A ESQUERDA PÓS-MODERNA

2007 Dezembro 10
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by heliopaz

Dada a recorrência da dificuldade da esquerda gaúcha ser respeitada, reconhecida e, fundamentalmente, de poder mostrar trabalho, resultados e despertar conscientização através da cidadania e da informação correta, torna-se fundamental conhecer três livros bastante atuais:

1) MULTIDÃO, de Antonio Negri e Michael Hardt: eles falam em uma revolução descentralizada e desinstitucionalizada EM REDE. Como exemplo, citam Chiapas (fora da internet) e eu cito o protesto contra o presidente filipino que convocou uma multidão de pessoas em frente ao palácio do governo local através de torpedos via celular.

2) EMERGÊNCIA, de Steven Johnson: fala de reações midiáticas e sociais em função das brechas no controle do agendamento dos patrocinadores e dos técnicos da mídia corporativa que podem ser exploradas, de tal forma que uma contra-informação gerada via internet, rádios comunitárias, pequenas emissoras de TV sem nenhum vínculo com as grandes redes e outras formas de mídia alternativa seja capaz de gerar uma reação inesperada sobre quem pensa que detém o controle sobre tudo e sobre todos.

3) LINKED, de Albert-Laszló Barabási, fala sobre teorias de redes sociais. Dentro ou fora da internet, todas as pessoas, animais e plantas, ou seja, todos os seres da biosfera terrestre estão conectados. Há laços fortes, íntimos, locais, profissionais, organizacionais, clubísticos, de lazer, educacionais, etc. que formam os clusters. Mas a grande importância dessa teoria é que a sobrevivência e a satisfação de demandas sejam elas individuais ou coletivas (sejam elas ‘boas’ ou ‘más’) dependem inexoravelmente de saber estabelecer uma REDE DE CONTATOS.

Apesar de Linked não ter sido traduzido para o português, todos os três livros devem ser multiplicados através de palestras e de cursos dentro de todos os movimentos sociais, cooperativas, ONGs e escolas.

Bem dizendo, a direita não pode jamais ser ignorada pela esquerda e nem tampouco a esquerda pode isolar-se da direita. Feliz ou infelizmente, uma depende da outra não apenas para afirmar-se ideologicamente mas, sobretudo, para governar. A direita, em determinados momentos, precisa dar breves socializadas a fim de manter-se no poder. A esquerda, por sua vez, raramente conseguiu, em estado de conscientização cidadã e honesta, obter, em média, mais do que 30% de simpatia. Ao que parece, esquerdistas fiéis não passam de 15%, dos quais 5% são completamente ignorantes e cegos, assim como a extrema direita.

Portanto, queiram ou não, é decisivo, sim, para o Brasil, que o PT, o PSB, o PC do B e os tradicionais aliados que compõem a Frente Popular trabalhem em conjunto e dialoguem com a direita. Porém, deve-se, acima de tudo, ter a plena consciência de que a inevitável troca de favores entre duas tendências ideológicas antagônicas reside necessariamente na obrigação que a esquerda tem de poder exercer plenamente o governo que foi eleito pela maioria da população e que essa esquerda deve compensar enormemente suas medidas anti-populares, anti-sociais e anti-ecológicas para satisfazer seus “aliados” trabalhando cada vez mais pelo povo.

Dessa forma, acordos e jogos de interesses políticos são normais e importantes. Essa é a grande brecha da democracia presidencialista, que não é uma brecha pequena: afinal de contas, tais manobras não diferem em nada do que verifica-se na monarquia, no parlamentarismo ou na ditadura.

Então, o que NÃO pode ser aceito de maneira alguma? Trocas de partidos e de domicílio eleitoral; coligações eleitorais fora do espetro ideológico do partido principal; compras de votos; tráfico de influência; obras superfaturadas; licitações fraudulentas; criminalização dos movimentos sociais; depredação do meio ambiente; falta de investimento em saúde e, sobretudo, em educação.

Embora discorde veementemente da transposição do rio São Francisco, da pífia política de meio ambiente do Governo Lula; dos ricos permanecerem sendo subtaxados; da liberdade de cobrança de taxas bancárias; da suruba pró-corporações representada pelas tais “agências reguladoras”; por não haver voto distrital e nem voto facultativo no Brasil e tantas outras mazelas que resultam na pior distribuição de renda do mundo (responsável pela miséria, pela violência e pela ignorância total e irrestrita dentro de todas as classes sociais)…

…Mesmo assim, o Governo Lula representa, queiram ou não, uma evolução nas políticas públicas de investimento em saúde, educação e infra-estrutura perto de tudo o que vivenciamos nas últimas décadas.

Voto no PT por falta de escolha e porque acho o voto nulo uma covarde omissão resultante da desinformação, constituindo, assim, um falso protesto que não passa de falta de inteligência. Não votaria jamais na esquerda stalinista e considero o socialismo sem capital completamente inviável em um país de proporções continentais. Contudo, todas as opções de centro, de centro-direita e de direita existentes são, disparados, piores do que a pior das esquerdas. Não me canso de repetir: o Brasil nas mãos da direita jamais passou de nota 2; nas mãos do PT, é nota 4.

Voltando à multidão, à emergência e às conexões, portanto, a composição ora esdrúxula, ora aparentemente entreguista, ora até mesmo falsa que os parlamentares estaduais e federais do PT gaúcho têm feito com parlamentares do PMDB, do PDT, do PTB e do PP nada mais representam do que a necessidade de compor, de aparecer, de apresentar uma posição mais moderada e conciliadora, independentemente se seus antigos laços estão agora enfraquecendo (movimentos sociais, sindicatos, etc.).

O que não pode haver é a ruptura desses laços antigos, pois eles podem representar sempre a possibilidade de um novo alargamento entre o partido e eles. O que não pode acontecer é o alargamento dos milhares de laços fracos ora estabelecidos com os representantes da visão antagônica.

Portanto, é BURRICE fazer manifestações em frente à mídia corporativa gritando palavras de ordem contra ela e seus funcionários através de pessoas identificadas com partidos políticos, sindicatos e cooperativas. É BURRICE interromper o fluxo de pedestres, de automóveis e de trabalhadores, pois isso, ao contrário do que se pensava antigamente, não angaria novas adesões à causa alguma. Muito pelo contrário: gera tão-somente uma enorme antipatia por parte da classe média predominantemente mal informada, egoísta e reacionária.

Movimentos inteligentes com resultado prático são todos descentralizados, despartidarizados, desinstitucionalizados. Pode-se ir com um megafone e um punhado de gente como a ONG MSM (Movimento dos Sem-Mídia) tem feito recentemente. DEVE-SE oferecer palestras, congressos e cursos em qualquer lugar da sociedade, mas não mais predominantemente nos lugares tidos como “de esquerda”: que saia-se dos sindicatos, dos partidos e das cooperativas para dialogar com as escolas, com as empresas públicas e privadas, em cafeterias, lojas, livrarias.

Tudo isso sem interromper o fluxo e sem forçar a barra nas adesões.

Já pensaram na possibilidade de identificar as empresas que patrocinam colunistas de direita, entrar em contato direto com eles e avisar que há uma gigantesca massa pronta para receber milhões de e-mails, torpedos, panfletos, vídeos, telefonemas, etc. disposta a BOICOTAR seus produtos caso continuem investindo pesado nessa mídia mentirosa?!

Isso é verificar e denunciar as conexões. Isso é resistência e articulação descentralizada. Isso é um movimento social e político emergente.

A institucionalização político-partidária só permite que o Governo (seja lá de quem for) estabeleça suas relações em rede da forma como o sistema legislativo e eleitoral vigente permitem. Já a sociedade em rede ppode manifestar-se de maneira livre e espontânea.

Contudo, que fique bem claro: assim como as atitudes progressistas originadas em idéias socialistas e de esquerda podem emergir surpreendendo os mantenedores do status quo vigente transformando-o em uma outra coisa, também é possível verificar a emergência de movimentos descentralizados conservadores, para os quais devemos ficar atentos.

Por exemplo: na divisa entre os estados do Novo México (EUA) e de Chihuahua (México), há uma série de cidadãos estado-unidenses moradores daquela fronteira que fazem vigília dentro de suas próprias casas utilizando webcams voltadas para a rua, internet banda larga, comunidades virtuais e listas de e-mail “dedando” os imigrantes que pretendem fugir da miséria em sua terra natal mais ao sul em busca de oportunidades no norte. Muitos mexicanos pobres são presos, agredidos e até mortos em função dessa ação.

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10 Respostas leave one →
  1. 2007 Dezembro 12

    Helião, salve, salve, paz e bem.

    demorô, eu tô ligado, mas apareci. quae sera tamen, no entanto, que não se vive, como eu vivi, 30 anos nas Minas Gerais impunemente…
    muito bom, mesmo, tudo por aqui, com o que, hoje mesmo, qual um operador de telemarquetim, “vou estar lincando” o blogue do senhor lá na minha caxanga. isto, claro, não lhe trará “audiência” digna de nota, mas a intenção não é essa, e sim a de permitir a outras e tantos mais a leitura de bons textos – e, para mim, jornalista ôldi iscul que sou, quem tem que “ganhar”, e sempre, é o público, não o veículo.

    bueno, mas eu, sem nem pedir licença, gostaria de contar uma passagem que vivenciei recentemente, dado o ocorrido, de um jeito ou de outro, ter a ver com a lúcida observação que fizestes sobre o comportamento das gentes, as de ontem [equivocadas] e as de hoje [mais eficientes], nos ditos “protestos”.

    fui visitar uma amiga que mora em Ipanema. em dado momento, quis pitar um meu cigarrinho – é, não sou nada moderno, pois ainda pito e, como sou cafonérrimo, ainda gosto de mulher -, mas dado a casa não ter fumantes, e ainda ter crianças, desci à rua, pra baforar sem causar danos que não a mim mesmo. no que dou a primeira tragada, olho do outro lado da rua, e quem vejo? diogo mainardi.
    rapá, devo admitir: na hora, de mim para mim, exclamei aquele “é hoje” ao qual, normalmente, se segue alguma atitude pra lá de macha – nunca menos impensada, portanto -, compreendendo, ao final, alguma merda carecendo intervenção da turma do “deixa disso”.
    assumi, então, minha melhor pose do James Coburn – te lembras deste? – nos uésternis em que este fazia o tipo “não parece, mas sou capaz das piores coisas, beibe” – manjas, né? – e, com a língua, mandei o pito prum canto da boca, ajeitei a cintura da calça e danei a pensar ondé que eu meteria o balaço – no caso, de saliva.
    enquanto preparava a munição, buscada lá nos recônditos mais sinistros da pleura, a visão de um seu filho pedindo atenção ou colo me fez retroceder – e que bom isso. explico.

    primeiro, ocorreu-me que, cuspisse-lhe a fuça de gondoleiro em dia de chuva (ele morou em Veneza, afinal…), dar-lhe-ia uma espécie de ‘medalha’ da qual, depois, se orgulharia em sua coluna, dizendo o que tem provocado em petistas espalhados pelaí. isso, no entanto, seria o de menos. o que me fez retroceder, mesmo, foi o fato de pensar que eu, quando menino, se visse o meu pai tomar uma escarrada na cara, e sem reagir – porque alguém aí, em sã consciência, é capaz de imaginar aquela valentia exibida em revistinha sendo posta em prática na, como dizem fãs de novela, “vida real”? -, mas, dizia, eu, se menino fosse, carregaria aquela cena para o resto de minha vida, e não sem me envergonhar e entristecer pela mesma.

    mano, eu não tenho religião, tampouco minha fé vai para além do que pode – e deve – fazer quem me cerca, então a questão não era carregar um “pecado” desse na cacunca até o perdão final, mas de não querer deixar constar de minha já tosca biografia um ato tão vil, como o de arruinar os sonhos de uma criança, nos quais, ou em sua maioria, altivo e invencível, o pai é o protagonista.
    me ocorreu, entretanto, que ele mesmo, mainardi, não tá nem aí, quando escreve o que escreve unicamente para fortalecer o “estabelecido”, que, abusado que só ele, diariamente escarra na cara de quem o sustenta, mais do que com impostos e ou consumo, com o suor do trabalho, e com, apesar das humilhações diárias, aquela ‘paciência’ que o pragmatismo da sobrevivência reveste aqueles que não tiveram a “sorte” de saber escrever pra veja e afins – e os filhos destes humilhados que se fodam com os seus dilemas existenciais, referenciais, humanos, enfim. então, um último impulso, digamos, bobcuspeano ainda teimou em pedir vazão, mas, valente e cool qual James Coburn, resisti, e assim, acho (ainda não tenho certeza), fiz a minha parte – humanamente, digo. mas fiz, digamos, “algo”.
    antes de subir novamente ao apartamento da amiga, chamei o cabra com um “ei”. ele virou-se para o meu lado e me olhou com aquela cara de “é comigo”. antes de confirmar e dizer o que me ocorrera, aproveitei pra fazer a minha performance do Coburn – afinal, eterno garoto, não podia perder essa chance…. então, tirei o pito da boca, segurei-o em dois dedos, e depois deixei-o cair ao chão. canastrão pra chuchu, esmaguei o pito com a ponta da imaginária bota, e, com uma expressão de quem até perdoa, mas não esquece, disparei:

    - lembra, sempre, desta cena, de você pegando teu filho no colo, e dele olhando pra ti, quando for escrever as tuas colunas.
    - o quê? – indagou-me, perplexo, o colunista.

    dei-lhe as costas e subi ao apartamento.
    olha, Helião, sei que tu, como alguns para quem contei esta história, pode pensar que falhei, que tive a chance de redimir muitos, e não a aproveitei.
    pode ser, pode ser, meu camarada. mas rogo-te uma última atenção: a de não desconsiderar, em tua reflexão, que, ao fazer o que fiz, ao não fazer o que “deveria” ter feito, de alguma maneira, acho (eu ainda não tenho certeza, apenas sinto isso), eu nunca fui, em toda minha vida, tão homem – e não digo no sentido macho da coisa.

    perdoa aí o abuso do espaço. segue com este trabalho bom pra cacete que estás fazendo, salve, salve, paz e bem.
    baita abraço meu

  2. 2007 Dezembro 11

    Hello, just stoped by the comment section to thank you for the work you have been doing so others can enjoy your blog with a morning cup of coffe :)

  3. 2007 Dezembro 10

    RODRIGO: Valeu a lembrança! ;)

    MAIA: sem julgar ideologia, pessoas nem condições financeiras, é inaceitável que, hoje em dia, a sede municipal do PT não tenha internet banda larga nem um PC rápido (rápido não é sinônimo de caro). É inaceitável que, em uma sociedade na qual mais de 80% de todos os assuntos comentados por TODA a população têm origem na mídia, a maioria dos assessores de quase todos os parlamentares petistas – que são jornalistas – não monitorem o que se fala deles na mídia corporativa e não municiem seus chefes de material farto e verídico encontrável em sites do Governo e na mídia alternativa nos debates. Aliás, surpreende muito o fato de que a retórica antiga e o despreparo estético e discursivo dos candidatos de esquerda diante das câmeras poderia ser facilmente contornado através de aulas e de um treinamento pouco dispendioso e pouco rigoroso a fim de concorrer pau a pau com a esperteza de seus adversários na exposição midiática.

    Seria muito fácil destruir todo e qualquer argumento da direita e reconquistar a classe média caso houvesse coesão e interesse.

    []’s,
    Hélio

  4. 2007 Dezembro 10

    Bom texto, Helio e concordo parcialmente com ele, mas o pessoal da esquerda gaúcha certamente não vai concordar.

  5. 2007 Dezembro 10

    Muito bom esse texto!
    Vou recomendar a leitura lá no Cão.

    Abraços,
    Rodrigo

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