Manuela Midiatizada
A discussão sobre uma política séria em domínio da midiatização (conceito que vou destrinchar em um de meus próximos posts) esbarra em uma mentalidade extremamente primitiva. Não sei nem se a estrutura hoje multifacetada e inchada do PT seria capaz de deixar de ser engessada por uma simbologia que não tem mais como representar uma esquerda dialética fundamentada no discurso da luta entre classes, já que essa visão é incapaz de corresponder aos anseios dos que mais precisam.
Toda e qualquer mudança de mentalidade pressupõe boa vontade, interesse e compromisso em atualizar-se depois de uma necessária entropia, a qual ninguém deve temer.
Nesse ponto, o pragmatismo piegas envolto em rituais que confundem antigüidade, meritocracia e engajamento com a mera pertença a grupos sociais que fundaram e ainda acreditam no estatuto e no programa do partido apenas reforça a retórica caciquista. Isso não vale apenas para o PT mas, sim, para qualquer partido.
À exceção do deputado Fabiano de Santa Maria, qual a nova liderança surgida no PT gaúcho nos últimos 10 anos?!
A única novidade da esquerda gaúcha é a deputada federal Manuela D’Ávila (PC do B). A Manu tem um apelo midiático interessante: é uma guria nova, bonita, as crianças adoram ela (o assédio é impressionante – parece uma daquelas adoradas ‘tias’ de maternal), já é casada e não expõe sua vida pessoal.
Ela é jornalista. Portanto, pressuponho que conheça razoavelmente bem a linguagem da mídia. Por um lado, sabe que não há espaço para apresentar uma visão mais crítica e mais reflexiva através da Grande Mídia, a fim de conscientizar o público.
Por outro lado, também sabe que precisa ser vista para ser lembrada, ao invés de dar uma de Dom Quixote contra o Pensamento Único da Mídia. Isso é fundamental para a sua sobrevivência política.
Na medida do possível, costuma gravar grande parte de suas suas entrevistas para evitar que o jornal descontextualize suas palavras. É uma forma de se proteger. Todavia, ainda quero saber se ela teria coragem de peitar algum desses jornacríticos golpistas e como. Torço para que a nossa jovem parlamentar passe por um sufoco desses pra sabermos se, de fato, ela tem “cojones” ou não pra segurar o rojão. E – claro – pra vermos se ela tem jogo de cintura e inteligência pra passar por cima dessa lógica, quebrando o paradigma da relação com o poder midiático.
Em princípio, seu grande erro foi ter aceitado manifestar-se n’O Globo, por intermédio do péssimo colunista Noblat. O ideal seria ter-se juntado a alguém confiável como o Paulo Henrique Amorim ou o Luiz Carlos Azenha. Ao mesmo tempo, poderia ter um blog atualizado e bastante reflexivo, a exemplo da melhor vereadora de esquerda deste país, a comentarista esportiva Soninha Francine, da ESPN Brasil.
Seguindo o baile: ela está certíssima em ter escolhido o PC do B. Conforme ela mesma diz, se ficasse no PT, teria que esperar décadas para tornar-se vereadora, depois deputada estadual, depois federal e, quem sabe, prefeita ou governadora, justamente pela confusão entre antigüidade, meritocracia e pertença que perpetua o caciquismo nos partidos mais inchados.
Um partido de esquerda com quadros reduzidos e pouco observado em nível municipal, estadual e nacional tende a acolher idéias oxigenadas com maior facilidade. Dessa forma, transforma-se e, sobretudo, mantém-se atualizado.
Precisamos conhecer melhor a grande favorita à prefeitura de Porto Alegre em 2008. Caso se confirme essa especulação, Manuela D’Ávila tende a ser suportada por uma coligação que já deu força ao próprio PT, formada pelo seu PC do B, pelo PSB de Beto Albuquerque (que, apesar das restrições do Cristóvão Feil no Diário Gauche, poderá ser um candidato a governador melhor do que todos os da direita e com um apelo junto à classe média muito mais simpático do que o dos velhos líderes do PT).
Diante dessa hipótese, o PT poderá perder sua militância, cuja fidelidade será posta à prova.
technorati tags:PT, PC do B, Manuela DAvila, Manuela, Manu, esquerda, política, mídia, midiatização
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Hélio…
Gostei do blog. Visitarei mais vezes.
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Láldert