Muito Além do Menino João Hélio

2007 Fevereiro 13
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by heliopaz

Diante de tanta falta de discernimento sobre o que a mídia realmente quer induzir a classe média a pensar após a maneira brutal com que o menino João Hélio Fernandes de apenas 06 aninhos foi morto, decidi transferir para cá o que escrevi no tópico relacionado publicado na comunidade Balzaquianos de Porto Alegre no Orkut. A comunidade co-irmã das Balzaquianos, a Butequeiros de Porto Alegre, também oferece outro tópico sobre o assunto…

SEJAMOS MAIS CRíTICOS!!!

Não dá pra embarcar na cantilena da
mídia de massa. Eles não fazem mais jornalismo e, sim, “showrnalismo”.
O fato em si deve ser relatado como ele se passou e sem cortes. A
edição, isto é, o corte e a troca de ordem de imagens e de falas em
relação à seqüência real do acontecimento, assim como a entonação do
âncora ou as palavras que algum colunista “dono da verdade” de algum
jornal induzem as pessoas a pensarem como ELES querem que as pessoas
pensem, fugindo do fato em si.

É
inegável que foi um fato trágico. É inegável que foi violento e que a
criança era uma inocente. Porém, da mesma forma que não dá para
defender ou justificar a ação criminosa, também não é possível deturpar
os fatos querendo levar a discussão para um lado que só interessa aos
políticos de carreira, às multinacionais, aos banqueiros e aos
latifundiários. São eles o verdadeiro mal do Brasil, os grandes
responsáveis pela violência urbana, na medida em que são muito poucos
os que têm muito e centenas de milhões os que não têm nada.

O RJ
não é, de forma alguma, “o berço do ódio”. Ao mesmo tempo, a mídia
mostra muito mais notícias negativas do que positivas (que não são
poucas; porém, segundo eles ‘não vendem’). Uma cidade com 4x a
população e 3,5 x a área de POA tem exatamente 3,7 ou 3,8x mais
assaltos a pedestres, furtos de veículos, produtos piratas, camelôs,
polícia corrupta, homens que espancam mulheres e violentam filhas, mães
que espancam filhos e menores de rua do que aqui. Porto Alegre é igual.
Só não tem morros que grudam a classe E e a classe A no mesmo espaço e
o nosso aeeroporto não recebe cargas clandestinas do mundo inteiro.

A
mídia se aproveita do fato da classe média gostar de receber tudo
pronto sem parar pra procurar uma visão diferente. Se aproveita de que
acreditam em tudo o que ela conta como se fosse verdade.

Ninguém nunca parou pra pensar que o discurso que induz as pessoas a
acreditarem na diminuição da idade da maioridade penal é pura lavagem
cerebral a partir de um fato trágico para que as pessoas pensem como
eles querem?!

Alguém
aí parou pra pensar que, dos cinco criminosos, apenas três estavam no
carro e que, dos cinco, apenas um era menor?! Alguém encontrou algum
indício de que o menor era o motorista ou algum dos outros dois que
estavam dentro do carro?! Alguma prova de que, caso o menor estivesse
dentro do carro e não fosse ele o motorista, caso o motorista tivesse
feito menção de parar para recolher a vítima, que tenha sido realmente
o menor quem botou pilha para o motorista seguir adiante?!

ISSO NÃO FOI DITO EM LUGAR NENHUM. Logo, há algum interesse por trás disso!!!


porque disseram que havia um menor entre os bandidos, o menor virou o
mentor, virou o motorista, virou o mais cruel de todos. Até pode ter
sido. Porém, ninguém aqui pode esquecer que ninguém pode ser
responsabilizado por nada até prova em contrário.

Aí, a comoção
em relação ao triste episódio impede as pessoas de refletirem de uma
maneira mais ampla, pois, em estado de choque, as pessoas tornam-se
revoltadas e impulsivas. Todos os canais, todos os jornais, todas as
rádios passam o dia inteiro enchendo o saco com um assunto que já se
esgotou porque os criminosos estão na cadeia, a família está sofrendo,
os sobreviventes já deram o seu depoimento e a justiça está tratando do
caso.

É cedo demais para dizer que os criminosos irão sair
impunemente desse caso. É cedo demais para afirmar que a Justiça é
morosa ou que existe impunidade. Por acaso alguém aí tem algum indício
de que o delegado ou os policiais que prenderam os infratores são
corruptos ou morosos?! Não. Portanto, antes de culpar o sistema por
este fato em si, melhor esperar o desenrolar do julgamento para ver se
a Justiça trabalhou corretamente ou não.

Bem… Diante da comoção gerada pela insistência e pela falta de
apuração completa dos fatos, levanta-se uma voz (um teclado ou uma
caneta) conservadora, retrógrada, reacionária que, definitivamente, vem
da classe A ou B, dizendo que deve-se diminuir a idade penal e
controlar a natalidade.

Nenhum de vocês nunca parou pra pensar que esse tipo de medida só atinge aos pobres?!

Antes
de entrar nesse ponto, vamos voltar à redução da idade penal: um menor
de 16 anos pode matar, sim. Aí, reduzem a idade penal para 16 anos. Um
traficante de 16 anos já morre do mesmo jeito que um traficante de 18
anos ou, seja, em disputas internas pelo poder do tráfico. Muda alguma
coisa? NÃO.

Seja um homem musculoso de 30 ou um guri esquelético
de 10 que roube uma maçã e seja pego, vai ser fichado, levar umas
cacetadas e passar pelo menos duas noites no xilindró (o primeiro, na
cela da delegacia; o segundo, na FEBEM). Muda alguma coisa? NÃO.

Crianças
e adolescentes, justamente por falta de maturidade, quando querem ser
cruéis, são muito mais cruéis do que a maioria dos adultos. Caso fosse
aprovada a criminalização aos 16 anos, apareceria uma gangue de meninos
de 13 e 14 anos que matou uma velhinha a pancadas. Aí, iriam querer que
menores de 13 anos fossem julgados e encarcerados junto com adultos.
Mais adiante, apareceria uma menina de 9 anos que tacou fogo no irmão
de 5 porque ele arrancou os cabelos de sua boneca…

A minha
sobrinha que vai fazer 14 anos em março, tinha 6. O meu sobrinho que
vai fazer 9 em junho, tinha 1. Eu fiquei cuidando deles, na minha. Eles
moravam num apê com sacada no 7º andar. Ela pôs um banquinho pra ele
subir e cair lá de cima “acidentalmente”. Não dei nela, nem a pus de
castigo. Minha irmã nunca soube disso.

Bastou alguém ficar em
cima, olhar pra ela com cara de reprovação, que ela saiu correndo,
chorando de vergonha. Seria ela uma criminosa?!

Enfim… Por que diabos quando é uma pessoa de classe A ou B a criança
ou o adolescente tem problemas emocionais, ou é porque os pais são
separados, ou é porque foram criados pela empregada, ou é porque os
pais trabalham o dia inteiro, ou é por ciúme?!

A
criança mal vestida, sujinha, que mora num lugar caindo aos pedaços,
foi criada sem carinho, sem respeito, sem valor, sem ser devidamente
ensinada a ter ética ou moral ou encorajada a ter ambição e força de
vontade para conquistar coisas com honnestidade e buscar desenvolver
suas principais qualidades, quando falha, não tem perdão.

Por
que o PC Farias, a Georgina e o Lalau foram esquecidos ou não geraram
uma revolta ou uma comoção tão grande?! Eles são muito mais assassinos
e muito mais ladrões do que o motorista que moeu o menino no asfalto.
Porque esse criminoso não vai matar mais do que meia dúzia na vida dele
e não vai conseguir roubar mais do que alguns poucos milhares de reais,
pois é muito fácil pegá-lo. É cruel? Sem dúvida. É atroz? Claro que é.
É frio e violento? Obviamente que sim.

Agora, os peixes grandes,
que roubaram dinheiro público, pra ser investido na Previdência e no
Judiciário, tiraram a vida de dezenas de milhares de pessoas que não
puderam ser operadas a tempo; que ficaram ao relento na fila pra marcar
um exame, enquanto seus tumores iam consumindo-as por dentro…

Todos
os dias, centenas de milhares de joões hélios de seis anos são morrem
no mundo inteiro por um tiro ou por um carro; de fome, de frio, por
doenças ridiculamente curáveis caso o pronto-socorro mais próximo ou o
hospital de plantão tenham uma quantidade suficiente de médicos,
enfermeiros, leitos e medicamentos para que ele fosse imediatamente
operado.

A impunidade é para o peixe grande, pois ele acoberta e
põe os representantes de seus interesses no Congresso. Ele pode roubar
e matar, mas suas atrocidades, que atingem muito mais dinheiro e muito
mais vítimas do que um pistoleiro, passam em branco.

Aí, ninguém faz força pra prender o PC, a Georgina, o Lalau, o Collor
ou o ACM porque eles têm curso superior, nunca foram pobres, nunca
andaram molambentos, sabem se expressar, usam terno e gravata e…
APARECEM TODA HORA NA TV!!! “Ah, se aparece na TV, então ele é
importante!”

Essa é a visão que a mídia traz dos maiores bandidos do país para a classe média embarcar.

Os
caras estão quase impunes. Um deles foi morto como queima de arquivo e
deixaram por isso mesmo. Dos filhos dele, que ficara órfãos mas podres
de ricos e foram estudar na Suíça, a classe média ficou com pena. Aí,
fecham o vidro do carro e nem olham na cara do menino pedindo troco na
esquina.

É DESSA HIPOCRISIA QUE EU TENHO NOJO: o “bonito” e
“culto” que rouba e mata milhares sem usar uma arma ou um carro e
passará a sua vida inteira roubando cada vez mais é apresentado como
“menos bandido” do que o sujo, feio, pobre que dá um tiro em dois ou
três e nunca mais irá fazê-lo na vida.

Roubam da Previdência e
não punem os culpados. Essa impunidade é muitíssimo mais grave, pois
mostra que boa parte dos políticos ou está comprometida, ou está de
mãos atadas: se procurar punir os responsáveis pela corrupção, podem
morrer ou seus projetos visando o desenvolvimento sustentável e o bem
do povo como um todo jamais serão aprovados.

Como conseqüência,
um círculo vicioso: o Governo aumenta impostos para tapar o rombo, que
nunca é tapado; a qualidade dos serviços públicos piora, gente morre e
fica doente por besteira; profissionais são desvalorizados;
fornecedores viram credores; e, finalmente, a culpa é sempre do sistema
público: o Bradesco, o Itaú, o Unibanco, etc. vendem seus planos de
previdência privada por um valor absurdo, a classe média fica descrente
no sistema público de forma geral e cai no conto dos bancos…

…QUE SÃO ACIONISTAS E ANUNCIANTES NA MíDIA!!!

E vocês todos tornam-se inocentes úteis nas mãos deles.”

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5 Respostas leave one →
  1. 2007 Agosto 10

    Adoro seu programa mais só escuto depois das 10, pois não acordo antis durmo muito tardi um beijo no Otto Bed /acho os 2 maraaaaavilhosos sou de canos ti acompanho a muitos anos beijos

  2. 2007 Agosto 10

    Adoro seu programa mais só escuto depois das 10, pois não cordo antis durmo muito tardi um beijo no Otto Bed /acho os 2 maraaaaavilhosos sou de canos ti acompanho a muitos anos beijos

  3. 2007 Março 1

    Parabéns, Hélio, pela consistência e qualidade dos argumentos … e pelo posicionamento!
    Assino em baixo. Basta de hipocrisia!
    Abraço,
    Júlio Garcia

  4. 2007 Fevereiro 14

    Prezado Hélio, a propósito da crueldade infantil é preciso ler o Jean Paul Sartre na sua autobiografia “As palavras”. Veja ali o quanto podem ser pérfidas e selvagens as crianças, constatação do próprio Sartre. Ele dizia que o homem é um ser inacabado, no sentido de incivilizado, não pronto para o convívio com os demais. Agora imagine a criança, que é um projeto de homem/mulher. O comportamento da tua sobrinha é absolutamente normal, embora chocante. Acontece que temos uma idealização das crianças (e do próprio ser humano) que não corresponde à nossa história pregressa. É só examinar o passado.
    Acho teu texto muito bom, mas está longo demais para blog e internet. Acho que tens que zipar mais as tuas idéias manifestas em texto. Mais síntese! Quanto a Foucault/Deleuze, etc. eles são ótimos. Qualquer coisa desses caras é show de pensamento lúcido e criativo, no sentido de negação da ordem burguesa. Tudo neles é frescor e revolução. Mas eu precisaria saber melhor o teu objeto circunscrito de estudos para te sugerir autores. Outro cara fundamental é o Barthes, e o Derrida… são tantos!
    Abraço!

  5. 2007 Fevereiro 14

    Lucidez de raciocínio nesta hora é tudo o que precisamos, Hélio. Brilhante e pertinente a sua análise. A Beatriz Fagundes está debatendo este tema durante esta semana no seu programa diário na Rádio Pampa (das 9 às 12h), o endereço de email dela é beatriz@osul.com.br, fica a sugestão para que envies o texto para ela, assim as centenas de ouvintes terão uma boa dose de argumentação diferente da cantilena global. Vou recomendar a leitura do teu texto lá no Brisa. Abração.

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