mas é a única forma de se estabelecer pontos de concordância ou de discordância suficientes ou para a divulgação de idéias semelhantes, ou para um debate sério e responsável.

Eu não tenho medo e nem vergonha de dar o meu nome, até porque tenho um blog onde escrevo quase diariamente sobre esses temas: https://heliopaz.wordpress.com/

Sobre a sua mensagem, como professor e pesquisador em Ciências da Comunicação <http://www.unisinos.br/ppg/comunicacao/index.php?option=com_content&task=view&id=38&Itemid=121&menu_ativo=active_menu_sub&marcador=121&gt;, tenho informações sólidas o suficiente para, no atual momento, discordar de algumas das tuas afirmações.

Jamais poderia considerar-me o dono da verdade. Além disso, é impossível desvalorizar a tua opinião. Contudo, posso argumentar de maneira contrária a alguns preconceitos e afirmações simplistas que têm relação direta com crenças e valores arraigados que poderão ser modificados caso estejas interessado em ampliar o teu leque de conhecimento.

Em primeiríssimo lugar, a mídia de massa (TV, rádio, jornal, revista e grandes portais de conteúdo na internet), ao mesmo tempo em que influencia o público ao transmitir ou publicar diversos juízos de valor que interessam aos seus donos, aos seus patrocinadores (indústrias multinacionais que carregam seus lucros para o exterior e geram empregos de 3ª categoria; conglomerados dispostos a pagar barato pelo patrimônio público e a vender muito caro por serviços essenciais à população; banqueiros, latifundiários e políticos que fazem lobby para empresas que destroem o meio ambiente, entre outros), também é influenciada pela sua própria audiência.

Sou contra alguns colegas que dizem que não adianta eu querer que a TV transmita concertos de música clássica e shows de rock se o “povão” só quer saber de pagode, axé, sertanejo e funk. O resultado do (na minha opinião, mau) gosto predominante é a falta de sensibilização musical desde a pré-escola; da falta de aulas de música desde o 1º grau; da péssima alfabetização e da exclusão do ensino de filosofia, sociologia e psicologia das escolas.

Este é o cerne da questão: educação é tudo. Nenhum país é desenvolvido o suficiente quando há interesse em manter grande parte da população excluída de condições mínimas de sobrevivência para, a partir daí, poder caminhar pelos próprios pés com a segurança de saber que jamais deixará de ter um teto pra morar, comida no prato, água para beber e se banhar, saneamento básico para não contrair doenças ridículas e graves e transporte público de qualidade e barato para poder trabalhar e estudar descansado.

Toda e qualquer ação reacionária, revanchista e simplista movida pela emoção ou, simplesmente, por uma vontade de pagar por menos impostos, esbarra na real capacidade de investimento e de endividamento do Governo.

Por que o imposto único não é uma solução plausível? Por várias razões:

a) Eu não fumo, não bebo e não sou obeso. Logo, a chance de eu precisar de medicamentos caros, tratamentos médicos prolongados, transplante, cirurgia e de ficar muito tempo em licença do trabalho por problemas pulmonares, hepáticos, cardíacos e cardiovasculares é relativamente pequena. Contudo, um indivíduo obeso, fumante e que gosta de beber em abundância (até mesmo que este não seja necessariamente um alcoólatra) deverá gastar muito mais dinheiro do SUS do que eu. Portanto, os principais causadores dos males que afligem a este indivíduo doente (cigarro, álcool, alimentos gordos, doces, pobres em nutrientes e supérfluos) devem mesmo ser sobretaxados em 200%, 100%, 50%. Além disso, os lucros dos produtores dessas indústrias é absurdamente alto, se comparado com o lucro EXCELENTE (coisa que empresário brasileiro não entende) de 3% ou 4% da indústria honesta, que permite a esse empresário manter o seu negócio com folga e levar um padrão de vida bastante elevado.

b) A cada R$3,00 arrecadados pelo Governo Federal, R$1,00 vai para o pagamento de juros da dívida externa que, na realidade, já foi paga há muito tempo. Portanto, 1/3 ou 33% de cada centavo que a Fazenda arrecada infelizmente está comprometido com uma dívida da qual o Brasil não pode escapar e que, ao mesmo tempo, já foi paga. Caso aquela proposta irresponsável que o Jô Soares defendia na TV de 1% de imposto único fosse aprovada, o país quebraria, pois o Governo não arrecadaria sequer 5% do montante necessário para fazer este país começar a andar;

c) Se o argumento a favor do imposto único é evitar a sonegação e as falências, é uma maneira um tanto fácil de tirar o cu da reta. Primeiro, porque basta o governo fiscalizar e não dar incentivos fiscais a quem não precisa; segundo, porque não é por 1% ou 35% de imposto que uma pessoa vai deixar de ser sonegadora ou corrupta: o hábito faz o monge. Logo, quem não pagava antes, continuará não pagando agora, enquando quem roubava antes, permanecerá roubando agora. Terceiro, a maioria das pequenas empresas quebram em menos de cinco anos porque as pessoas se desesperam para serem donas de seus próprios narizes sem sequer analizar a economia do país, a quantidade e a proximidade de seu público-alvo, quanto seu concorrente cobra, como oferecer um produto ou serviço de melhor qualidade por um preço justo para o consumidor e, ao mesmo tempo, seja capaz de ampliar o seu negócio e proporcionar-lhe uma boa condição de vida, mas sem abuso nem ostentação. Quase ninguém que quebra estudou Administração, ou obteve sucesso na sua área profissional como experiência, ou procurou aconselhar-se com gente mais experiente, ou procurou analisar com inteligência e com paciência a sua capacidade de investimento e de endividamento para saber em quanto tempo o negócio irá começar a render, raramente vai atrás do SEBRAE, do SENAC ou do SENAI para aprender devidamente o ofício. Sequer sabe o que é marketing. Enfim, a maioria dos negócios no Brasil só não vinga por ignorância. Não é culpa dos impostos, assim como a corrupção e a sonegação não são culpa da quantidade de dinheiro que se deve pagar para que o Estado arque com a infra-estrutura do país.”

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Publicado por heliopaz

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